Páginas de Voltura #02 – Horizontes Cinzentos parte 1

Olá, pessoas bonitas!

Estas são as Páginas de Voltura, contos e relatos sobre aventuras diversas num continente repleto de culturas diferentes, onde o perigo espreita. Puxem uma cadeira, paguem-me uma boa cerveja Kelsus e eu lhe contarei uma história sobre algumas pessoas metidas em encrencas.

Boa cerveja! Agora, esqueçam a canção do bardo nos fundos da taverna, são apenas mentiras.

Tudo isso aconteceu aqui, em Voltura.

E teve a participação de algumas pessoas bem distintas.

Sistema: Old Dragon (D20).

Personagens:

  • Elfric (nível 7): anão guerreiro. Ex-guarda de cidade que se viu forçado a encarar o mundo após sua esposa ter sido feita escrava pelos Homens-Lagartos. Tem como arma favorita uma montante.
  • Minukelsus (nível 6): humano necromante. Após ter sido curado de uma doença que o deixou repleto de cicatrizes, ele aprendeu o ofício da magia e busca itens mágicos para sua mestra. O grupo acha que ele é apenas um mago comum.
  • Trevor (nível 2): humano homem de armas. Após ter escapado do cerco a cidade de Nis, decidiu criar uma companhia de mercenários e ganhar muito dinheiro. Tem olhos dourados.
  • Arkos (nível 2): humano bárbaro. Saiu da sua tribo afim de explorar o mundo e descobrir as recompensas que ele traz. Usa o totem da tartaruga (+1 na CA).

Ouçam bem.

Viagem

Uma águia deslizava através do cinzento e preguiçoso horizonte, com as asas planando abaixo de sujas nuvens cor de grafite que desejavam uma tempestade. O céu encontrava-se num estado melindroso há alguns dias, demonstrando seu lamento em uma garoa leve e constante sobre aqueles que o entristeciam.

Arrastavam-se em direção à Nayan, capital do reino de Napes. Eram 150 pessoas numa caravana que levava crianças, mulheres, homens jovens, velhos e animais. Porcos grunhiam enquanto eram empurrados por bastões, galinhas ciscavam e fediam, cães latiam e ganiam. As crianças corriam e se jogavam na lama deixada para trás e as mães puxavam orelhas, furiosas. Os velhos eram carregados em carroças e contavam feitos passados, que talvez nunca existiram, mas mantinham os homens distraídos das tragédias que eram suas vidas.

O rastro de sujeira denunciava que partiram de Velq com muita comida, madeira e cerveja. Aquela era uma caravana do Círculo, o maior grupo religioso de Voltura, que acreditava cultuar todos os Deuses igualmente e desprezava a magia e seus usuários. Oísin era o coração do Círculo, e montava um cavalo no centro dessa caravana, acompanhado por Elaw, o pai de todos, um xamã Volutien que foi um dos fundadores da organização religiosa.

Book_of_Rituals___cover_by_namesjamesTodos os dias, um animal era sacrificado à Daegh – deus das estações e dono de todas as terras entre o profundo oceano de Manawydan e o infinito céu além das nuvens de Lugh – para manter o clima ameno enquanto viajavam. No segundo dia de viagem, Oísin discursou sobre a importância do sacrifício humano no passado de Voltura, e como estas raízes sustentariam grossos e longevos troncos frutíferos para todo o continente no futuro. Um velho cego, manco e em vias de ser encaminhado ao Outro Mundo se ofereceu, e todos regozijaram-se diante do favorecimento dos deuses enquanto presenciavam o velho ritual.

Quando a noite caia, tendas eram armadas e sacos de dormir cobriam a terra úmida e enfraquecida. As fogueiras crepitavam, lançando labaredas dançantes que iluminavam rostos ansiosos com as histórias de terror contadas. Um ponto de luz marcava a grande fogueira central que era acendida todas as noites, onde Oisin, Elaw e dezenas de pessoas comiam, bebiam e cantavam honrarias aos seus deuses.

Perto das carroças, ao alcance das aventuras contadas e das rodas que rangiam e estalavam, as gargalhadas e gracejos de um grupo de homens negavam o frio vindo das nuvens tristes acima. Eram catorze homens e uma mulher, marchando juntos, ligados não por sangue, amizade ou dever, mas por ouro.

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– Pessoal! – alardeava o jovem de olhos amarelos e corpo esguio. Seu nome era Trevor, um arqueiro. E ele comanda o grupo de mercenários conhecido por ninguém (ainda) como As Águias Negras. – Atenção, por favor. – os homens pararam de conversar e olharam para o arqueiro. – Muitos de vocês estão felizes com o nosso último trabalho, e eu também, pois o dinheiro foi vasto. – o grupo havia localizado e matado quatro homens que ameaçavam a segurança de Elfric Barba-Ruiva, um famoso guerreiro anão, e por isso, foram recompensados com dinheiro e com um contrato para uma escolta. – Paguei um bônus em ouro equivalente a uma semana de trabalho para cada homem desta companhia! – gesticulava pouco e falava alto e lentamente, as palavras planando na fria brisa noturna. – Mas todos sabem que para ter sucesso, um grupo precisa ter regras.

Os homens murmuraram em concordância e perguntaram quais eram as tais regras.

– A partir de hoje, nenhum de vocês andará sozinho. Somos 12 homens, e portanto andaremos em duplas. Vocês devem escolher suas duplas após meus recados.

Todos aprovaram a decisão e já começavam a perguntar aos homens quem iriam escolher. Trevor tentou silencia-los, mas as duplas já estavam se formando, então o arqueiro escolheu o homem mais forte e assustador do grupo, o selvagem Arkos.

– Certo, 12 homens, mas esqueceram-se da mulher? – Ysa, a ex-escrava, queria saber com quem ela andaria.

– Comigo, é claro, belezinha! – exclamou alto Raff. – Minha lança está sempre pronta para estocar! – os homens riram.

– Ela vai comigo. – o arqueiro impôs. Ficou desconcertado pelo olhar de Ysa e então continuou, pigarreando. – Meu grupo será o único com três pessoas, mas apenas por Ysa não ser guerreira. Agora, de volta as regras – havia subido na carroça em que Ysa estivera sentada. – cada saque obtido será dividido igualmente entre nós. Atentem-se ao fato de que são moedas extras, já que seus pagamentos são fixos e semanais.

Turil, um elfo alto e esguio, cujo rosto denunciava a participação em várias batalhas adiantou-se.

Turil.
Turil.

– Então receberemos nossas três peças de ouro amanhã? Ao fim da semana? – já haviam seis dias que os Águias haviam se formado.

– Não, não! Vocês já receberam por esta semana, e mais um bônus. Receberão em sete ou oito dias. – parou para olhar para trás quando ouviu um uivo de um bêbado numa fogueira próxima, estava tentando conversar com os cães. – A terceira regra – disse, retomando ao motivo daquela reunião. – nos ajudará a crescer e tornarmo-nos mestres da batalha! Treinaremos todos os dias, seja manhã ou noite, com armas de madeira. Treinem com suas duplas para que possam conhecer como seu parceiro luta, mas não deixem de lutar com o restante dos homens também. Além disso, iremos treinar formações de batalha em conjunto, com a minha liderança, para que nossas mentes estejam tão afiadas quanto nossas lâminas!

– Perfeito! – assentiu o anão Ozill com a cabeça. – Todas as melhores companhias treinam diariamente!

Todos os outros homens murmuravam em aprovação. O bêbado uivou mais uma vez enquanto um cão roubava-lhe uma tira de carne salgada dentro de um pão das mãos.

– Quarta, e por enquanto, última regra – Trevor pigarreou, olhava rostos contentes e ansiosos prestes a se desmanchar em desgosto. – a cada cinco peças de ouro que receberem, uma irá para os fundos da nossa companhia. – e não teve tempo de falar mais nada, pois os homens explodiram e houve vozes alteradas, movimentos exagerados, perdigotos em vôo e cervejas derramando-se das canecas.

– Você não pode fazer isso! Está diminuindo nosso pagamento de 12 peças de ouro ao mês para 10 peças! – gritou Turil, furioso. Arkos espantou-se com a matemática do elfo e começou a contar nos dedos para conferir se a conta batia.

– Posso pagar muitas rameiras feias com duas peças de ouro. Quem vai pagar pelas minhas rameiras feias? – Raff, o sábio, que recebera esse apelido por nunca pensar nas palavras antes de falar, exclamava sem parar.

– Estas moedas serão retiradas dos saques, não do pagamento de vocês. Ele é fixo. – os homens continuaram reclamando. – Nós precisamos de uma sede! – Trevor aumentara a voz para que todos pudessem ouvi-lo. – Ou preferem vagar por ai? – os homens abaixaram o tom de voz, mas as reclamações serpenteavam entre as gotas vindas das cinzentas nuvens. Os cães latiam zombando do bêbado que corria para recuperar sua refeição. – E precisamos de fundos para emergências. Precisamos de espadas de madeira para treinar, do documento que oficializa as ações da nossa companhia dentro dos reinos – por sorte, eles haviam executado seu primeiro trabalho abaixo das ruínas de Velq, cujo a lei evitava. Um homem fora morto por Ysa na cidade, mas as doces palavras da ex-escrava e os depoimentos de alguns homens importantes garantiram exceções na lei. – , precisamos de dinheiro para a comida e bebida. – antes de sair de Velq, Trevor comprara sacos de farinha de aveia e milho, tiras de carne seca, um pouco de lentilha e cerveja e uma carroça para transportar tudo isso, tudo do próprio bolso, para suprir os homens.

– Por que não peças de prata? Comida não é tão cara assim! – o elfo Turil estava indignado. Queria dinheiro para sustentar seu vício no jogo de dados e em pequenas apostas que gostava de fazer com os companheiros de viagem.

– Atente-se ao que falo, Turil, isso vai muito além da comida. É preciso ouro para fazer esta companhia crescer.

– Peraí, se os homens perdem duas peças de ouro, eu perco quatro! – Arkos finalmente terminara sua conta, e a indignação tomou forma na boca retorcida.

– Seus pagamentos permanecerão intocados! – alterou-se rapidamente e se empertigou para seus homens. – Isso será necessário enquanto não tivermos sede, pelo menos. Depois tudo será mais fácil, entendam, há muitos outros por ai, e precisamos crescer rápido. – o arqueiro suspirou por fim e encerrou a conversa. Beliscou umas tiras de carne seca e limpou o gosto salgado com cerveja enquanto os homens ainda falavam sobre o assunto, então decidira afastar-se para observar a lua.

AlvoradaO sol de Belenus surgia tímido no horizonte, escondendo-se sob máscaras cinzentas que choravam lágrimas finas e frias na caravana povoada pelos adoradores. Uma mula, um porco e um cão tiveram o corpo enrolado em chicotes de freixo-esguio e a garganta fora cortada com uma adaga cujo cabo era feito do mesmo material, com micro adornos de bronze, prata e ouro, além da lâmina de aço reluzente. Oísin realizara o sacrifício pessoalmente, e cantou ao som de uma harpa um pedido à Daegh por ventos mais calmos e nuvens mais claras.

Naquele dia, talvez, Daegh estivesse tocando sua harpa em seu bosque escondido no centro da terra, e não ouvira os pedidos de Oísin.

Uma tempestade com chuvas finas como agulhas e ventos cortantes como uma espada atingiu a caravana em plena manhã. A água caia sem parar, e parecia que todos os rios do mundo haviam subido as nuvens para cair sobre a terra com um estrondo.

As pessoas se protegiam como podiam, com capas, lonas de barracas esticadas sobre varas e carroças cobertas. As crianças e os velhos tremiam, esperando por doenças, e os porcos guinchavam, reclamando do banho.

– Minha bota está ficando ensopada! – reclamou Arkos, expulsando água a cada barulho ensopado de seus passos.

– Mantenham-se calçados enquanto andamos, estamos perto dos cães e de outros animais, podemos ficar doentes andando descalços. – Turil era veterano de várias batalhas e já vira exércitos destruídos pela chuva e pelas doenças que uma aglomeração de homens sempre traz. – Mas lembrem-se de tirar as botas de noite, enquanto descansam. Não vão querer ficar com os pés pretos e inchados.

– Entendido, sabichão. – o selvagem revirou os olhos e manteve as botas.

– Ele parece o Abutre nesse cavalo. – Ysa chegou mais perto de Trevor e falou baixinho, apontando para Minukelsus, que vestia um manto negro com capuz.

– Não fala dele, traz mau agouro. – o arqueiro estava falando do Abutre. Segundo os xamãs, era um amaldiçoado que vagava pela terra anotando o nome de todos os mortos num grosso livro preto. Manawydan, o deus que governa as almas que residem abaixo dos oceanos, deu a imortalidade para o Abutre, mas amaldiçoou-o com esta missão após quase ter sido enganado e convencido a entregar sua lança, que segundo os mesmos xamãs, ceifa a vida de tudo o que toca. Agora, a figura sem rosto, negra e encapuzada do Abutre vagava por Voltura, coletando o nome de todos os mortos. – Mas sim, ele parece ter saído de uma cova. – agora falava de Minukelsus, um mago de pele com aspecto podre que era um dos contratantes dos Águias Negras.

O Abutre.
O Abutre.

– Não tem medo dele? – Ysa espremia-se contra uma capa comprada quando a chuva começara a cair.

– Claro que não! – afirmou rapidamente o arqueiro, sentindo-se destemido. – Ele é estranho, e ouvi falar que conversa com aquela mochila bizarra durante a noite. – falava sobre a mochila feita de couro, ossos e um crânio, tudo tirado de um humano, ele supunha, que o mago levava nas costas. – Mas o vi distribuindo pão aos pobres. – parou para pensar enquanto a água escorria entre os elos de sua cota de malha. – Isso torna tudo ainda mais estranho, para falar a verdade.

– Aposto que é um daqueles que adotam vários órfãos e utiliza-os para fazer poções de longevidade.

– Me preocupo mais com o anão. – Elfric Barba-Ruiva cavalgava ao lado do mago. – Ele é um imbecil, e era um dos capitães do exército do rei Devan. Era tão bom comandante que perdeu Nis para os arminianos. – falava do cerco que Nis sofrera há um mês atrás. Trevor estava na cidade, que foi conquistada por um exército, e três dias depois, conquistada novamente por outro.

Gritos irromperam da frente da caravana, uma multidão de pessoas curiosas corriam para ver qual o motivo do tumulto. Elfric e Minukelsus instigaram suas montarias, e Trevor, Arkos e Ysa correram através das poças de água e do chão lamacento em direção a turba que se formava.

Sentiram o cheiro da encrenca que misturava-se ao fedor de urina, terra molhada e cães ensopados. Depois ouviram-na, e por fim, viram o início de uma tempestade ainda mais forte que a dos céus.

Dois homens altos e com posturas altivas prendiam com uma algema mágica um homem barrigudo e com cabelos rareando.

– Afastem-se, todos vocês! – alertava um dos homens que segurava uma varinha de madeira engastada com prata e aço na ponta. – Estamos exercendo a lei da regularização mágica em Lughdis, portanto, como agentes da lei, temos imunidade em território Lughden. – virou a varinha para os lados enquanto seu parceiro arrastava o homem pela camisa. – Pare ai mesmo, ou serei obrigado a fazer uso de força mágica! – Arkos deu um passo à frente com um martelo na mão, mas parou diante da ameaça e do conselho que Trevor dera.

– Eu juro, achei isso na minha carroça hoje! – o homem algemado gritava desesperado. – É só uma varinha de luz!

– Não importa, se não tem dinheiro para pagar a multa, será preso e cumprirá uma pena prevista de acordo com o julgamento do senhor da magia local. – um pouco acima do peito, um broche feito de prata e com a imagem de um olho encantado que olhava para todos os lados sem parar brilhava e indicava a posição de fiscalizador do Olho Vigilante. Era uma organização que fiscalizava e regularizava itens mágicos em toda Voltura, além de prestar outros serviços. Em Lughdis, o Olho Vigilante tem poder para executar uma sentença e criar leis para casos que envolvesse magia sem a necessidade do aval dos Mestres das leis locais.

Fiscal do Olho Vigilante.
Fiscal do Olho Vigilante.

A multidão xingava e arremessava lama nos magos, que ameaçavam utilizar a varinha enquanto o aguaceiro não cessava. Os rostos e as roupas eram cinzas e desbotadas, enquanto os magos vestiam seda fina e colorida. Os broches piscavam para os mais gananciosos, que davam um passo à frente e depois recuavam ante a ameaça que o mago armado com a varinha bradava.

De repente todo aquele barulho cessou, e apenas se podia ouvir o estrondo que a água fazia de encontro ao chão e as súplicas que um halfling fazia.

O pequeno Elaw O-Pai-De-Todos segurava o braço de Oísin, que caminhava em fúria na direção dos magos, abrindo caminho na multidão. Estava com a espada desembainhada na mão direita, e uma luva negra na mão esquerda aleijada. Sacudiu o braço soltando-se do xamã, e aproximou-se dos magos, que ameaçaram com um gesto o líder religioso.

– Esta é uma caravana de paz e adoração aos deuses. – o rosto foi da fúria para a serenidade completa em apenas uma frase. – Aos verdadeiros deuses. E aqui, eu comando. Exijo que solte este homem, agora.

Os magos sentiram a ameaça que a presença de Oísin trazia, e estremeceram. Oísin odiava o Olho Vigilante, e era famoso por isso.

– Senhor – disse respeitosamente o mago que segurava o homem preso, que agora estava em lágrimas. -, nós encontramos um item mágico sem a assinatura que regulariza seu transporte em terras Lughdien na carroça deste homem. – olhou nervoso ao redor, depois continuou. – Ele alegou não ter dinheiro para pagar a multa exigida, portanto, levaremos ele a Velq, onde faremos um julgamento adequado.

– Julgamento? – Oísin não demonstrava nenhuma emoção, mas fedia a cerveja, provavelmente estava bêbado. Quando os magos não responderam nada, ele coçou a barba com a mão aleijada e enfiou a espada na terra. – De quanto se trata a multa?

– 120 peças de ouro, senhor. – o mago ficara aliviado por Oísin ter colocado a espada na terra, e recuperou sua postura desafiadora. – e terá que pagar, caso contrário, recolheremos a varinha e este homem.

– Se eu pagar vocês o soltarão e devolverão a varinha?

– Apenas o homem, senhor. De todo modo, a varinha voltará conosco.

– Certo. – Oísin encarou os magos até eles ficarem novamente desconfortáveis, em seguida tirou uma bolsa de couro e contou, por longos minutos sob a chuva fria, uma quantia em ouro e prata equivalente a exorbitante multa exigida pelos magos. Esticou a mão aleijada segurando debilmente um pano com as moedas para o mago. – Aqui está, 120 peças de ouro.

Ficou parado, com o rosto indecifrável, encarando o mago que havia algemado o homem. O mago hesitou, mas deu alguns passos até alcançar o pano com moedas oferecido. Foi quando a espada subiu.

Oísin utilizou a mão direita para arrancar a espada do chão e acertar um golpe na lateral do pescoço do mago. Foi um golpe fraco, dado de mal jeito, mas mortal o suficiente para abrir uma fenda vermelha na carne. Oísin retorceu-se numa fúria súbita e cega ao que acontecia ao redor, tudo o que via era o brilho do aço, o fluxo vermelho misturando-se a chuva e um alvo. Golpeou mais uma vez no mesmo ponto, e de novo. O mago perdeu o equilíbrio e caiu no chão, mas isso não impediu Oísin de continuar golpeando até separar a cabeça do corpo. Não sabia, mas urrava assustadoramente.

Mãos flamejantesEnquanto a execução se desenrolava, o outro mago fora cercado por fieis furiosos do Círculo, mas ele apontou a varinha para todos eles, e da ponta de aço, uma chama vingativa lambeu a roupa e a carne daquelas pessoas. As gotas de água evaporavam à meio caminho do chão, próximas a varinha. Foi então que Minukelsus, do alto do seu cavalo, esticou a mão e dela saíram compridas flechas maciças de energia que atingiram o mago no peito, fazendo-o cambalear. Foi derrubado por um martelo arremessado por Arkos, que pegou-o na nuca.

– Não o matem! – Oísin rosnou mais alto do que qualquer trovão poderia ressoar naquela tempestade. – Tirem tudo o que ele possuí, tudo! – chutou a cabeça que jazia ao seus pés, em fúria. – E tragam-me um poste de madeira muito alto! Se não tiverem, reforcem o poste do estandarte! Deve ser forte o suficiente para sustentar um homem!

E foi então que Trevor percebeu a confusão em que havia se metido.

Caminhavam em território lughdien, próximo à fronteira com Napes, o que seria bom se não houvesse tropas da rainha marchando por toda parte devido ao ataque arminiano no reino vizinho. Oísin pretendia amarrar o mago ainda vivo ao poste, como um estandarte que anunciava o início de uma guerra aberta contra o Olho Vigilante. Em pouco tempo estas tropas receberiam uma carta que alertava o que havia acontecido na caravana e atacaria Oísin e todos que estivessem marchando ao lado do Círculo. Sem contar que Velq estava há um dia de viagem a cavalo, e na rica cidade havia um estabelecimento do Olho Vigilante, que mandaria seus executores, e até mesmo a Guarda de Aço para capturar os assassinos.

O Olho Vigilante não possuía tanta força em Napes, de modo que precisariam de um aval do Mestre da Lei local antes de tocar a caravana. E claro, assim como a instituição de magos tinha poder em Lughdis, o Círculo dava as leis em Napes. Mas a caravana movia-se lentamente, e seriam apanhados.

Tudo isso transbordou como um riacho durante um final de outono chuvoso na mente de Trevor.

– Temos que nos afastar imediatamente – olhava do mago sendo despido para as vítimas carbonizadas pela varinha. Contara 7 mortos e 4 feridos. Arkos possuía habilidade com ervas curativas, e estava prestando ajuda aos feridos após recuperar seu martelo. – ou todos morreremos com a loucura dele.

Mortos e feridos– Estamos em terras lughdien, e a caravana precisa de mais dois dias para cruzar a fronteira. – Ysa havia pensado o mesmo que Trevor e estava consternada diante do mago, agora completamente nu.

– Eu sei, também pensei em tudo isso. – os homens trouxeram um grosso poste de madeira e cordas, e começavam a amarrar o mago no topo dele. – Eu não quero ver mais um segundo desta loucura. Vou mandar os homens prepararem-se para partir. – olhou para Elfric e Minukelsus, que estava há alguns passos de distância. – Você possuí mais habilidade com as palavras, Ysa. Convença-os a se afastarem desta caravana. – afastou-se da confusão enquanto ouvia Oísin gritar furioso sobre os deuses e os demônios da magia.

Sarah.
Sarah.

Elfric pensava em Sarah.

Seus fios cor de fogo, suas sardas ruivas nas bochechas gordas e o calor de seu abraço. Estivera pensando nela durante toda viagem, e enquanto Oísin atacava os dois magos do Olho Vigilante, imaginava se os homens o viam com tamanha fúria e paixão no rosto enquanto protegia algo que amava. Supôs que sim.

Antes de partir de Velq, enviou uma carta para Nis, escrita por Minukelsus, oferecendo mil peças de ouro como resgate por Sarah, que fora capturada por Ulfric, o dourado, líder da companhia mercenária A Chama Dourada. Era uma quantia volumosa, um resgate digno de lordes ou herdeiros, mas Elfric precisava de sua mulher, a queria agora, não poderia suportar viver sem ela.

Iria para Nayan inspecionar sua cervejaria, que montara em parceria com Minukelsus e Noah, que ficara na cidade para fazer o negócio crescer. Mas a todo momento olhava para a estrada lamacenta deixada para trás, esperando um mensageiro trazer informações sobre o local da negociação e sobre o bem estar de Sarah.

Oísin arengava contra a magia para todos que podiam ouvir. Sua voz era poderosa e passional, de modo que cada letra de cada palavra podia ser ouvida acima da teimosa chuva. Um dos guardas juramentados de Oísin utilizava a varinha do mago para acender uma enorme fogueira alimentada por madeira e pelos grimórios mágicos dos fiscalizadores.

– Estes são os instrumentos de Eonas e Érinn! – o líder religioso cuspia, gritava e sacudia a espada em direção aos grimórios, depois ao céu. – Os instrumentos do caos, da destruição, da queda do grande Daegh, que toca o cordão tempestuoso de sua harpa, lançando uma tempestade sobre a terra, furioso com os magos profanos! – os homens gritavam em concordância, foices, porretes e espadas eram erguidas. – É nosso dever, como filhos de Daegh, impedir sua morte! Impedir a morte do pai de nossa terra! – cada palavra explodia na mente dos fiéis, que reagiam as vibrações com mais gritos, mais vontade de vingar-se pelos irmãos mortos. – Impedir nossa própria destruição! – o poste fora erguido com um pavoroso estandarte. O mago, ainda vivo e completamente nu, amarrado pelos pés, cintura e pulsos ao poste, sangrando. – Esta é nossa mensagem! Nossa mensagem a todos aqueles que trabalham a obra de Eonas e Erinn, os arautos do caos, artesãos da destruição! Não toleraremos sua obra, Olho Vigilante! Não assistiremos de braços cruzados a destruição da nossa terra, da terra dos nossos filhos, das nossas mulheres, da terra de Daegh! – e um clamor alçou voo das bocas escancaradas de cada homem, mulher e criança daquela caravana. Por um momento, a chuva fora abafada, as gotas vindas das nuvens pareciam evitar o contato com as pessoas que fervilhavam em uma fúria primitiva. Gritavam, rodopiavam, sacudiam armas e ferramentas em mãos, em êxtase, convidando o inimigo, que estava distante, a enfrenta-los.

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– É loucura! – Elfric assistia tudo aquilo boquiaberto, falava para Minukelsus, ao seu lado, mas que mal podia ouvi-lo. – Oísin extrapolou todos os limites!

– Ele declarou guerra ao Olho Vigilante. – o mago cinzento estremeceu. – À magia.

– Senhores – Ysa aproximou-se dos dois, com Arkos ao seu lado. -, creio que esta seja nossa deixa para afastamo-nos da caravana. As tropas lughdiens irão nos massacrar!

– Não podemos deixar Oísin sozinho, ele está enlouquecendo! – Minukelsus estava assustando com tudo o que acontecera, teve um tremelique nas mãos.

– Já enlouqueceu, Minukelsus. Fizemos o que pudemos para mantê-lo sóbrio e são, mas a loucura da fé e da cerveja inundou sua mente. – Elfric virou sua montaria na direção oposta a confusão. – É um barco condenado, e temos problemas demais para perder tempo evitando seu naufrágio.

– Trevor concorda com essa atitude, e já está preparando os Águias para partir, apenas esperávamos sua aprovação.

– Agora a tem. – o anão instigou sua montaria. – Vamos partir, Minukelsus. Não há nada que você possa fazer agora.

O mago foi o último do grupo a sair dali. Olhava triste para Oísin, para o homem amarrado e para toda a fúria cega provocada. Afastou-se lentamente, imaginando um mundo sem magia.

Elfric.
Elfric.

Todos os Águias, Elfric e Minukelsus preparavam-se para partir imediatamente. Precisavam afastar-se rápido para evitar o massacre que aquela caravana sofreria. Ali haviam apenas cerca de 150 pessoas, e talvez apenas um terços dela fossem de guerreiros. Desse um terço, metade teria equipamentos em boas condições, e o restante vestiam armaduras rasgadas, foices e porretes com pregos no lugar das armas e nenhum escudo.

– Choverá fogo sobre eles. – observou Minukelsus, triste.

– Oísin trouxe isso para si mesmo. – Elfric estava pronto em sua montaria, apenas esperando os Águias Negras. – E vocês, não terminarão isso nunca?

– Estamos prontos – Trevor olhou irritado para o anão. – mas nos faltam cavalos.

– Estão com preguiça de andar? – o anão acariciava sua barba ruiva com uma expressão jocosa, observando a fúria insolente do arqueiro tomando forma nos olhos dourados e na boca espremida.

– Não. – tomou fôlego e conferiu se sua aljava estava bem presa ao cinto. – Mas precisamos de cavalos se querem tomar distância rapidamente da caravana. Sem montaria, seremos apanhados próximos a Oísin.

– Eu compro os cavalos. – Minukelsus observava a multidão distante. Os gritos ainda ressoavam, e era possível ver o mago preso ao poste alto.

– Você está louco? São dez pessoas desmontadas! – Elfric não contava os irmãos Ozill e Oteu, que possuíam seus próprios pôneis e o selvagem Arkos, que estava montado em um cavalo magro.

Trevor.
Trevor.

– Se quiser, é uma boa ideia. – riu o arqueiro, imaginando quantas moedas Minukelsus carregava naquela bolsa medonha. Talvez valesse a pena saber.

– Comprarei apenas cinco, e duas pessoas devem montar cada cavalo. – o mago aproximou-se de Elfric. – Eu não quero ter que enfrentar o Olho Vigilante aqui, e muito menos a Guarda de Aço que virá com eles. – puxou o capuz revelando o rosto meio queimado e tomado por cicatrizes. A chuva diminuíra o ritmo, agora as gotas tocavam notas leves de encontro ao solo. – E estou cansado de viajar tão devagar. Sinto falta dos grifos! Quero sentir o vento novamente! – ele e Elfric já haviam sido donos de grifos, e aprenderam a montá-los, mas perdera-os em Nis.

Elfric resmungou e pensou bastante, mas por fim aceitou a ideia de Minukelsus e até contribuiu com algumas peças de ouro. O mago estava com medo de andar pela caravana sozinho, temia hostilidades por parte das pessoas em frenesi, e levou Arkos, Turil e Machadinha para ir até algumas pessoas com cavalos reserva e oferecer algumas peças de ouro. As pessoas olhavam-no com desconfiança, com súbita desaprovação por ele ser mago. Ele pensava em quanto isso era injusto, minutos antes, elas o amavam.

As negociações duraram um bom par de horas e foram terríveis. O mago nunca fora bom negociador, e verdade seja dita, nunca se importou muito com riquezas. Se pudesse, seria pago em feitiços e conhecimentos arcanos. Dessa forma, comprou seis cavalos magros por quase o triplo do preço, gastando quase duzentas peças de ouro.

– Duzentas o quê?! – Elfric quase caiu do pônei. Olhava com raiva para Trevor, que parecia estar passando mal de tanto rir. – E seis! Combinamos cinco!

– Um é para levarem suprimentos. – o mago estava envergonhado com seu desempenho nas negociações. – Terão que deixar a carroça para trás e levar os suprimentos no cavalo.

Então partiram. Queriam distância do Círculo, dos gritos, do discurso de ódio cheirando a cerveja de Oísin, do fogo, aço e fúria do Olho Vigilante que cairia sobre eles.

Voltura


Essa foi a primeira parte de Horizontes Cinzentos, a segunda e última parte está disponível aqui.

820x466_4523_D_D_Player_s_Strategy_Guide_Getting_Into_Character_2d_fantasy_illustration_boy_role_playing_dungeons_and_dragons_miniature_dice_picture_imaMais uma sessão, e dessa vez aconteceram muitas coisas, e tudo rapidamente. Mas, é claro, não deixou de ser muito divertido por isso.

Os jogadores estavam bem engajados em interpretar nesta sessão. Tiveram bons diálogos e cada um agiu de acordo com a personalidade de seus personagens.  Arkos utilizando sua perícia em Cura e Herbalismo para ajudar aos feridos, Minukelsus se afastando dos fiéis loucos, Trevor liderando e se importando com seus Águias e Elfric resmungando e pensando em Sarah.

A parte dos cavalos fez o jogador do Elfric morrer por dentro ao ver que Minukelsus gastou tudo aquilo. No jogo ele deu metade do dinheiro. É sempre divertido gastar o ouro alheio.

Outras observações:

– O Olho Vigilante é uma ideia do Daniel Ramos, lá do Birosca Nerd. Gostei muito dela e tomei a liberdade de usá-la modificando algumas coisas. Não me processa, Dan!

– Agora as introduções estão diferentes, mais imersivas e divertidas. Continuarão assim.

– Nayan é a capital de Napes e fica localizada naquele triângulo próximo a Nalssus. Acontece que na hora de criar o mapa eu não coloquei nome nas capitais, e como tenho muita pregui…

– Sempre vou estar postando imagens dos personagens principais, e sim, serão diferentes das anteriores, porém elas manterão uma semelhança suficiente para que a imagem deles não fique totalmente confusa em sua imaginação.

Comente, dê o seu feedback e divulgue, se possível. Até a próxima!

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Um comentário sobre “Páginas de Voltura #02 – Horizontes Cinzentos parte 1

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