Páginas de Voltura #01 – Os Águias Negras parte 2

Sejam bem-vindos a segunda parte do conto Os Águias Negras. A primeira parte você pode encontrar aqui. Leia a primeira parte ou você não entenderá muita coisa.

Esta história se passa em um pequeno cenário que criei, chamado Voltura.

VolturaVoltura é cheia de culturas diferentes que se encontraram violentamente há muito tempo e desde então tem convivido nem sempre em harmonia.

Esta campanha foi iniciada há muitos meses e não pretendo conta-la do inicio por enquanto, portanto, não estranhem o fato dos personagens (pelo menos dois deles) não serem de primeiro nível. Mas não se preocupem, eu menciono fatos do passado para não deixar ninguém perdido. Agora vamos às informações de jogo:

Sistema: Old Dragon (D20).

Personagens:

  • Elfric (nível 7): anão guerreiro. Ex-guarda de cidade que se viu forçado a encarar o mundo após sua esposa ter sido feita escrava pelos Homens-Lagartos. Tem como arma favorita uma montante.
  • Minukelsus (nível 6): humano necromante. Após ter sido curado de uma doença que o deixou repleto de cicatrizes, ele aprendeu o ofício da magia e busca itens mágicos para sua mestra. O grupo acha que ele é apenas um mago comum.
  • Trevor (nível 1): humano homem de armas. Após ter escapado do cerco a cidade de Nis, decidiu criar uma companhia de mercenários e ganhar muito dinheiro. Tem olhos dourados.
  • Arkos (nível 1): humano bárbaro. Saiu da sua tribo afim de explorar o mundo e descobrir as recompensas que ele traz. Usa o totem da tartaruga.

Boa leitura!

A cidade é mais ou menos assim, porém com uma de suas faces incrustada num paredão de rochas.
A cidade é mais ou menos assim, porém com uma de suas faces incrustada numa “mini montanha”.

Ysa e Arkos seguiram Trevor.

– Por que você me contrariou? Mandei ficar na praça. Essas coisas não são para mulheres!

– Lhe consegui um contrato, não foi? – a ex-escrava gesticulava com os braços tentando se explicar enquanto eles desciam as escadas da estalagem. – Afinal de contas, parece que mulheres são úteis também.

Trevor continuou bufando com raiva.

– E o que deu em você? Chamou o contratante de idiota, seu idiota! Queria ficar sem um contrato? – Ysa perdera a paciência.

– É exatamente o que você está fazendo. – observou astutamente Arkos, ainda desnudando Ysa com os olhos.

Os Águias Negras estavam reunidos numa praça perto de um conjunto de passarelas flutuantes que ficavam acima de bordeis. O lugar geralmente era limpo, mas com tantos refugiados andando pelas ruas circulares de pedra e com as chuvas de outono caindo incessantemente, Velq ficara cheia de lama, animais pulguentos, pessoas pulguentas e bêbados. Estava nublado. Trevor reuniu seus homens e explicou o que deveriam fazer.

Iriam se separar em três equipes para procurar por toda a cidade os mercenários encapuzados. Eles deveriam perguntar aos pedestres, feirantes e trombadinhas por aqueles homens. Todos os treze águias negras deveriam participar da busca em conjunto, apenas um iria procurar sozinho.

– Eu vivia na Velha Velq, senhor. Conheço o pessoal, e sei que ali é um bom lugar para se esconder. – Machadinha sorriu. Esse era o apelido de um rapaz jovem, magro como uma agulha que se juntou a companhia de Trevor. Tem cabelos loiros cor de palha, olhos de um azul que parece borrado e pele muito branca, mas constantemente escurecida por sujeira devido a falta de banho. Machadinha possuía apenas dois dentes, que logo apareciam quando ele sorria. E por algum motivo, ele sorria bastante. – Se me permite, irei até lá procurá-los. Com a ajuda do pessoal, eles não podem se esconder por muito tempo. – Abriu um largo sorriso novamente.

– Tudo bem, Machadinha. Se descobrir algo importante, trate de trazer a notícia rapidamente. – Trevor encarava dois dentes enquanto o jovem sorria.

– Pode deixar comigo! – Sorriu outra vez e saiu em busca de uma das várias passagens com túneis secretos que levam até as ruínas abaixo das ruas circulares de pedra.

Machadinha (ou bem parecido).
Machadinha (ou bem parecido).

A grande cidade em cone estava apinhada de pessoas e carroças nos primeiros níveis. Em sua estrutura, há 12 círculos, e eles são divididos entre comércio, residências e instalações da guarda. Os 4 primeiros círculos destinam-se ao comércio, depois há mais 5 para moradias. Mais dois círculos para instalações da guarda da cidade, o que incluí a masmorra de Velq, e outro círculo, exclusivamente, para mansão do senhor Ethiv Dell, um anão riquíssimo, sócio das Minas Aquáticas.

A cidade possui um avançado sistema de escoamento de água e esgoto, que é despejado nas ruínas sob os círculos, e lida bem com as chuvas, que nesses dias, dificilmente cessavam.

Velq comerciava grãos, peixes e enguias, frutas e queijo para as vilas e povoados litorâneos de Lughdis, para a população que vive nas montanhas de Tyann e para a cidade de Lorch, além de providenciar itens mágicos para aventureiros. Todos eles taxados e regularizados pelo Olho Vigilante, que os fazem caros, mas há um mercado ilegal para aqueles que desejam pagar mais barato por itens que ainda não passaram pela inspeção dos burocráticos magos.

Entre comerciantes, aventureiros, mercenários, magos, guardas, bardos, dançarinos, ursos dançarinos, cães dançarinos e ratos dançarinos, os Águias Negras procuravam quatro homens da Chama Dourada.

– Essa busca é inútil. – Arkos arfou, cansado e irritado por ter dado uma peça de prata a um bardo que tocava para um urso dançarino. Ele nunca havia visto um animal dançar, um truque comum entre os artistas pantomineiros. – Eles podem ter tirado as capas, e nunca saberemos quem são.

– Apenas percorremos o primeiro círculo, seja paciente. – Oteu, o anão, não era muito bom com a língua comum, e possuía um sotaque engraçado ainda mais reforçado por sua voz fina. – Ainda há mais dois para nós. – Os Águias Negras dividiram-se em três grupos para procurar os encapuzados, e cada grupo iria procura-los em três círculos. Não podiam entrar na mansão do senhor Dell e nem nas instalações da guarda da cidade, portanto, deixariam esses lugares fora da busca.

Passaram o dia e a tarde inteira procurando os homens, e não os acharam.

Feira de Velq.
A feira de Velq.

Trevor percorreu círculos onde haviam casas ricas, feitas de pedra, telhado de telhas e pátios de mármore colorido, repletos de colunas e muitas vezes com uma fonte onde haviam escravas limpando e obedecendo. Em um desses pátios havia uma mulher de cabelos loiros com os seios a mostra tocando uma harpa. O arqueiro jogou um beijo no ar, ela o pegou e sorriu.

Ysa andou por casas mais simples, feitas de madeira, palha, pau a pique e ardósia. Como não há muitos becos em Velq, ela percorreu rápido entre as residências. Viu uma instalação do Círculo, com uma enorme fila de pessoas querendo a bênção dos deuses, ou apenas trabalho e comida.

Arkos ficou pelo comércio distraindo-se com profetas arengando, animais dançando e magos realizando truques. Socou um desses magos quando ele fizera sua adaga desaparecer, e quando ela reapareceu, teve que pagar cinco peças de prata para o mago não chamar os guardas. Ficou aborrecido.

Ao fim da tarde as águias retornaram ao ninho, a praça próxima aos bordeis e mendigos, e esperaram por uma hora até Machadinha retornar. Já era noite, mas as ruas continuavam cheias.

– Eu achei eles! – o jovem desdentado sorria de orelha a orelha. – Eles estão lá embaixo, nas ruínas!

– O que fazem por lá? – perguntou Trevor, satisfeito com seu subordinado.

– Eles estão descansando. Montaram uma fogueira próximo ao Túnel dos Condenados, roubaram a comida do Elt Sem-Língua e ameaçam todos que se aproximam.

– Elt Sem-Língua? – o arqueiro parecera confuso.

– É um velho resmungão que ninguém entende, pois arrancaram sua língua. – Machadinha explicou.

– O que é o Túnel dos Condenados? – a ex-escrava estava costurando a calça de Arkos, que não sentia vergonha em ficar seminu em plena praça.

– É um antigo túnel subterrâneo construído pelos Kobolds que atacaram a antiga cidade. – ele sorriu, expondo dois pedaços amarelados, pintalgados de branco na boca. – É repleto de armadilhas, salas e mortos-vivos. O rei manda os criminosos para lá.

– Lughdis não tem apenas uma rainha? – Ysa costurava com atenção, mas parou para encarar o rapaz.

– O rei lá de baixo, digo.

– As ruínas possuem um rei? – Trevor riu e desdenhou.

– Deixam uma mulher governar isso aqui? – Arkos estava surpreso, e com um pano enrolado em suas partes íntimas enquanto esperava Ysa terminar a costura.

– Somos capazes de grandes feitos. – repreendeu Ysa. – Como fazer desaparecer coisas e dançar com ursos. – ela riu, zombando, e os mercenários quase caíram em gargalhadas, mas Arkos rosnou e olhou feio para todos eles.

– Foco, pessoal. – o arqueiro levantou a mão e os homens fizeram silêncio. Ele gostou disso. – Quem governa lá embaixo?

– Velanes, um ex-sapateiro que usa uma coroa enferrujada e acha que é rei. – Machadinha pensou, sorriu. – Ele tem guardas, e algumas pessoas das ruínas o seguem, mas são poucos.

– Como são esses guardas? – o selvagem rosnava, como sempre.

– Usam cotas de malha despedaçadas, espadas enferrujadas e escudos destroçados. – ele expôs dois dentes, sorrindo.

– É possível sair do túnel para fora da cidade? – Trevor estava amarrando os cabelos em um rabo de cavalo.

– Sim, eu conheço o local. Há uma grande rocha perto. – Machadinha estava animado. – Não é longe.

– Ótimo. Você irá com três homens até lá e voltará até a cidade, e juntos desceremos. – Trevor apontou para os homens. – Vocês tem lanças e espadas. Usem as lanças primeiro. Como é um túnel subterrâneo, será fácil pega-los enquanto sobem a face escavada. Preparem-se e partam logo, se eles pretendem atravessar o túnel, não temos muito tempo.

– Acho difícil conseguirem, senhor. Mas voltarei rápido. – Machadinha sorriu. Apertou a armadura de couro e o cinto com uma espada curta. Levava nas costas duas machadinhas de arremesso. – Preparem uma peça de ouro, cada. É o preço para usarem os túneis secretos até as ruínas.

– Cobram para ir até a latrina de Velq? – um súbito mal humor tomou conta de Trevor.

– Sim. São túneis que saem de algumas casas dessa cidade. – como o grande cone de pedra era escavado na encosta de uma parede de rochas, era possível escavar um túnel até para fora dela a partir de algumas casas do lado norte da cidade. – Os moradores cobram uma peça de ouro. Se não quiser pagar, tem que ser preso por vadiagem, e será atirado lá em baixo.

– Ou ameaçar arrancar os olhos das órbitas desses moradores com um bom aperto na cabeça. – Arkos grunhiu, carrancudo.

Mas eles pagaram.

Esperaram Machadinha retornar enquanto afivelavam o cinto da espada, afiavam lâminas, poliam cotas de malha e oravam. O jovem retornou algum tempo depois e eles partiram até uma das casas que continham um túnel secreto. Ysa ficou na cidade para ficar de olho em Elfric e Minukelsus, não queriam que eles partissem sem pagar pelo trabalho.

A casa localizava-se no sexto círculo, e suas estruturas feitas de pau a pique encontravam-se com uma parede de rocha nos fundos da casa. Essa parede era natural por ser parte do grande paredão de pedra em que Velq se situa. Ali estava escavado um túnel que levava até as ruínas da antiga cidade. A passagem era escondida por uma prateleira repleta de potes, panelas, taças e talheres de estanho e de barro. O dono colocara grossas placas de madeira fincada na pedra para evitar a passagem de pessoas indesejadas vindo de baixo.

Arkos pagou por Trevor, e depois resmungou sobre o arqueiro ter que paga-lo mais tarde.

O túnel era completamente escuro e muito estreito. Apenas um homem por vez era capaz de andar por ali, de modo que fizeram uma fila única, e Machadinha ia a frente, segurando uma tocha. A passagem era baixa, e tiveram que ficar curvados. A superfície escorregadia fazia-os deslizarem e cairem várias vezes. Trevor reclamou quando alguém atrás dele pisara em sua capa. Arkos caiu de joelhos na pedra e esbravejou ao perceber que rasgara a calça novamente. Os xingamentos ecoaram através da escuridão.

Não sabiam quanto tempo haviam demorado, mas chegaram ao final do túnel, que ficava a uma parede de distância do chão. Pularam hesitantes, pois estava muito escuro e imediatamente levaram as mãos ao nariz.

– Fede como latrina de anão. – o selvagem levava uma mão ao nariz e a outra a bainha.

– Rude até para um bárbaro sujo e desdentado. – Oteu dissera com mágoa.

– Fale baixo, ele pode escutar. – Ozill cutucou o irmão com o cotovelo e inclinou a cabeça na direção de Machadinha. O jovem estava sorrindo, distraído com uma ratazana do tamanho de um filhote de cachorro andando entre as ruínas de um telhado desabado.

Ruínas da Velha Velq.
Ruínas da velha Velq.

A velha Velq fica no pé do paredão de rochas onde a atual cidade está esculpida. Era uma vila pequena, composta de uma dúzia de casas feitas de pau a pique e telhados de palha ou ardósia. Tinha uma mansão feita de alvenaria de um cobrador de impostos local, uma taverna, uma estalagem e um altar com colunas para Lugh, o Deus Volturi das artes e da ciência.

Todas as construções estavam desmoronadas ou meio desmoronadas, com exceção da mansão, cujas paredes de alvenaria haviam desabado apenas na face leste e em parte do telhado. O chão é feito de terra batida coberta de poeira, dejetos, pedregulhos e poças de água e urina vindas de um constante goteio através das passagens chanfradas que carregam o esgoto de Velq. A sombra lançada pela construção em cone, junto as altas paredes de terra e madeira que cercam a cidade, imerge os moradores numa escuridão persistente, que é apenas quebrada quando o sol ilumina parcamente as regiões oeste, norte e leste das ruínas em diferentes momentos do dia.

Era noite, e a escuridão afastava-se apenas das poucas tochas e fogueiras presentes abaixo de tetos e paredes tombadas, onde pessoas buscavam as chamas para manter-se aquecidas. Fazia muito frio, e a umidade do ar e da terra, junto do fedor constante, dificultava a respiração.

Subitamente, Arkos queria botas.

– Para não haver problemas, vamos até o rei. – Machadinha disse, e seguiu por cima de pedaços de madeira e cascalho. Era o único que não mantinha as mãos no nariz. – Será rápido.

– Certo, seguirei você. – Trevor seguiu sem duvidar do jovem magricela. Antes de descerem, Arkos havia alertado ao arqueiro que poderiam estar caminhando diretamente para uma armadilha, mas o sorriso de Machadinha era inocente, e por algum motivo, Trevor confiara no jovem.

Alguns homens ficavam assustados com o que ouviam. Parecia que qualquer vibração ecoava como um estrondo por toda a cidade. Ouviam o chiar dos ratos, o gotejar do esgoto e passos rastejantes seguidos de gemidos, dos moradores, provavelmente. Um rosnado temível fora lançado ao grupo, e todos viraram para olhar a pequena menina que o havia lançado. Tinha olhos verdes que brilhavam no escuro e uma pele branca repleta de marcas de doenças e verrugas que afastaram mais os homens do que a ameaça.

Viram um homem com um pedaço de madeira afiado andar agachado perto deles, e quando Arkos ia gritar um desafio, o pobre coitado matou um rato com a estaca e saiu correndo com o jantar nas mãos. Uma mulher derramava lágrimas silenciosamente sobre um conjunto de ossos que Trevor tivera dificuldades em reconhecer se era humano ou não. Um velho anão juntava água de uma das poças no chão com um pote de barro meio quebrado e afastou-se quase chorando dos nove mercenários.

1385848967562– Que lugar terrível. – falou Ozill, com pena. – Você morava aqui, Machadinha?

– Ainda moro – o jovem não sorrira dessa vez. – mas não mais quando sair dessa cidade com vocês, não é mesmo? – sorriu.

Percorreram um pequeno trecho até encontrar um altar com colunas tombadas, onde no centro, havia uma estátua de pedra de um ser com corpo de homem e com o rosto que revelava metade de uma lua. A outra parte estava faltando, e deveria ser a metade de um sol, pois aquele era o Deus Lugh, patrono de Lughdis. Não havia olhos, nem boca ou ouvidos na estátua, e o Deus estava sentado num trono de pedra com milhares de pequenos livros esculpidos e havia um grimório aberto em suas mãos estendidas.

Sentado no colo de um Deus, havia um rei.

– Alto! – dissera o homem. – Todos aqueles que peregrinam em solo real devem apresentar-se ao seu rei, benfeitor, conselheiro, patrono, vidente e sábio! – deu um risinho e olhou para os nove mercenários abaixo. – Pois ele encontra-se no colo do Deus que tudo sabe!

Os Águias Negras demoraram para assimilar tudo. Estavam observando o local ao redor, e as pessoas que se juntavam em uma roda para vê-los de longe. O altar era bem iluminado com tochas e dois postes de luz amarela que fizeram Trevor se perguntar onde haveriam arranjado aquilo. O rei pulou do colo da estátua e cambaleou para frente, mas não perdeu a postura. Seu nome era Velanes, e sua coroa era feita de um aro de metal fundido e retorcido, sobra de alguma forja. Suas vestes eram humildes, e feitas de linho, com um avental de ferreiro formando um cume acima da vistosa barriga. O avental fora pintado com tinta amarela bem rala e retinha no centro uma ostensiva coroa desenhada por mãos bastante trêmulas. Seu rosto denunciava uma vida longa e castigada, pois portava dezenas de linhas de expressão e marcas de doenças, um nariz grosso e quebrado, e uma barba branca longa e tão mal cuidada que parecia ter a textura de palha seca. Os cabelos não escapavam dessa textura e cor, além de rarearem no topo da cabeça e serem abundantes em excesso nas laterais. Seus braços finos agitavam uma pele excessivamente frouxa que reverberavam como as cordas de uma harpa, e os mercenários não puderam deixar de notar que entre os dedos das mãos e nas unhas havia merda.

 – As ratazanas devoraram seus cérebros? – o rei olhou com impaciência. – Apresentem-se!

– Eu sou Trevor Olho-de-Águia e nós somos os Águias Negras. Mercenários.– falou hesitante. Imaginava há quanto tempo aquela criatura não tomava banho.

– Ah, mercenários! – Velanes pareceu contente. – Vieram dar cabo daqueles ladrões que se instalaram na casa da Grinal Lambe-Gatos?

– Lambe-Gatos? – Arkos estava especialmente impaciente por ter pisado em dejetos humanos.

– Sim. Ela lambe os gatos dela, uma coisa asquerosa! – o rei fez um gesto com a mão que fez salpicar merda na direção dos mercenários. Trevor desviou como se fosse fogo e depois recuperou a compostura.

– Vossa – Trevor fez uma reverência, curvando-se, e os cabelos escondiam a gargalhada que lutava para escapar de sua boca. – Majestade. Nós viemos atrás de quatro homens encapuzados, acusados de assassinato, estupro, canibalismo, roubo de gado, roubo de virgens e descrença. – o arqueiro foi falando os crimes que lembrara na hora, e Velanes levava as mãos a boca em horror. – Eles possuem boas armas e roupas, e soube que roubaram a comida do pobre Elt Sem-Língua.

Velanes quase chorou em toda sua teatralidade, depois manteve o ar solene.

– Meus súditos me disseram. Eles estão próximo do Túnel dos condenados. – apontou a direção. – Mandei uma tropa bem treinada garantirem os direitos de Elt Sem-Língua, mas aqueles homens lutam como demônios! – estremeceu. – Não é mesmo, Olaf Uma-Mão?

– Sim, vossa majestade. – assentiu com a cabeça um dos dois guardas que cercavam os flancos de Velanes. Possuía uma cota de malha enferrujada e repleta de rasgos, uma espada curta fina e cheia de mordidas na lâmina, roupas puídas e sujas e, como era de se esperar, apenas uma mão.

– É, bom trabalho. – Trevor desconfiava que a tal tropa eram os dois guardas, e duvidava que houvera uma luta. – Mas pedimos sua permissão para expulsá-los da Velha Velq.

– Nova, Gloriosa Velq! – corrigiu o rei.

– Nova, Gloriosa Velq. – repetiu o arqueiro, irritado.

– Muito bem, muito bem – o rei estava contente, deixou escapar um sorriso e depois regatou a expressão solene. – se vocês puderem, eu lhes concedo essa missão. Ela valerá como prova de que vocês realmente merecem ser juramentados a minha casa, portanto, não pagarei nada.

– Certo, certo. – Trevor fez um gesto impaciente com as mãos e começou a sair dali, o restante dos mercenários seguiram.

– Mas quando quiserem livrar a casa da Grinal Lambe-Gatos, fiquem à vontade. – Velanes gritava, mas eles haviam se afastado poucos metros. – E será pago. Em muito bronze e até prata!

Trevor puxou Machadinha para perto.

– Por que, em nome de Kenun, tínhamos que falar com esse maluco? Ele não tem poder algum.

– Ele é o rei, achei que seria o certo a se fazer. – Machadinha ficou desconcertado.

E eles caminharam entre merda, poças de urina, pessoas em total decadência e construções tombadas, até a casa de Elt Sem-Língua.

Elt era um velho, magro como uma tripa, que possuía alguns fios de cabelo branco na cabeça. Tinha hematomas recentes no rosto, feridas pelo corpo e as pernas tremiam e fraquejavam. Ele apenas gesticulava, gemia e murmurava, mas Machadinha parecia entendê-lo.

– Ele disse que os homens estavam usando a casa dele para dormir e descansar. – o jovem escutou atento a mais uma sessão de gemidos. – Disse que espancaram ele e roubaram toda sua comida. – Elt murmurou e gesticulou mais. – Parece que foram ao túnel.

– Arkos, dê-lhe uma moeda de ouro. – Trevor pediu ao bárbaro, recebeu um olhar feio. – O homem nos derá uma informação, e eu vou lhe pagar mais tarde.

O selvagem arrastou-se até o velho Elt e jogou uma moeda de prata, riu do barulho que o pobre mudo fizera com a garganta e jogou mais duas peças de prata.

– Eu poderia colocá-lo numa coleira e ouvi-lo fazer esse barulho o dia inteiro. – Arkos ria timidamente.

– Você é um sujeito perturbado. – Oteu disse, enquanto saia da casa, que na verdade eram duas paredes próximas ainda em pé.

Andaram pouco até o túnel. O local ficava próximo a uma casa com três paredes em pé, no extremo leste da cidade. A casa era iluminada por tochas e servia como guarnição para os homens que guardavam a entrada do túnel. A entrada para o conjunto construído pelos Kobolds era um buraco quadrado, cheio de chanfros e tampado por um bloco quadrado de pedra cuidadosamente cortada que deslizava de modo a abrir uma passagem quando empurrada com força.

Haviam três homens ali, e um deles estava empurrando a entrada. Parou quando os mercenários aproximaram-se.

Estavam com cotas de malha novas e limpas, espadas na bainha. Uma delas possuia um punho cravejado por jóias. Não usavam capas.

Os olhos dourados de Trevor brilharam, e sua luz refletia-se nas pedras presentes no punho da espada.

– Quem são vocês? – perguntou agressivamente o portador da espada com jóias, estava com a mão no punho e desembainhava-a lentamente.

– Somos apenas aventureiros buscando tesouros no Túnel dos Condenados. – o arqueiro sorria em ganância.

– Não há nada para verem aqui. – o homem terminara de desembainhar a espada. – Vão embora, agora.

– Não precisa fazer ameaças. – Trevor andava lentamente até o homem, com a mão puxando a espada. – Somos apenas aventureiros pobres, buscando dinheiro.

– Se não parar – o homem balançava a espada na direção do arqueiro. Seus companheiros haviam desembainhado as espadas e preparado os escudos. – eu vou rasgar os vermes na sua barriga imunda, de fora para dentro.

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Trevor desembainhou completamente a espada e parou. Eram nove Águias Negras contra três homens. Mas se Minukelsus estava certo, eram três homens da Chama Dourada, uma das melhores companhias de mercenários de Voltura. Os Águias poderiam até ganhar, mas perderiam metade dos homens se não fossem cautelosos, e Trevor não queria arriscar-se a diminuir de tamanho sua companhia tão cedo.

Hesitantes, os dois lados viram-se forçados a reagir quando dois raios amarelados mexeram-se rapidamente, emitindo um berro de batalha incompreensível. Era Machadinha, com duas machadinhas, uma em cada mão, correndo desenfreadamente em direção aos homens que guardavam a entrada do túnel.

Atônito pela cena, o homem da espada com jóias, que Machadinha atacou, apenas desviou do ataque. O jovem sem dentes rodopiou sua arma em um arco desengonçado que seu inimigo aparou e depois estocou com a espada, rasgando a armadura de couro e mordendo levemente o jovem. Machadinha era rápido, e movimentava-se muito enquanto atacava, de modo que o golpe seguinte do oponente atingira seu ombro com pouca força, causando apenas um hematoma.

Agora os homens corriam em fúria para cercar e massacrar os inimigos, de modo que um dos oponentes correu para o túnel e fugiu com dificuldades por uma brecha estreita, abandonando seu escudo e seus dois comparsas. Um deles recebeu a fúria de Arkos na cabeça. O selvagem brandiu sua maça com tanta força e velocidade que o homem não tivera chances de reagir, e desequilibrou-se. Mais uma pancada de maça o fez cair no chão, e Arkos continuou golpeando até que a face direita do rosto do homem estivesse completamente inchada e vermelha, onde sangue e miolos eram expostos ao aço frio e maciço.

1374958438144O homem da espada era bom. Aparou dois golpes de Machadinha e rodopiou a lâmina da espada na direção de Trevor para mantê-lo a distância, mas haviam mais cinco homens para combater sozinho, e ele lançara uma investida desesperada contra Trevor, que desviou para a direita e esticou o pé esquerdo, fazendo o homem cair no chão. O restante dos Águias Negras cortaram, estocaram e fizeram o homem sangrar até a morte.

Trevor afastou os homens e pegou a espada com jóias. Deu a sua atual para Machadinha e embainhou a nova.

– Você é bastante corajoso. – sentia-se um superior encorajando um subordinado. Um líder. – Agora temos que pegar o que fugiu. Quantos homens cabem lado a lado nesse túnel?

– Cinco homens, senhor. – um sorriso iluminava o rosto de Machadinha, que ignorava os dois pequenos ferimentos que recebera. – Mas é um túnel construído por Kobolds, senhor. Há muitas armadilhas, muitos perigos. Melhor levar menos do que isso se quiser alcançar o homem em segurança.

– Então venha comigo. – Trevor sorriu e piscou. Olhou para Arkos saqueando o corpo do homem que matara, e o rosto deste escorrendo pelo queixo. – Vou precisar de você também, Arkos.

– Certo.

– Então vamos nós três. – o arqueiro virou-se para o resto do seu pessoal. – Vocês devem ficar aqui e proteger a entrada desse túnel. Ninguém deve entrar. E fiquem atentos, só vimos três deles, e eram quatro.

– Estaremos atentos, senhor. – Oteu sorrira e desejara sorte.

Arkos empurrou o bloco de pedra sem esforço, e junto de Trevor e Machadinha, desceu para a escuridão.

E houve um barulho de mecanismo se movendo, e um grito.


E esta foi a segunda parte da minha primeira sessão relatada. A primeira você encontra neste link.

820x466_4523_D_D_Player_s_Strategy_Guide_Getting_Into_Character_2d_fantasy_illustration_boy_role_playing_dungeons_and_dragons_miniature_dice_picture_imaA sessão continua divertida e os jogadores interpretaram muito bem. O cuidado de Trevor a respeito do que estava nas unhas do “rei” também ocorreu na mesa, e todos acham Velanes engraçado, mas querem mata-lo. Jogadores, hehe.

Repreendi um pouco os jogadores na hora da busca pelos homens encapuzados por eles não terem se esforçado muito. Queriam apenas rolar dados, e além do Old Dragon não ter boas mecânicas para isso (eu sei que essa é a proposta dele), eu não gosto desse estilo. É muito mais imersivo esquecer os dados nesses momentos e perguntar ao mestre. “Tem alguém que está usando roupas semelhantes na feira?” “Há quem eu possa perguntar onde esses homens estão?” “Há algum mercado negro de informações na cidade?”. E assim podemos complementar algumas ações com rolagens de dados.

Outras observações:

– É muito difícil conseguir imagens adequadas para os posts, portanto daqui em diante eu colocarei ilustrações semelhantes a situação que se desenrola no conto, mas não necessariamente no mesmo cenário ou com personagens de características físicas semelhantes. Por exemplo, a velha Velq é mais escura e tem menos construções de pedra. Bem diferente da imagem que coloquei para ilustra-la.

– No jogo eu não esqueci completamente de Elfric e Minukelsus. Eles fizeram umas comprinhas, foram ao banco e conversaram um pouco, mas preferi não alternar os núcleos da história para dar uma continuidade legal nessa parte da investigação.

– Me divirto muito interpretando Machadinha.

– É notável como os jogadores que controlam Trevor e Arkos estão cautelosos. Hesitaram um bom tempo antes de atacar os três homens.

– Estamos usando um sistema de perícias apresentado no suplemento que você pode baixar neste link. Eu alterei algumas coisas, porém. Para dar mais importância a inteligência, determinei que os jogadores ganhariam por nível o equivalente a 1/3 de sua INT em pontos de perícia. Cada ponto de perícia diminui em 1 a dificuldade no teste para a realização da ação correspondente, e é possível comprar até 10 pontos de uma determinada perícia. Isso dá aos jogadores mais capacidade para realizar ações fora da caixa sem forçar a barra, como ter a perícia Vigor alta para cansar o oponente numa luta que você sabe que não pode ganhar ou comprar muitos pontos de Acrobacia para escalar muros e correr pelas paredes durante um combate.

Em breve sai a terceira e última parte desta sessão, fique ligado!

Comente, dê o seu feedback e divulgue, se possível. Até a próxima!

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2 comentários sobre “Páginas de Voltura #01 – Os Águias Negras parte 2

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