Páginas de Voltura #01 – Os Águias Negras parte 1

Olá a todos, como vão?

Este pequeno espaço destina-se a contar as desventuras do meu grupo de RPG de forma um pouco floreada, afim de satisfazer meu desejo de começar a escrever. Ao final de cada post eu comentarei mais sobre a sessão e sobre os desafios e prazeres de mestrar uma aventura de RPG. No futuro pretendo fazer isso com outros sistemas e aventuras, mas por enquanto irei escrever sobre nossa campanha atual, que se passa nesse pequeno cenário que criei, Voltura.

Voltura 2 Texturizada 2
Como podem ver, não tenho perícia em edição de imagens e nem vergonha na cara também!

Voltura é um continente com muitos reinos e cidades que atrai viajantes de todos os lugares, um local que atrai diversas culturas que convivem nem sempre em harmonia. É neste cenário que nossos aventureiros (que nem de longe são heróis) enfrentarão perigos para que eu possa registra-los aqui.

Esta campanha foi iniciada há muitos meses e não pretendo conta-la do inicio por enquanto, portanto, não estranhem o fato dos personagens (pelo menos dois deles) não serem de primeiro nível. Mas não se preocupem, eu menciono fatos do passado para não deixar ninguém perdido. Agora vamos às informações de jogo:

Sistema: Old Dragon (D20).

Personagens:

  • Elfric (nível 7): anão guerreiro. Ex-guarda de cidade que se viu forçado a encarar o mundo após sua esposa ter sido feita escrava pelos Homens-Lagartos. Tem como arma favorita uma montante.
  • Minukelsus (nível 6): humano necromante. Após ter sido curado de uma doença que o deixou repleto de cicatrizes, ele aprendeu o ofício da magia e busca itens mágicos para sua mestra. O grupo acha que ele é apenas um mago comum.
  • Trevor (nível 1): humano homem de armas. Após ter escapado do cerco a cidade de Nis, decidiu criar uma companhia de mercenários e ganhar muito dinheiro. Tem olhos dourados.
  • Arkos (nível 1): humano bárbaro. Saiu da sua tribo afim de explorar o mundo e descobrir as recompensas que ele traz. Usa o totem da tartaruga.

Boa leitura!

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O primeiro nível de Velq.

O final do outono golpeia a grande cidade de Velq com chuvas frias e um fluxo caótico em suas ruas circulares e espaçosas. Homens e mais homens chegavam incessantemente em pequenos grupos, procurando alguém esperto o suficiente para entregar-lhes promessas de prata, ouro e mulheres. Eram refugiados da guerra, do cerco que houvera há quase duas semanas, em Nis, cidade situada sobre uma alta duna no deserto do reino de Colchis. Brigavam por um espaço abaixo das passarelas flutuantes que conectavam as torres de pedra, também flutuantes, da rica cidade.

E abaixo de uma dessas passarelas, havia um jovem de feições arrogantes e olhos amarelos prestes a discursar e tentar emocionar uma plateia.

– Com licença, senhores. – passou entre ombros e virou-se para dez homens abrigados sob a passarela. – me chamo Trevor, e conquistei merecidamente o apelido de Olho de Águia. – disse o jovem com entusiasmo, embora esta seja uma alcunha conhecida apenas por ele mesmo. – E peço sua atenção para uma oportunidade de ganhar riquezas e poder! – levantou sua voz e jogou seu longo cabelo castanho escurecido pela chuva para trás. – formaremos uma companhia.

Alguns homens tossiam, outros conversavam sobre batalhas. Três estavam tirando piolhos da barba. Um se manifestou.

– Você tem um contrato? Quantos homens há com você?

– Bom, ainda não arrumei contrato algum e tenho – parou para pensar, enganar pessoas não era o seu forte. – poucos homens. Mas com uma dúzia…

– Você não tem uma dúzia? – perguntou o homem curioso. – Você não tem jóias, e essas roupas me parecem um pouco puídas – o homem fora bondoso a respeito das roupas. Olhou para a aljava com flechas junta à cintura de Trevor. – Você é um arqueiro? Que tal juntar-se a companhia de Ettal Fahrell? Ele paga bem por arqueiros.

– Estou cansado de seguir ordens. Tive que escapar de dois exércitos por causa de comandantes estúpidos.

Trevor tentou convencer os homens a juntarem-se a ele, mas era pobre demais, desconhecido demais e estava chovendo. Em dias como este, a chuva faz escorrer a alegria dos homens junto a sujeira do corpo.

O arqueiro queria montar uma companhia de mercenários para levantar dinheiro após o desastre que fora Nis. A cidade foi sitiada por um exército e conquistada após um penoso cerco de 28 dias, e isso só havia acontecido pois o líder do exército que a cerceará, o rei Devan, desrespeitou uma conferência para negociar termos de uma possível paz com o líder da cidade e o capturou. Violar a paz de uma conferência de negociação enfurece os deuses. E depois de três dias, mais de quinhentos homens de Arminium, o reino inimigo, invadiu Nis e massacrou suas tropas, que haviam se rendido, e as tropas do rei Devan, que fora visto pela última vez sob as grevas de aço de vários guerreiros numa parede de escudos arminiana. Morreu pisoteado.

O jovem arqueiro estava entre os defensores da cidade caída e conseguiu fugir de lá enquanto os arminianos executavam sua matança organizada. Conseguiu roubar algumas coisas a caminho de Velq e com isso queria levantar uma pequena tropa para comandar e ganhar dinheiro a serviço de nobres, comerciantes ou qualquer um com prata e ouro tilintando das bolsas de couro. Passou três dias até perceber que teria que pagar adiantadamente uma semana de serviços prestados aos homens se quisesse alguma atenção deles. Pagou a 10 homens 3 peças de ouro cada. Ficou sem dinheiro para oferecer quando um homem alto, de peito largo e pele morena, à cavalo, se aproximou.

– Você tem homens, portanto, deve ter ouro e prata. – disse o homem em tom carrancudo. – E eu mato por ouro e prata.

Trevor franziu a testa devido a abordagem do homem, depois o avaliou. Tinha cabelos longos que estavam limpos pela chuva, usava uma armadura de couro velha, com um rasgo lateral que enviou seu antigo dono para o Outro Mundo, Trevor supunha, e não possuía escudo, mas levava um punhado de armas que ressoavam a cada passo teimoso que o magro cavalo dava. Havia uma espada, provavelmente longa, presa na bainha do cinto e uma adaga também presa à cintura. Uma maça e um martelo de mão com marcas escuras na pedra pendiam da sela do cavalo. As calças do homem eram sujas e rasgadas, e ele estava descalço.

Arkos, o selvagem.
Arkos, o selvagem.

– E deve matar mesmo. – disse Trevor, com um meio sorriso no rosto. – Mas devo dizer que não possuo prata ou ouro para pagá-lo adiantadamente.

O homem encarou o jovem arqueiro com uma expressão que não traía qualquer sentimento. Depois desceu do cavalo, e quando Trevor deu um passo hesitante para trás, deu um sorriso que mais parecia um lobo rosnando.

– Quanto você irá me pagar? – Perguntou o homem enquanto puxava o cavalo pela rédea para perto de Trevor.

– Três peças de ouro por semana.

– Seis peças? Justo. Eu mato por seis peças.

O arqueiro estava pronto para negar as seis peças por semana ao homem, mas por um momento ele se deu conta que sentiu-se ameaçado por aquele sorriso bizarro e amarelado, e pelo cuidado com as palavras que aquele homem provocava em sua mente. Pensou que isso seria muito útil em sua companhia.

– Certo, seis peças. – disse Trevor, relutante. – Mas é bom que valha o dobro do preço do restante dos homens.

– Valho por três. – expôs os dentes novamente na tentativa de um sorriso. – Arkos. – parou, como se formulasse uma frase. – Meu nome é Arkos.

– Eu sou Trevor Olho-de-Águia.

– Nunca ouvi falar. – olhou para os homens reunidos. – Você tem um capitão?

– Não.

– Agora tem.

Arkos foi até os homens e se acomodou num banco, perto de uma mulher que dançava em plena praça para atrair qualquer um disposto a pagar por seus serviços. A mulher era bonita, e Arkos puxou uma bolsa de couro da cintura e começou a contar moedas, mas viu que eram insuficientes e ficou decepcionado. Um mendigo com apenas uma perna se arrastou para perto do recém contratado e pediu algumas moedas. Ganhou um pontapé e foi tentar a piedade de outros homens.

Deve ser um selvagem do litôral de Lughdis, ou da fronteira montanhosa de Napes. – concluiu Trevor.

Além de Arkos, à trinta passos de distância, um homem de capa e capuz verde segurava cautelosamente uma caixa de madeira em meio a barracas e pessoas. O homem olhava para os lados, nervoso, e tomou um susto quando sua capa ficou presa numa lasca de madeira de uma barraca que vendia grãos. Enquanto tentava se libertar, Trevor vislumbrou uma bela empunhadura de espada presa à cintura do sujeito. Havia jóias naquela espada, e o rosto do arqueiro foi tomado por uma cobiça típica de mercenários, irracional e perigosa, mas que lhes mantém vivos, caçando dia após dia. Observou o homem entrar na estalagem “A passarela” que fica entre duas passarelas flutuantes que podiam ser usadas como acesso ao primeiro ou ao segundo andar da grande estalagem. Outros três homens vestidos da mesma maneira entraram na estalagem alguns momentos depois.

– Se quer minha opinião, senhor, ali há encrenca. E onde há encrenca, há moedas a serem ganhas por um grupo inteligente.

Ysa.
Ysa.

Trevor virou esperando ver Arkos, mas a voz que escutara era muito mais fina e doce, uma voz de mulher. E muito bonita. Tinha pele morena, como poucas mulheres em Voltura possuem, e olhos cor de mel. Cabelos negros e compridos e um rosto harmonioso. Um conjunto de finas marcas brancas na bochecha esquerda e no pescoço ameaçavam essa harmonia. Pareciam cicatrizes.

– São cicatrizes. – confirmou a mulher, observando Trevor. – Eu era uma escrava nas Ilhas Desoladas. Mas hoje sou livre, e procuro um trabalho. A propósito, meu nome é Ysa, e o senhor deve ser Trevor Olho-de-Águia!

Um relâmpago de satisfação atravessou o rosto de Trevor e brilhou em seus olhos cor de ouro. Ele sorriu e assentiu com a cabeça.

– Como pode ver, eu não sou guerreira. Possuo apenas uma adaga para me defender. – ela bateu na arma que estava presa à faixa que prendia seu vestido na cintura. – Mas posso lavar e costurar roupas, remendar botas, pintar escudos, polir armaduras, cozinhar e desenhar. Sim, eu sei desenhar! – Disse Ysa, com um sorriso alegre.

– Nós não temos muito dinheiro e nem base, de modo que terá que nós acompanhar para trabalhar, e dessa forma, não posso garantir sua segurança. – Observou Trevor.

– Sem problemas. Pague-me 5 peças de prata por semana e eu o seguirei.

– Então, seja bem-vinda, Ysa. Vou te apresentar aos meus rapazes.

Ele apresentou Ysa aos homens, que a olharam com bastante luxúria. Arkos principalmente. Ele claramente a despia com muita satisfação em sua mente. Era tão óbvio que Ysa se sentiu desconfortável e sentou ao lado de Oteu e Ozill, dois irmãos anões que vieram de Napes em busca de emprego. Trevor ficou surpreso ao ver que ela sabia conversar na língua anã.

Deixaram a mulher conhecendo os homens e juntos, Arkos e Trevor foram até a estalagem descobrir quem estava hospedado por lá e perguntar se aqueles homens reservaram algum quarto. Descobriram que ninguém havia visto os encapuzados, mas que ouviram muitos passos e uma correria no primeiro andar há alguns minutos. Com duas peças de prata eles souberam que naquela estalagem estavam hospedados Ettal Fahrell, Minukelsus, o Corvo Branco e Elfric Barba-Ruiva. Todos eles homens ricos e com grande reputação. Mais duas peças de prata lhes disseram que nenhum deles estavam na estalagem naquele momento, e resolveram espera-los do lado de fora, com os homens na praça.

Fugindo de Nis.
Fugindo de Nis.

Elfric reclamava.

Reclamava, xingava e balbuciava palavrões inventados por ele mesmo. O anão viera todo o caminho de Nis até Velq reclamando. A viagem durara 14 dias e seus companheiros não podiam lhe dar conforto algum. Também estavam perdidos, apenas seguindo a estrada.

Era uma caravana de quase duzentos homens, todos fugitivos de Nis. Elfric lutou pelo exército do rei Devan. Era um capitão, e observou o enxame arminiano tomar as ruas e matar seus amigos. Ele juntou uma parede de escudos e enfrentou um pequeno grupo inimigo. Venceu, mas estava cercado, teve que fugir.

Seu amigo, Acclon, morreu nessa batalha, em um duelo singular contra um desconhecido que agora pode se gabar de ter derrotado Acclon, o martelo dos deuses. Elfric carregou o corpo do amigo para fora da cidade, e dois dias depois, longe dela, fizera um funeral apropriado para o companheiro de muitas batalhas. Junto do anão, outros dois amigos seguiam a caravana.

Minukelsus.
Minukelsus.

Minukelsus era um deles. Era um mago muito esquisito, que conseguia provocar medo e pena ao mesmo tempo. Magro como um graveto, tinha as costas um pouco curvadas e possuia um tremelique nas mãos, como se estivesse sempre alisando e sacudindo um grimório invisível. Sua pele era medonha. Estava pálida, aos poucos tomando uma coloração acinzentada. Possuia queimaduras horrendas nos braços e no rosto, e feridas que pareciam estar para sempre em processo de cicatrização. Seus cabelos loiros ficaram desbotados, e muitos fios brancos apareceram. Nas costas, levava uma mochila bizarra feita de couro e ossos costurados, com uma caveira humana no topo. Minukelsus conversa com ela.

O outro era Oisin, um dos líderes de uma organização religiosa chamada O Círculo. Alto, barba e cabelos negros volumosos, e aos poucos recuperando sua antiga força de guerreiro.

Há meses ele sofrera uma atentado a sua vida quando muitos homens armados com lâminas embebidas em veneno tentaram matá-lo. Sua esposa morreu no ataque, e Oisin perdeu a mão esquerda e ficou manco devido ao veneno. Só sobreviveu ao ataque por causa de Minukelsus, que o salvou. Como ele acredita que fora um ataque por parte da organização responsável pelo controle de itens mágicos em Voltura, chamada O Olho Vigilante, Oisin prega contra o poder e a liberdade que esta organização recebe dos reinos e contra a magia em si, que ele chama de “A obra de Érinn”, o Deus do caos que supostamente havia nascido e se alimentado dessa força.

Não só de arengas contra a magia que O Círculo sobrevive. Ele oferece um modo de adorar aos deuses dos diversos povos e culturas diferentes que colonizaram Voltura sem ofendê-los. Na teoria, os deuses eram diferentes e requeriam rituais diferentes. Na prática, eram todos iguais. Mas O Círculo disfarçava bem isso com rituais que podiam ser adotados por todas aquelas culturas sem muitos problemas.

Oisin dizia ver o futuro, e meses antes previu a vitória do rei Devan, em Colchis. O rei iria acabar com a guerra cívil em seu reino e esmagaria os arminianos. Parece que ele previra errado, e a frustração infiltrava sua alma. Para protegê-la, Oisin bebia.

– Cerveja choca, vinho azedo e hidromel mofado! Posso viver assim para sempre! – exclamou Oisin, depois de beber meio barril de cerveja de um fiel do Círculo. – O que me diz, corvo branco?

Esse era Minukelsus. Oisin pôs esse apelido no mago após o atentado. Tinha a ver com a máscara branca em formato de bico de corvo que Minukelsus usava.

– Você está falando bobagem, Oisin. É melhor parar de beber. – alertou o mago. – O que os homens que o seguem vão pensar te vendo nesse estado?

– Dane-se. Eu só quero beber um pouco para me divertir. – Oisin ergueu a caneca de cerveja e ficou de pé, perdeu o equilíbrio e caiu da carruagem onde estava sentado.

Elfric, montado em um pônei, estava próximo.

– Ótimo, e eu ainda tenho que lidar com esse tipo. Chove e faz um frio digno das profundezas do castelo de Manawydan, e não temos cobertores. Estou sem minha mulher, tenho uma dívida enorme a pagar e ainda tenho que lidar com esse beberrão estúpido. – Elfric reclamava. – Levanta esse bosta de bode e tire aquele barril de perto dele, antes que os trouxas que o seguem venham até aqui ouvir as merdas que ele vomita.

Minukelsus ajudou Oisin a se recompor e manteve o líder religioso entretido em uma conversa qualquer até que ele fosse envolvido pelo sono.

E enquanto isso, Elfric reclamava.

Elfric Barba-Ruiva (imagine que ele é ruivo!).
Elfric Barba-Ruiva (imagine que ele é ruivo!).

Chegaram a Velq sob forte chuva, e não tiveram problemas pelo caminho. As planícies de Lughdis, reino onde ficava Velq, eram repletas de arbustos frutíferos e bosques com pequenos animais. As estradas da parte oeste do reino estavam livres de bandidos devido as tropas do reino que marchavam e montavam guarnições, cientes da queda de Colchis e de que Arminium poderia vir a incomodar suas fronteiras. Mas não houvera problemas.

Elfric e Minukelsus já estiveram várias vezes em Velq. Gostavam da cidade, por ser limpa, rica e mágica. A cidade foi construída junto a um paredão de pedras, moldaram essas pedras em forma de anéis, degraus circulares que ficam cada vez menores conforme você a desce. Os primeiros anéis são da altura de uma casa de até dois andares e largura suficiente para comportar essas construções e pedestres. Escadas e rampas conectam os círculos, que vão da parte mais alta, onde fica a entrada da cidade, até a parte mais baixa, descendo o vale onde fora construída. Velq parece um enorme cone de cabeça para baixo, feito de pedra.

Abaixo do último degrau de Velq há uma vila, que possuía o mesmo nome, mas que fora atacada por um poderoso mago e um exército de Kobolds há centenas de anos. São ruínas habitadas por mendigos e ladrões, e qualquer pessoal indesejável lá em cima é atirada nesse local desolado. O anão e o mago são queridos nessas ruínas, por terem ajudado o povo que lá mora contra algumas ameaças. Mas Elfric queria distância desse povo, mendigos, como ele dizia. Foi até a mais frequentada taverna de Velq, “As Torres Flutuantes”. Não para beber e relaxar, queria cobrar explicações do dono da taverna, que por acaso, era seu sócio.

– Elfric! Minukelsus! Como vão? – Toby, o dono da taverna, um anão de cabelos loiros presos num rabo de cavalo e barba pequena bem cuidada , saudou os visitantes. – Há quanto tempo! Viu que o negócio cresceu? Sua cervejaria já começou a produzir! Recebemos um bom lote há duas semanas e está vendendo como… cerveja! – Toby era feito de alegria e sorrisos fáceis.

– Acclon morreu. Pagamos nossa primeira dívida, fizemos uma segunda pra pagar a primeira e Minukelsus está fora dela. Terei que pagar tudo sozinho. – Elfric era feito de amargura e uma boca torta de infelicidade.

– Eu estou feliz em vê-lo. – disse Minukelsus, sem jeito.

Toby os convidou para sentar, beber algumas cervejas por conta da casa e contar o que acontecera nos meses em que eles ficaram sem se ver. Oisin estava com eles. Não conhecia o anão, mas tratou de se enturmar rapidamente, afinal, a cerveja era boa e fora oferecida.

Ao fim da prosa, Toby suspendeu a cerveja grátis, o que não impediu Oisin de continuar bebendo, e lamentou muito por tudo o que aconteceu. Principalmente pela mulher de Elfric. Da última vez que conversou com Elfric, Acclon e Minukelsus iriam acompanha-lo até as terras inóspitas chamadas de O Outro Mundo para resgatá-la. Sarah fora feita escrava e traficada até esse lugar esquecido pelos deuses e habitado por criaturas que rastejam pelo submundo. E Elfric foi salvar sua esposa.

Dessa vez, Sarah deve ter sido capturada novamente. Estava numa cidade chamada Nova Ghor, lar de um lorde que apoiava o rei Devan e empregava Elfric e seus amigos. A cidade ficava há uma semana de viagem de Nis, e enquanto os exércitos do rei Devan lutavam, Nova Ghor foi cerceada e capturada pelas mesmas tropas de arminianos que viriam a matar o rei. Elfric não teve notícias de Sarah desde então.

Tudo culpa do bastardo do príncipe negro. Devan cu-de-bode, deveria se chamar assim! – pensava Elfric. – Os deuses nos puniram por ele ter violado a conferência para negociar os termos de paz. – Vivia amaldiçoando e pensando em supostos culpados, e pedindo perdão aos deuses, embora ele não tenha feito nada demais.

– Eu vou arranjar quartos em alguma estalagem. Vai comigo, Minukelsus? – perguntou Elfric.

– Não, vou ficar e tomar conta de Oisin. – o mago comprimiu os lábios e pôs a mão no nariz ao ver que Oisin começou a vomitar por cima da mesa. – Quartos separados, por favor.

– O meu querido rebanho me arranjou um quarto. – disse Oisin, com metade do rosto coberto de vômito. – Não preciso de um, Elfric Barba-Ruiva! Barba-Ruiva! – esticou a mão suja para puxar a barba grossa trançada de Elfric e levou um tapa do anão.

– Por mim ele dormia nos estábulos, mas acho que a bosta de cavalo vai se incomodar com o cheiro dele! – Elfric resmungou mais um pouco sobre Oisin e suas bebedeiras, e então saiu.

Oísin Cei, líder do Círculo.
Oísin Cei, líder do Círculo.

Eles se preocupavam com Oisin, por isso o mantinham por perto. Antes ele fora um capitão das tropas de Anderfel, um reino montanhoso próximo a Arminium. Só não alcançara o posto de general devido ao seu nascimento. Era filho de artesãos. Virou um forte líder religioso com o Círculo. Tinha gênio forte, e impaciente, e é bastante esperto, mas desde do fracasso em Nis, estava frustrado, deprimido e imerso em qualquer coisa que pudesse alterar seus sentidos.

A sobriedade é um quarto repleto de velas, espelhos e pergaminhos em branco, prontos para serem escritos, mas Oisin fazia questão de rasga-los, quebrar os espelhos e assoprar as velas.

Desde da morte de Elisa, sua esposa, o álcool era seu escudo e armadura contra decepções.

– Você não pode ficar assim para sempre, Oisin. Está bebendo desde que saímos de Nis. Você tem uma filha para criar. – era estranho ver uma criatura tão abominável quanto Minukelsus tentando ajudar alguém, mas ele é um homem bondoso, afinal. – Valéria, lembra? Você se lamenta demais por sua esposa, e esquece sua filha. Os mortos estão mortos.

– Se falar da minha esposa novamente… – encarou o mago, furioso. – Eu… eu… – socou a mesa com tanta força que atraiu a atenção de todos na taverna. – Não diga como devo lidar com minha família. – saiu furioso e foi para a chuva noturna.

Minukelsus, constrangido por todos na taverna agora estarem olhando para ele, apenas deu de ombros, pagou a conta de Oisin e foi procurar Elfric.

Encontram-se na estalagem “A passarela”, onde Elfric havia alugado dois quartos, e ali ficaram hospedados por mais três dias. Durante esse período, Oisin parecia ter lampejos de sobriedade, e então afogava-se em cerveja novamente.

– Eu tenho um plano. – Oisin estava sóbrio e falava com expressão animada. Estava na taverna As Torres Flutuantes, sentado no balcão, junto de Elfric e Minukelsus. Comiam pão, queijo e observavam a área externa da taverna, onde uma placa pendurada por correntes abaixo de um toldo de madeira identificava o local e rangia a cada sopro de vento.

– Plano para o quê? – perguntou o mago. Estava com a boca cheia de pão, e as migalhas derramavam-se por sua túnica preta com bordados brancos.

– Para recuperar o favor dos Deuses, Minukelsus! – o líder do Círculo partiu um pão ao meio com o auxílio de sua mão esquerda aleijada. Ela havia necrosado após ele ter sido atacado com veneno, e fora decepada. Mas os clérigos do Círculo haviam feito um poderoso ritual, e aos poucos, a mão cresceu novamente. Oisin a escondia com uma luva preta, pois a mão ainda não estava totalmente formada. Nem couro e nem unhas haviam crescido nela por enquanto, e lhe faltavam dois dedos. Mas em algum tempo, tudo isso nasceria e sua mão esquerda teria boa mobilidade novamente. – Precisamos dos poderes divinos para prosperar. Assim como o antigo povo de Voltura, que cultuava exclusivamente esses poderes e não conheciam a magia.

– Você se refere ao povo que foi massacrado por colonizadores de Aurora e Byzantes? – Elfric espetou.

– Cairam pois eram poucos. Hoje, temos muitos homens e mulheres honrando os Deuses e fazendo rituais diários. Mas uma coisa foi esquecida. Os sacrifícios. – Oisin olhou sombrio para eles. – Não fazemos mais sacrifícios. Os Deuses manifestam seus poderes através do sangue e da carne. Apenas animais não adiantam. Se quisermos resgatar os favores dos Deuses, devemos voltar a realizar sacrifícios humanos.

– Não acha isso um pouco radical? – questionou Minukelsus.

– Não. É o que deve ser feito. Voltar as origens. Esquecer os Deuses da magia, o panteão amaldiçoado. Esquecer os Deuses de Aurora. – Oisin estavam falando com paixão em sua voz, e isso chamou a atenção de algumas pessoas sentadas próximo a eles. Aurora era um continente seco e árido, próximo a Voltura. Dizem que lá nasceu a magia e os Deuses que a usam, e que ela fora trazida a Voltura por colonizadores há muitos séculos, que se instalaram em Colchis e Danen. Porém, em Aurora, ela funciona de modo diferente, com regras e rituais. Os homens trouxeram a magia sem forma a Voltura, o que desencadeou muitos problemas mais tarde.

– As vezes penso que você se esquece que nosso amigo, Minukelsus, é um mago. – observou Elfric.

– Minukelsus é um bom homem. Sofreu muitas injúrias tentando fazer o bem, me salvou e odeia o Olho Vigilante. Não devo temê-lo ou odiá-lo. – o líder religioso deu um forte tapa nas costas de Minukelsus, e o mago apenas sorriu. – Toby, traga aquela cerveja de Napes, uma Kelsus, por favor!

A limpa taverna de Tobi.
A limpa taverna de Toby.

Elfric resmungou sobre ele começar a beber tão cedo novamente, mas não muito. Oisin estava bebendo da cerveja que ele produzia.

O anão da barba ruiva e o mago da pele acinzentada formavam uma dupla estranha, mas se davam muito bem. Eles, junto do falecido clérigo Acclon e de um lutador de rua trambiqueiro chamado Noah, haviam formado uma cervejaria em Napes, e ela agora produzia uma cerveja especial. A receita era do avô de Toby, que a criara há três séculos atrás, quando Velq era uma pequena vila. Após o ataque, a cerveja especial, cujo uma das qualidades era que nunca apodrecia, ficou perdida nas ruínas por muito tempo, até que um anão, um mago, um clérigo e um trambiqueiro a acharam e fundaram uma cervejaria que se chamava O Golem de Cerveja. O nome da cerveja é Kelsus, por Minukelsus ter especificado os componentes da fórmula da cerveja através de seus conhecimentos em alquimia.

Antes do meio dia deixaram Oisin bebendo e voltaram para a estalagem. Elfric e Minukelsus estavam conversando sobre o desaparecimento de um conhecido que estava em Nis, chamado Urien. Não gostavam dele, mas haviam lutado lado a lado com o sujeito. Elfric abriu a porta do quarto no primeiro andar e convidou Minukelsus a entrar para que o mago escrevesse uma carta a ser enviada para Nova Ghor, perguntando sobre a esposa. Elfric não sabia ler e nem escrever.

Dentro do quarto, repararam em uma caixa de madeira sobre a cama.

Da caixa era exalado um fedor nauseante, e Elfric estava aterrorizado. Havia um punhal cravado em cima dela, o que servia de aviso.

– Poderíamos tê-lo matado, mas preferimos deixar isso para depois. – observou Minukelsus, assustado.

– É, eu percebi do que se trata o aviso. – Elfric apenas encarava a caixa, assustado. Ele temia reconhecer o que havia dentro dela.

Estalagem "As passarelas".
Estalagem “As passarelas”.

Aos poucos, eles se aproximaram da caixa. O anão retirou o punhal e a abriu devagar. Havia uma cabeça decapitada. Era a cabeça de Urien. Não tinha as peles das bochechas e estava com a mandíbula inferior pendurada, de forma que quando Elfric ergueu a cabeça, ela caíra. Enfiada dentro da boca havia uma grossa trança de cabelo ruivo, enrolado num pergaminho com alguma coisa incompreensível para o anão. Ele cheirou o cabelo e empurrou o pergaminho para Minukelsus.

– Ai está o selvagem. – o mago estava lendo o pergaminho. – Sua mulher também está conosco. Se quiser ela de volta, venha buscá-la. Também traga seu amigo clérigo. – Minukelsus virou o pergaminho na direção de Elfric e indicou com o dedo ossudo o local onde havia um desenho de uma chama flutuando acima de um círculo. Era o símbolo de uma companhia de mercenários que estava lutando ao lado de Arminium, de nome A Chama Dourada. O mago teve um tremelique nas mãos. – Eles não sabem que Acclon morreu.

– Filhos de um chacal! Aquele bosta de fuinha do Ulfric deve estar com ela. Se ele a fizer mal… – Elfric estremeceu e desembainhou sua espada longa que estava presa a cintura, pois nesse momento, dois homens e uma mulher entraram no quarto. – E quem são vocês? Se procuram a morte, deem mais um passo!

Um dos homens, um esfarrapado alto e musculoso desembainhou uma espada, o outro gesticulou mandando ele guardar a arma, mas ele não obedeceu. Elfric já ia correr até eles quando a mulher ficou entre eles.

– Não precisamos de espadas, rapazes! Apenas palavras! – Em seguida, Ysa apresentou-se ao anão e ao mago, enquanto os dois homens a olhavam boquiabertos.

– Eu mandei você ficar na praça com os homens! – Trevor bradava, furioso por Ysa ter desobedecido sua ordem. – E você, guarde essa espada agora!

– Só depois dele. – rosnou Arkos.

– Quem, em nome do corpo de Belenus, são vocês? – o anão gritou.

– Eu sou Trevor Olho-de-Águia!

– Quem? – Minukelsus pareceu confuso.

– Nunca ouvi falar. – Elfric levantou a sobrancelha em dúvida.

Trevor Olho-de-Águia.
Trevor Olho-de-Águia.

Trevor suspirou, fechou os olhos dourados e abriu. Manteve a mão direita sobre o peito de Arkos empurrando o grandalhão para trás.

– Eu sou o líder de uma companhia de mercenários chamada Os Águias Negras! Estamos em busca de serviço.

– Esse é o nome? – Arkos pareceu surpreso.

– Sim, esse é o nome. – Trevor olhou para o selvagem com impaciência. Elfric guardou a espada na bainha e Arkos fez o mesmo em seguida. – Parece que vocês tem problemas em mãos. – o arqueiro olhava para a cabeça no chão do quarto.

– Sim, e podemos resolvê-los sozinhos. Agora saiam daqui! – o ruivo anão gesticulava impacientemente com as mãos.

– Nós vimos quem fez isso! – Ysa explicou. – Quatro homens com capas e capuz verdes, um deles estava segurando essa exata caixa de madeira e possuia uma espada cravejada de jóias. – ela olhou para Trevor, e o arqueiro estava surpreso ao ver que ela também percebera tudo isso. – Eles entraram nessa estalagem há cerca de uma hora, e não vi eles saindo.

– Eles não reservaram quartos, de modo que devem ter saído pelas passarelas flutuantes através desse ou do segundo andar. – disse o arqueiro.

– Eles são da Chama Dourada. – Minukelsus virou o pergaminho na direção dos três mercenários e apontou para o desenho.

– Parece que vocês precisam de proteção. Ouvi falar que Oisin estará retornando a Napes a partir de amanhã, e que vocês devem voltar com eles. – Trevor sorriu ganancioso. – Quanto estão dispostos a pagar pela proteção de 12 homens corajosos?

– Posso pagar em merda mole que cago de manhã? – Elfric perguntou em tom carrancudo, e quando viu a surpresa nos olhos dourados de Trevor, gritou. – Caiam fora do meu quarto antes que eu os estripem e usem seus intestinos como rédeas para meus pôneis!

Trevor abriu a boca para revidar os insultos, mas era inútil. Virou-se para sair dali, mas então escutou Ysa.

– Os senhores foram ameaçados pela Chama Dourada. E como se sabe, eles são ricos e poderosos. Sua reputação como mercenários extrapola o brilho dos distintivos de ouro que eles ostentam. – Ela olhou para Trevor, que estava prestando atenção a cada palavra que saia de sua boca e depois olhou para Arkos, que olhava para sua bunda, voltou sua atenção ao anão e ao mago. – Então, se a Chama Dourada é tão poderosa, deixe-nos caçar os homens que vieram dar esse aviso, e eles saberão que há outra companhia tão boa e competente que é digna de suas moedas, e então, temerão os senhores.

A voz de Ysa era doce, e ao mesmo tempo, forte. Ela possuía o dom de encantar as pessoas com palavras, e Minukelsus foi o primeiro a cair em seus encantos.

– Podemos pagá-los. Se capturarem os homens que fizeram isso. – o mago apontou para a cabeça decapitada que fedia no chão do quarto.

– Se capturarem. Eles são da Chama, por isso possuem alguma marca que os identifiquem. Pago 10 peças de ouro por cada homem. Se conseguirem, talvez contrate vocês para uma escolta que valerá mais 50 peças. – Elfric falou de má vontade.

– Acharemos eles antes que partam. – completou Trevor, e saiu furioso.


Foi uma boa sessão, mas esta é apenas a metade dela. Você pode conferir o restante clicando aqui!

É curioso observar novos personagens de velhos jogadores. Trevor e Arkos são personagens que estrearam nesta sessão, após Acclon e Urien, os antigos personagens dos jogadores terem morrido na sessão passada.  Eles estavam desanimados, afinal, Acclon era nível 7 e Urien nível 5, os personagens tinham reputação sólida e bastante dinheiro. Entretanto, eles decidiram recomeçar, e muito bem, se devo dizer.

O problema era juntar um grupo de mercenários de primeiro nível com dois outros personagens muito mais fortes. Precisei de muita cooperação dos jogadores, pois para Elfric e Minukelsus, falar não era a resposta mais óbvia. Uma confusão recorrente nesta sessão foi os dois personagens novatos acharem que sabem sobre os dois veteranos. Trevor insistia em cobrar muito dinheiro de Elfric, pois para ele era óbvio que o anão era muito rico. Mesmo a grande reputação de Elfric não indicava os valores absurdos que Trevor pedia no início. Nada que uma conversa com os jogadores não resolvesse. Essa cooperação tem sido essencial para manter o grupo unido por enquanto.

Outras observações:

– Velq é realmente difícil de imaginar. Minha referência foi Geffen, cidade do jogo Ragnarok, porém eu mudei tanto as coisas que ela acabou se tornando uma casquinha de sorvete.

– Devo dizer que gostei muito de Ysa como personagem feminina. Ela vai aparecer bem mais daqui pra frente, vocês verão. Sentia falta de uma e o grupo precisava de um personagem “cabeça”, portanto criei ela.

– Arkos é muito mais nice guy na realidade. Esse traço de selvagem assustador vem do antigo personagem desse jogador, o Urien, que era tão carrancudo quanto Jonah Hex (e parecia bastante com ele).

– Minukelsus tentou usar o Enfeitiçar pessoas no Arkos para que ele guardasse a arma, mas não conseguiu.

– Achei muita graça do fato de Trevor sempre se apresentar citando seu apelido que ninguém conhece, por isso zoei um pouquinho no conto.

– O anão é tão carrancudo quanto no conto, pode ter certeza.

– E Minukelsus é tão feio quanto no conto, outra certeza.

– Estamos usando a especialização de classe Arqueiro para Trevor e o suplemento de classe Bárbaro para Arkos.

 Comente, dê o seu feedback e divulgue, se possível. Até a próxima!

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3 comentários sobre “Páginas de Voltura #01 – Os Águias Negras parte 1

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