Páginas de Voltura #01 – Os Águias Negras parte final

Sejam bem-vindos a terceira e última parte do conto Os Águias Negras. A primeira e a segunda parte você pode encontrar aqui e aqui. Leia as partes anteriores ou você não entenderá muita coisa.

Esta história se passa em um pequeno cenário que criei, chamado Voltura.

VolturaVoltura é cheia de culturas diferentes que se encontraram violentamente há muito tempo e desde então tem convivido nem sempre em harmonia.

Esta campanha foi iniciada há muitos meses e não pretendo conta-la do inicio por enquanto, portanto, não estranhem o fato dos personagens (pelo menos dois deles) não serem de primeiro nível. Mas não se preocupem, eu menciono fatos do passado para não deixar ninguém perdido. Agora vamos às informações de jogo:

Sistema: Old Dragon (D20).

Personagens:

  • Elfric (nível 7): anão guerreiro. Ex-guarda de cidade que se viu forçado a encarar o mundo após sua esposa ter sido feita escrava pelos Homens-Lagartos. Tem como arma favorita uma montante.
  • Minukelsus (nível 6): humano necromante. Após ter sido curado de uma doença que o deixou repleto de cicatrizes, ele aprendeu o ofício da magia e busca itens mágicos para sua mestra. O grupo acha que ele é apenas um mago comum.
  • Trevor (nível 1): humano homem de armas. Após ter escapado do cerco a cidade de Nis, decidiu criar uma companhia de mercenários e ganhar muito dinheiro. Tem olhos dourados.
  • Arkos (nível 1): humano bárbaro. Saiu da sua tribo afim de explorar o mundo e descobrir as recompensas que ele traz. Usa o totem da tartaruga.

Boa leitura!

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A noite cobriu Velq.

Tochas e fogueiras eram acesas nas ruas, e os estabelecimentos mais ricos, ou extravagantes como bordéis, lançavam seus postes flutuantes coloridos, cujas luzes refletiam nas espadas dos homens, jóias das mulheres ou tigelas dos pedintes.

Saiam dos círculos os feirantes, os animais dançantes e profetas para darem lugar as dançarinas contorcionistas, aos bardos e aos homens que comercializavam na escuridão. Sob a luz da lua eram comercializados componentes para poções proibidas, pessoas e itens mágicos não registrados pelo Olho Vigilante.

Minukelsus debaixo da máscara.
Minukelsus debaixo da máscara.

E sob o luar, uma figura encapuzada arrastava-se entre um espasmo e outro em direção as Torres Flutuantes. Minukelsus havia ficado no quarto para conversar com sua mochila, mas ela não respondera. Já fazia muito tempo que ela estava calada, mas os pesadelos ainda eram constantes. Ele tremelicou as mãos e partiu para a taverna.

Oisin estava bebendo numa mesa, mas estava sóbrio, para variar. Elfric estava sentado na mesma mesa, e ali também estava Sarin.

Thomas Sarin era um Meio-Orc muito alto, e tinha um corpo atlético delineado através da pele cor de oliva. Era muito polido e educado, pois fora criado por um rico clã de elfos silvestres nas ilhas móveis de Cenutes. Minukelsus raramente o via sem sua armadura, que era feita de placas de aço sobrepondo outras placas, e abaixo, uma camada de cota de malha. Brilhava como prata, e possuía as marcas tribais daqueles elfos em seu entorno. Sua espada bastarda era tão leve e finamente trabalhada que qualquer pessoa poderia usá-la com apenas uma mão.

Possuía um lindo elmo fechado com chifres de bodes da montanha no topo, e uma abertura redonda que poderia ser abaixada no centro, mas ele não estava ali.

Sarin
Sarin.

O cabelo negro de Sarin era trançado grosseiramente em três longas tranças. Sua presa, proeminente em Orcs, era minúscula e apresentava-se apenas quando ele sorria. Por isso, ela aparecia pouco. Sarin vivia com uma expressão preocupada, pois havia jurado lealdade a Oisin Cei, e era seu mais valoroso guarda-costas.

– Kelsus! Junte-se a nós, e beba a si mesmo. – o meio-orc riu timidamente.

– Sarin! Onde você estava? – Minukelsus puxou uma cadeira, sentou-se e pediu uma caneca de cerveja.

– Oisin me pediu para convocar mais pessoas em Velq, dar uma inspecionada nas nossas instalações aqui na cidade, e outros assuntos. – sorriu novamente e parecera desconfortável com isso. – Espero que ele não tenha dado problema. – apontou sua caneca de cerveja para Oisin.

– O que você acha que sou, uma criança? – Oisin parecera furioso e indignado, e quando Sarin abriu a boca para pedir desculpas, caíra na gargalhada. – É sempre fácil fazê-lo cair, não é mesmo, Elfric?

– É, muito engraçado. – replicou o anão, carrancudo.

– Ainda cuido da sua coruja, Minukelsus. Não deveria tê-la abandonado. – Sarin repreendeu o mago por ter abandonado sua antiga coruja de estimação. O meio-orc era um paladino dedicado ao Deus Kenun, líder da natureza, e importava-se muito com animais. Até falava com eles. – Ela sente a sua falta. – coçou o pescoço e mergulhou um dedo nervoso na cerveja. Sarin era um péssimo mentiroso, e todos próximos a ele identificam os sinais do crime rapidamente.

– Aposto que sim. – disse o mago, sem ânimo.

Perto deles, no balcão, estava Ysa, a integrante dos Águias Negras. Ela bebia e comia um pouco de pão com frutas, e viva olhando para eles.

– Aquela rameira está nós observando desde que entrou aqui. – Elfric apontou para ela explicitamente, e a moça devolveu-lhe um sorriso. – Continue rindo, sua prostituta. Ela acha que somos o quê, pessoas sem palavras? – estava verdadeiramente indignado. – E se quiséssemos ir, teríamos ido! Não é uma magrela vinda da correnteza de ossos do Outro Mundo que iria nós impedir!

– Achei que ela estava olhando para mim. – falou Sarin, triste. – Ela é bonita, não seja cruel, Elfric. Faz parte dos tal Águias que você dissera ter contratado?

– Não contratei ainda, e espero que estejam todos afogados em sangue, merda, mijo e vômito!

Pediram mais cerveja. Sarin não gostava de beber, mas fazia questão de experimentar a cerveja Kelsus, e queria se despedir dos amigos.

– Irei para Volutii amanhã, com um grupo pequeno. – o meio-orc tomou mais um largo gole de cerveja. – Isso é muito bom. – limpou a boca. – Oisin pediu para que ajudássemos o rei Ciel com questões a respeito da Sangra-Mortos e das invasões a suas terras.

Sangra-Mortos.
Sangra-Mortos.

A Sangra-Mortos era uma doença terrível que estava assolando o reino de Volutii. Ela tornava as pessoas em bestas descontroladas e violentas, repletas de veias e olhos vermelhos. Os mortos também eram afetados pela misteriosa doença, e os cemitérios erguiam-se no reino para espalhar o terror sobre a terra.

– Além de lidar com com os vivos e os mortos, ainda há os Homens-Lagartos para dar cabo em Volutii. – Elfric fez o símbolo do Deus Belenus com as mãos. – Que os Deuses lhe ajudem. E me ajudem também. – adicionou azedo. Os problemas em Volutii afetavam Elfric também, que possuía negócios inconclusos ali.

– Muito obrigado, Elfric. Você é meu amigo, vocês dois são. – ergueu o copo de cerveja. – Um brinde, um sinal de bons ventos para nós! – todos brindaram.

Ysa estava em pé, conversando com um dos atendentes. Ele era carrancudo, mas ela estava sorrindo bastante, e tocando seus braços. Era um belo rapaz, recém-contratado por Toby. A taverna crescera em público e espaço, portanto, precisava de mais atendentes além de seus filhos.

De repente, a ex-escrava desistiu do rapaz e caminhou em direção a mesa onde seus contratantes estavam. Puxou uma cadeira, sentou-se e bebeu um gole da caneca que estava em suas mãos.

– É forte! – disse animada, com o rosto contorcido. – Eu não bebia cervejas assim nas Terras Desoladas! Mas é muito boa, Minukelsus, parabéns.

– Obrigado, Ysa. – o mago ficava sem jeito falando com mulheres.

– E quem são estes? – ela sorriu para Sarin e Oisin, e quando apresentaram-se, Sarin beijou-a na mão direita, com a permissão dela, claro.

– Um prazer vislumbrar tamanha peça de luz em uma taverna tão escura. – disse o meio-orc.

– Tem tochas e postes flutuantes por todos os lados! – Minukelsus tentara deixa-lo sem graça, mas Sarin ignorou.

– Um prazer conhecê-lo também. – ela sorriu polidamente, depois bebeu mais. – Como é bom beber cerveja de verdade! Nas ilhas, só lhe servem cerveja choca!

– É verdade que lá tudo é controlado pelo seu governante? – Oisin perguntou, curioso.

– Sim. Desde religião a tipos de bebidas que podem ser consumidas. – ela fez uma expressão azeda. – É um lugar terrível, quente, árido, repleto de vulcões e governado por um dragão megalomaníaco. Nunca visitem.

– Graças aos Deuses elas ficam bem longe daqui. – exclamou o meio-orc.

– Onde estão os seus amigos? Não acharam nada e ficaram com vergonha de virem me dar a notícia? – Elfric a olhava com desdém.

– Não. Os homens que procuravam matar vocês estão lá em baixo, nas ruínas de Velq. – ela sorriu, satisfeita. – Meus companheiros foram atrás deles, em breve, terá suas cabeças. Muito em breve. – ela sorriu, como se escondesse um segredo.

Confraternização na taverna.
Confraternização na taverna.

Oisin pediu mais cerveja e Minukelsus pediu mais pão. Muito pão.

– Nas ruínas? Legal! Faz tempo que não visitamos as ruínas, Elfric. – Minukelsus tremia e balançava as mãos. – Vou distribuir algumas coisas para os coitados.

– Você está louco? Descer lá para aqueles mendigos nós pedirem inúmeros favores? – o anão respondeu.

– Achei que não era muito adepto de atos de caridade, Corvo Branco. – o líder religioso pediu novamente mais cerveja, e também muito pão. O rapaz assentiu com a cabeça, e Ysa olhara com um sorriso malicioso para ele novamente, que prontamente ignorou e correu para a cozinha.

Sarin percebera aquilo e rolou os olhos, bebeu o resto de cerveja que havia na caneca e gritou para que o rapaz trouxesse mais.

– Bom, eu faço caridades. – o mago falou. – Não é isso o que o Círculo prega?

– Fazemos isso pois traz mais pessoas a nossa causa. – Oisin deu de ombros e virou o copo. – Que Deus pediria que déssemos o fruto do nosso duro trabalho para os preguiçosos? – estava começando a ficar bêbado.

– É, nenhum. – concordou Sarin. Parou para pensar. – Tem uns deuses assim em Saarthal e Pronaria. E ouvi falar de uns reinos de Byzantes que possuí um Deus assim. Caridoso.

– Loucura! Recompensar os preguiçosos! – Oisin deu outro gole. – E um Deus apenas? Ele controla tudo?

– Parece que sim. – Sarin desdenhava. Oisin riu tanto que engasgou.

– Não vamos. – impôs Elfric, carrancudo. – E você, saia da nossa mesa, nem foi convidada. O que, em nome dos chifres de Kenun, você está fazendo aqui? Vigiando-nos? Acha que vamos fugir de vocês?

Ysa apenas encarou o anão com uma expressão séria, sem trair emoção alguma, e observou com a mesma expressão o rapaz trazer um saco de pães e cerveja para todo mundo. O rapaz estava do lado de Elfric, esticou o braço esquerdo para segurar no apoio da cadeira do anão, e com o braço direito servia. Num tremular de uma chama dançando sobre o óleo de uma tocha, sangue espirrou por toda a mesa.

bloody_knifeA barba ruiva de Elfric pingava vermelha e o sangue escorria por suas coxas. A cerveja do anão tomou uma coloração escarlate, assim como a mesa de madeira e os pães de Minukelsus.

Todos estavam atônitos, não viram de onde viera, e só pareceram reagir segundos após. As pessoas gritaram na taverna, e Toby foi correndo em direção a mesa. Sarin desembainhou desajeitadamente sua espada, assim como Oisin. Elfric olhava pra canto algum, e depois rolou os olhos para o rapaz.

Ysa havia puxado a adaga presa a faixa que prendia seu comprido vestido verde, e a enfiou na parte esquerda do pescoço do rapaz, fazendo guinchar sangue. Depois rasgou com a adaga toda a área abaixo do queixo do atendente, da esquerda para a direita, cortando couro, carne e músculo. A ação derramou sangue por todos os lados na mesa, e o corpo do rapaz caiu inerte. Antes que pudessem contê-la, a ex-escrava levantou a camisa da vítima, revelando uma tatuagem com o símbolo da Chama Dourada na barriga.

– Respondendo ao senhor, Elfric Barba-Ruiva – ela limpava o sangue nas roupas do anão. – não achamos que irão fugir. Apenas estamos cuidando da sua sobrevivência. – ela sorriu e começou a se dirigir para a porta da taverna. – E recomendo que não beba dessa cerveja, creio que esteja envenenada.

Saiu da taverna.

O túnel dos condenados.
O túnel dos condenados.

O grito deslizou através da escuridão e arranhou as frias paredes de terra do comprido túnel.

Viera a frente deles, e foi do mais puro terror. Agora, os sons eram um gemido apavorado de dar dó, e os três mercenários seguiram ele.

Machadinha estava na frente, com uma tocha. Alertara que o túnel era repleto de armadilhas, e que não podiam correr por ele seguros, mas Trevor apressava os passos. Arkos apenas se deliciava com a melodia.

– Lembrem-se que queremos ele vivo – os sussurros do arqueiro ecoavam, fantasmagóricos, pelo túnel. – afinal de contas, precisamos saber onde está o quarto homem.

O túnel possuía passagens de terra batida e pedra lisa, era sustentado por toras de madeira e em algumas salas, colunas de pedra. Fora muito bem construído pelos Kobolds, que preencheram o local de salas, corredores, passagens secretas, tesouros perdidos e armadilhas. Muitas pessoas tentam atravessar o túnel, e a maioria se perde dentro dele, onde tornam-se irreconhecíveis. Monstros esfomeados por carne pulsante e espíritos vingativos.

Acharam o homem gemendo e praticamente ganindo sobre uma placa de pedra. Seu corpo estava preenchido de dardos envenenados, disparados de passagens circulares na altura do peito. As mãos, o rosto e uma perna estavam completamente inchados.

Machadinha identificou a armadilha e puxou o homem para longe dela.

– Ele ainda está vivo! – sorriu o garoto.

– Ótimo! Leve-o, Arkos.

Nesse momento, escutaram um alto barulho de pés arrastando, e uma porta abriu com violência atrás deles. Criaturas sentiam o cheiro da carne e o medo nos sons que o homem fazia, e vieram alimentar-se disso.

5e7cbac66a61218f170c4fe4448d7275Eram três criaturas, e elas moviam-se rapidamente. Duas eram desumanamente magras, e possuíam pele avermelhada, com bolhas de sangue em erupção dos vasos sanguíneos. Pequenos olhos vidrados na presa brilhavam com a luz da tocha. A outra criatura assemelhava-se mais com um humano, mas era pálida em excesso, possuía as veias roxas em exposição. Revelava olhos completamente negros e dentes muito pequenos, mas afiados como serras.

Machadinha gritou para que fossem para trás da armadilha, e arrastou o homem envenenado. Os dois seguiram ele e esperaram. As criaturas pisaram na placa de pressão que ativava o mecanismo que dispara dardos, e dezenas deles atravessaram a pele e músculo delas. Tinha o tamanho de uma flecha, e a mais atingida das criaturas teve metade do rosto rasgado e perfurado, de modo que caiu inerte. Arkos pulou com um golpe de cima pra baixo que esmagou a cabeça do monstro avermelhado restante, depois chutou-o, ele caiu no chão, e ali permaneceu. Virou-se para o monstro pálido.

A criatura movia-se no ritmo de um humano caminhando, mas saltou com velocidade espantosa, agarrou e puxou os ombros do selvagem em direção a bocarra e mordeu profundamente. Arkos tentou golpear, mas a mão ficou frouxa, e de repente, já não conseguia ficar de pé. Desabou no chão.

Trevor girou a espada com jóias e o monstro se abaixou e saltou com a boca aberta para sua coxa, mas o arqueiro deu-lhe um chute com a ponta da bota. Tentou acertar com a espada em um golpe da direita pra esquerda, mas a criatura agarrou seu braço e mordeu com muita força. Ela não queria soltar, mas o fez enquanto Trevor tentava estocar com a espada. O ferimento doía muito, formigava o antebraço, mas nada de mais lhe aconteceu, então ele investiu em uma estocada contra o pescoço da criatura, que desviou habilmente, segurou-lhe o braço com a mão esquerda e passou o braço direito em volta de seu braço e da sua cintura. Puxou para perto e abriu a boca em direção da garganta do arqueiro para arrancar-lhe as veias.

E um enorme fio prateado brotou entre os olhos da fera.

Inumano.
Inumano.

Machadinha arremessou com precisão a arma que lhe dá o apelido. A lâmina encontrou precisamente um local para descansar entre os olhos da criatura, que soltou Trevor. O arqueiro pegou com a mão esquerda no cabo da arma fincada e puxou para baixo e direita, cortando carne, cartilagem do nariz, olhos e lábios da criatura. Enquanto o líquido negro dos olhos do monstro escorria, Trevor rodopiou a espada e fez um corte horizontal na lateral da cabeça do bicho. Mais três golpes precisos e Trevor obterá um escalpo.

Arkos respirava com dificuldades, mas levantou-se após alguns minutos. A criatura possuía algum tipo de veneno imobilizador, mas que não afetara Trevor. Ainda com as pernas bambas, ele precisou da ajuda de Machadinha para carregar o mercenário da Chama Dourada, que agarrava-se a fiapos de vida.

Saíram rapidamente do túnel e retornaram pelo mesmo caminho que percorreram na velha e decadente Velq, levando um moribundo e dois mortos.

Encontraram uma turba que agitava e pedia. No centro dessa bagunça, Minukelsus distribuía pão aos pobres.

– O que vocês estão fazendo aqui? – Trevor olhava com incredulidade para o mago e para o anão.

– O imbecil queria fazer caridade. – olhou para os corpos e para o moribundo. – Ele está vivo?

– Está.

– Quero fazer algumas perguntas. – Elfric aproximou-se do homem, que estava chorando de dor. – Você é da Chama Dourada?

O homem mal conseguia falar, tinha a língua inchada. Assentiu com a cabeça.

– Vocês estão mesmo com a minha mulher?

O homem gemeu mais uma vez e assentiu de novo.

– Onde ela está? – o homem ficou calado, e Elfric chegou mais perto dele. – Diga-me onde ela está e eu lhe tirarei deste sofrimento. Permaneça calado, e garantirei que sobreviva por mais uma semana em dor e agonia.

– Ulfric – o homem reunira todas as suas forças para falar. – Ulfric, o Dourado. – gemeu e esperou mais um pouco, depois falou com dificuldades. – Nis.

Elfric queria perguntar mais, mas o homem não poderia responde-lo. Puxou uma adaga e cortou-lhe a garganta.

– Bom – o arqueiro olhava para a multidão desesperada para ganhar do pão que Minukelsus distribuía. Até o rei estava no meio. – parece que terá que nós pagar. Trinta peças de ouro, mais cinquenta pela escolta que faremos.

– Eu e minhas palavras. – Elfric resmungou. – Serão quarenta peças. A mulher deu cabo do outro homem lá em cima.

Todos ficaram surpresos quando o anão contou o que havia acontecido.

O pão acabou, e as pessoas começaram a retornar aos seus aposentos. O rei Velanes, solene, mesmo com três pães nas mãos deu um passo a frente.

– Vejo que são habilidosos e conseguiram solucionar meu desafio! – Os Águias olhavam aborrecidos para Velanes. – Estão prontos para tornarem-se guerreiros juramentados a minha casa?

– Não. – rosnou Arkos, rude e ameaçador o suficiente para que o rei não insistisse.

– Oh, tudo bem. – ficou decepcionado, depois olhou com uma expressão de cachorro abandonado. – Ninguém vai resolver o problema dos ladrões que incomodam a Grinal Lambe-Gatos?

Elfric sentiu-se tentado a aceitar e resolver tudo, apenas ele e Minukelsus. Eram onze ladrões, todos esfarrapados, e sem dúvida, o anão daria conta de todos rodopiando sua espada no ar e vendo os homens sucumbirem perante as chamas de Minukelsus. Queria esfregar na cara que podia com todos os Águias Negras, e sentia-se furioso por ter dito que iria contrata-los.

Aceitou. bandit_camp_by_robedirobrob-d699yp6.pngForam ao encontro de onze ladrões enquanto os Águias voltavam a Velq. No meio do caminho, Elfric arrependera-se de sua decisão, não por medo, mas por que estava desperdiçando energia com mendigos e loucos.

Chegaram a casa da Lambe-Gatos, guiados por um simpático rapaz chamado Budept.

– Sua mãe engasgou-se quando pôs o nome em você? – o anão indagou, zombeteiro. O rapaz fingiu que não ouviu.

A casa eram três paredes e metade de um teto em pé. Uma moradia luxuosa naquela região, e onze homens compartilhavam o calor de uma fogueira no interior dela. Minukelsus ajudou-lhes a manter o fogo alto.

O mago se concentrou no fogo e fez as chamas saltarem e lamberem os homens que agora corriam desesperados. Rapidamente, as chamas espalharam-se para todos os lados, tocando toda a casa e consumindo roupas, armaduras, cabelos e pele com velocidade mágica. Os que corriam para fora da casa em direção ao mago eram empalados pela enorme montante do anão.

Uma montante é uma enorme espada de duas mãos que possuí aproximadamente de 1,20cm a 2,00cm de comprimento. Elfric possuía 1,30cm de comprimento e naturalmente guardava a arma numa bainha presa nas costas. Poderia parecer uma cena cômica ver o anão balançando a espada, mas era terrível. No tempo em que um homem golpeava uma vez com uma espada longa, Elfric golpeava duas vezes com uma arma que possuía o triplo do peso e era muito maior. E fazia isso com precisão cirúrgica.

Dois arremessadores de lança em agonia arremessaram contra o mago, e a ponta de ferro de uma delas rasgou a túnica preta e a carne de Minukelsus. Elfric abriu uma fenda na barriga de um dos arremessadores, e o segundo estocou, mas a ponta de ferro ficou presa entre a armadura de placas do anão, que girou fazendo sibilar a lâmina da espada, cortando metade do pescoço do homem, que ficou com a cabeça pendurada. Foi decapitado no golpe seguinte.

mages-7Os agonizantes pelo fogo receberam a misericórdia da adaga de Minukelsus, e os que fugiram, com certeza estavam feridos demais para sobreviverem por mais do que uma semana. Elfric limpou a sua pesada montante, dispensou a recompensa em cobre de Velanes e suportou as coisas estúpidas que o rei falava sobre eles serem os guardiões da Nova, Gloriosa Velq.

Os Águias Negras retornaram ao ninho.

Ysa deu a sua versão do que acontecera e explicou como conseguiu enrolar o guarda para não ser presa por ter desembainhado uma arma, e pior, matado alguém com ela dentro de uma taverna. Toby testemunhou a favor da ex-escrava, assim como Oisin, Elfric e Minukelsus, todos com grande influência, e fizeram o guarda até recompensá-la com ouro após Minukelsus provar que a bebida que o mercenário da Chama Dourada servira estava realmente envenenada.

Machadinha buscou os três homens que aguardavam fora da cidade.

E foram comemorar.

Beberam muitas Kelsus nas Torres Flutuantes, tudo por conta de Trevor, que ficara extremamente feliz com o trabalho realizado e as recompensas. Tão feliz que pagou aos homens um extra de mais 3 peças de ouro cada, até para Ysa. A cerveja fluía de caneca para caneca até os homens serem tomados completamente pelo torpor do álcool. Brincaram de golpear com a faca entre os dedos, arremessar machadinhas em alvos determinados, queda de braço e contaram vantagem sobre o pênis. Nesse ponto, Ysa havia ido pagar por um banho numa estalagem decente.

No clímax das brincadeiras, Arkos arremessou o Machadinha, em vez da arma, no balcão, onde havia um grupo de homens bêbados. E num piscar de olhos, canecas voavam, homens desferiam socos, o Machadinha era arremessado, uma cadeira explodia nas costas de alguém, mesas eram viradas, o Machadinha era arremessado novamente e cerveja espirrava por todo canto.

Tavern FightOs Águias passaram a noite na cadeia pela briga e por Arkos ter desembainhado uma arma sem motivos em uma taverna. Saíram de manhã, sem arrependimentos.

No portão de Velq, aguardavam junto a caravana do Círculo, prontos para irem para Napes.

– Estão todos reunidos? – Trevor contou, e haviam treze homens, contando com ele. – Treze. – dissera satisfeito.

– As Treze Águias. – Arkos olhou solene para o arqueiro.

– Eu gostei. – Ysa estava com pele e roupas limpas.

– Talvez, caro Arkos, talvez. – Trevor sorriu e ajudou Machadinha a encordoar um arco. O garoto havia comprado um arco naquela manhã, e pedia dicas ao arqueiro.

– Ainda não lhe vi usando um arco. – disse Ysa. – Será que seu apelido faz jus a sua habilidade?

– Claro que faz. – Trevor falou arrogante. – Espere e verá.

Elfric e Minukelsus chegaram no meio da manhã, quando a caravana estava partindo ao comando de Oisin.

– Espero que valham as moedas de ouro. – o anão dissera carrancudo. Pagou metade agora e a outra metade pagaria quando chegasse a Nayan.

– Verão que há um motivo para nós chamarem de Os Águias Negras! – disse Ysa.

– Quem chama vocês assim? – Elfric desdenhou. – Não quero ficar para trás da caravana. Vamos. – o anão chegou perto de Trevor e o olhou sério. – Lembre-se, você é meu subordinado.

– Você nós paga, e é isso. – o arqueiro encarava o anão de cima para baixo.

– Você nós paga, e é isso, senhor. – o anão corrigiu e afastou-se puxando o pônei pela rédea.

– Será uma longa viagem. – comentou Minukelsus.

E seria mesmo. Sob o brilhante sol de Belenus, os Águias Negras e a dupla de barões da cerveja iriam para Nayan, e não seria uma viagem fácil. Problemas com a magia, loucos e criaturas subterrâneas os aguardavam.


E esta foi a terceira e última parte da minha primeira sessão relatada. Em breve você lerá mais histórias por aqui, fique ligado!

820x466_4523_D_D_Player_s_Strategy_Guide_Getting_Into_Character_2d_fantasy_illustration_boy_role_playing_dungeons_and_dragons_miniature_dice_picture_imaNa minha opinião, foi a parte mais divertida de toda a sessão. Trevor e Arkos continuaram com certa coisa na mão (você sabe), e por isso a parte do túnel demorou bastante. Cada passo era um alívio e uma ordem pro Machadinha conferir por armadilhas.

Deveria colocar mais carniçais, porém resolvi dar uma colher de chá, e ainda bem. Quase morreram com esses três. A criatura mais forte e rápida era um Inumano, que conseguiu paralisar o Arkos com uma mordida, mas felizmente Trevor passou na Jogada de Proteção pela Constituição.

Minukelsus insistiu muito na taverna para irem pra Velha Velq, e portanto foram. O pão também foi ideia dele, o que gerou uma cena bem cômica. A questão da Grinal Lambe-Gatos era pra ser apenas uma piada, mas acho que Elfric e Minukelsus estavam muito entediados e queriam um combate, portanto foram. A batalha foi tão fácil quanto descrevi, com a diferença que havia um inimigo de 3º nível que durou algumas rodadas contra Elfric, mas não conseguia acertá-lo. Foi tão fácil que preferi nem citá-lo.

O clima de hostilidade entre os personagens está igual, o que é uma pena pois isso costuma desgastar muito o grupo. Uma ação deve ser tomada para mudar isso, hehe.

Outras observações:

– Arkos iria se apaixonar se tivesse visto o que Ysa fez na taverna.

– Não citei isso, mas Elfric enviou a tal da carta com o pedido de resgate.

– Como sempre acontece em RPGs, esquecemos dos três npcs que foram pra saída do Túnel dos Condenados. Só lembramos após encerrar a sessão.

– O que Minukelsus fez na fogueira foi uma descrição que inventei pro conto. Ele basicamente criou uma esfera flamejante ali no meio dos ladrões.

– Esse tal de Budept é um NPC que na verdade se chama Budapeste, uma piada interna nossa. Ele teve mais participação nesta sessão e teve em outras também, mas achei melhor remover tudo isso.

Comente, dê o seu feedback e divulgue, se possível. Até a próxima!

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