Páginas de Voltura #02 – Horizontes Cinzentos parte final

E então, estão gostando das histórias? Mas é claro que sim!

Agora percebo que há muitas faces novas ao redor desta mesa. Ora, aos que perderam o inicio, prestem atenção agora, talvez entendam alguma coisa.

Voltando aos nossos heróis.

Sistema: Old Dragon (D20).

Personagens:

  • Elfric (nível 7): anão guerreiro. Ex-guarda de cidade que se viu forçado a encarar o mundo após sua esposa ter sido feita escrava pelos Homens-Lagartos. Tem como arma favorita uma montante.
  • Minukelsus (nível 6): humano necromante. Após ter sido curado de uma doença que o deixou repleto de cicatrizes, ele aprendeu o ofício da magia e busca itens mágicos para sua mestra. O grupo acha que ele é apenas um mago comum.
  • Trevor (nível 2): humano homem de armas. Após ter escapado do cerco a cidade de Nis, decidiu criar uma companhia de mercenários e ganhar muito dinheiro. Tem olhos dourados.
  • Arkos (nível 2): humano bárbaro. Saiu da sua tribo afim de explorar o mundo e descobrir as recompensas que ele traz. Usa o totem da tartaruga (+1 na CA).

Ouçam bem.

Os bosques de Lughdis.
Os bosques de Lughdis.

A chuva cessou, embora as nuvens de rosto cinzento continuassem ameaçando mais uma tempestade. Tomaram distância da caravana rapidamente e adentraram uma região repleta de bosques que entrecortavam a estrada. As folhas secas preenchiam o caminho, rodopiando a cada trote dos cavalos e a cada sopro de vento vindo do oeste, no litoral próximo. Os galhos secos farfalhavam segredos incompreensíveis, e pequenos pássaros procuravam abrigo da chuva vindoura. Arminhos ziguezagueavam arbustos, em busca de coelhos, e raposas permaneciam de olho em ambos.

Havia uma brisa fresca agradável, que fez os homens sorrirem. Cheirava bem, e todos se surpreenderam quando Arkos disse que era por causa dos arbustos de eucácia-grande que cresciam altos, sombreando trechos brancos e amarelos da suave grama-lírio.

– Os bosques de Lughdis são lindos. – Ysa estava encantada com o local. Pegara uma flor de cores fortes e mistas e colocou-a no cabelo. Os homens elogiaram.

– Minha tribo usava essa flor para pintar as costas e o peito antes da batalha. – Arkos estava num clima ameno que levantava a sobrancelha dos outros homens. – A chamávamos de Tinteira. Tem pigmentação forte, cuidado para não manchar o cabelo.

– Que lindo, Arkos! – ela cavalgava com Trevor, mas fez com que o arqueiro puxasse o cavalo para perto do selvagem para que pudessem conversar. – Não sabia que conhecesse tanto sobre plantas.

– Conheço. – Arkos olhou para Ysa numa tentativa de sorriso. – Minha tribo usava bastante ervas e plantas. Aprendi muita coisa.

– Por que saiu da sua tribo?

Arkos pareceu surpreso diante da pergunta, depois deu de ombros.

– Queria ganhar dinheiro. – afastou-se da ex-escrava e não falou mais nada.

Fizeram uma fogueira ao anoitecer, longe da estrada. Turil cozinhou uma sopa de lentilhas e comeram com carne seca. Elfric e Minukelsus comeram com os Águias e o anão tentou se enturmar com Oteu e Ozill, mas não teve muito sucesso. Machadinha contava piadas que todos já haviam ouvido, e apenas Arkos gargalhava.

– O que lhe falta em dentes, você tem em graça, garoto. – o selvagem dava tapas nas costas de Machadinha, rindo.

– Como assim? – o rapaz pareceu não entender. Todos na roda, menos Arkos, ficaram desconfortáveis.

Depois do descanso, Trevor aborreceu a todos com uma palestra sobre paredes de escudo, suas fraquezas e suas vantagens. Elfric olhava-o com desprezo, imaginando se o arqueiro já havia participado de alguma. Arkos estava dormindo e Trevor o acordou para um exercício. Os homens teriam que empurrar uns aos outros, simulando um choque de uma parede de escudos.

Oteu e Arkos foram os primeiros. O selvagem tinha que ficar parado e receber a carga do anão. Oteu tinha sotaque engraçado e voz fina, de modo que quando ele gritou enquanto corria, Arkos não se segurou e riu tanto que as pernas ficaram trêmulas e foi derrubado. Os homens desabaram em gargalhadas também.

Terminaram os exercícios da noite e foram dormir. Partiram ao amanhecer.

fantasy landscapeHavia um débil corpo de luz que atirava lanças luminosas sobre o bosque, projetando sombras a partir das árvores e dos arbustos. A manhã cheirava bem. Machadinha caçou duas lebres antes de partirem, enquanto os homens esperavam pacientemente Minukelsus terminar sua leitura concentrada em seu grimório, e estava tentando retirar o couro delas enquanto Turil comandava o cavalo, e os homens reclamavam do serviço sujo feito atabalhoadamente.

Quase ao meio dia, encontraram uma tropa na fronteira com Napes. Ali a tropa havia improvisado uma guarnição e a fumaça das várias fogueiras no acampamento rodopiavam tentando alcançar as nuvens.

– Devem haver quase trezentos homens aqui. – comentou Trevor.

Aproximaram-se do acampamento, onde foram parados e questionados por um sujeito bem vestido com peles, mas com uma cota de malha por baixo.

– Quem são vocês? – perguntou amigavelmente o sujeito.

– Eu sou Trevor Olho-de-Águia, e estes são os Águias Negras. – apresentou, o arqueiro. – Somos mercenários.

– Olho-de-Águia? – perguntou o homem e Trevor assentiu. Deu de ombros e continuou. – Ouvi dizer que há uma caravana do Círculo vindo, e que estão causando problemas. Ouviram ou viram algo?

– Não, senhor. Não vimos nada.

O homem olhou para os Águias agrupados, não reconheceu Minukelsus e Elfric, que estavam com a cabeça baixa atrás da formação.

– Oísin está na caravana? Ouviu algo assim?

– Não sei de nada. Estamos vindo após um trabalho de uma semana de escolta nas Pernas da Donzela, não escutamos muitas notícias, senhor. – mentiu Trevor.

– Tudo bem, então passem. – inspecionou mais um pouco o grupo e ordenou abrir passagem para passarem. – E façam boa viagem!

Arkos.
Arkos.

Ninguém havia reconhecido Elfric e Minukelsus, e todos estavam aliviados por isso. Era de conhecimento de todos que ambos são amigos de Oísin, e que estariam viajando com ele desde a queda de Nis. Atravessaram o acampamento e em poucos minutos estavam em terras napii.

Cavalgaram mais duas horas por bosques floridos, aromáticos e cheios de vida até chegarem a cidade de Lorch, localizada entre um bosque bastante fechado e uma montanha. As árvores rareavam, os animais já não estavam mais ali, e tudo que podiam ver era um portão fechado.

As muralhas eram baixas, com cerca de três metros de altura, e eram feitas com alvenaria, com remendos de taipa em regiões derrubadas. O parapeito de alvenaria mantinha-se no topo, com exceção em certas partes em que desabou e não fora reparado. As ameias eram de madeira ou de alvenaria, e muito estreitas.

Tudo estava calmo e silencioso naquela tarde. O vento tomava fôlego por alguns segundos até soprar, arrastando as folhas. O sol erguia-se frágil, lutando debilmente contra as nuvens ameaçadoramente escuras. Apenas as folhas denunciavam que o mundo não havia paralisado.

– Está tudo muito quieto. – observou Arkos.

– Tem alguém ai? – gritou Elfric. – Abram os portões!

Nada além do vento se manifestou. Gritaram um pouco mais até ouvirem passos apressados nos adarves da muralha, viram um homem acima do parapeito, espiando para baixo.

– Vocês querem entrar? – gritou muito alto o homem.

– Claro que queremos. – disse Elfric. – Por que está tudo tão calmo?

– Não é nada. A guarda saiu por um momento. – falava demasiadamente alto. – Vou abrir os portões para vocês!

– Ótimo, que faça logo. – Elfric resmungou. O homem permaneceu parado ali, olhando para trás. – O que está esperando?

– Estão vindo, e não tenho muito tempo. – agora o homem parecia desesperado. – Os Homens-Lagartos mataram todos os guerreiros e escravizaram as mulheres e as crianças. Vivem aqui agora, abrindo os portões e capturando viajantes. – olhou para trás mais uma vez. – Não entrem! Vão pelas montanhas ou pelo bosque, mas cuidado, há Homens-Lagartos por toda parte! – começou a percorrer os adarves enquanto falava alto. – Vou abrir, é rápido!

Os viajantes ficaram sem entender por um momento, então voltaram a realidade.

– Não precisa! – gritou muito alto Trevor. – Só queríamos comprar na cidade!

– Aqui há muitas coisas para comprar. – gritou de volta o homem. – Tem certeza?

– Absoluta.

1416765545356A direita da cidade haviam as montanhas, que faziam fronteira com o território do reino de Tyann, que fora completamente dominado pelos Homens-Lagartos há dois anos. Tinham certeza que eles haviam invadido Lorch a partir dali, pois o paredão de rochas faz divisa com o muro leste, facilitando o acesso. Então preferiram rodear a cidade pelo bosque a esquerda.

Andavam cautelosos, com Machadinha como batedor à pé e à frente. O rapaz era bom em mover-se nas sombras, e magro como era, escondia-se muito bem.

– Homens-Lagartos! – Elfric cuspiu em desprezo. – Eis uma raça pior que os… – fez um movimento com o dedo no topo da orelha para Minukelsus. Significava elfo.

– Eles são perigosos. Bons combatentes. – Minukelsus já enfrentara alguns deles, inclusive magos. Os arcanos não eram tão bons assim, mas os guerreiros lutavam como demônios.

– São indisciplinados, não têm técnica e nem boas armas e armaduras. – Trevor escutara a conversa e aproximou seu cavalo. Ysa estava com ele. – São só um bando de selvagens.

– Arkos é um selvagem. – Ysa indicou o bárbaro com o dedo, que olhava feio para eles.

– É, mas ele é um humano. – o arqueiro deu uma piscada para Arkos, que retribuiu com um grunhido. – Luta bem.

– Você já enfrentou algum Homem-Lagarto, Olho-de-Águia? – o apelido saiu azedo e zombeteiro da boca do anão.

– Não. – disse Trevor, em tom ressentido.

– Eu já. Até já castrei um! – Elfric riu disso, mas apenas para não ficar preocupado. Torturara um Homem-Lagarto meses antes, que por acaso era filho de algum líder tribal cujo nome nunca ouvira falar, e o desgraçado havia escapado e jurado vingança.

– Eu nunca havia ouvido falar de Homens-Lagartos até chegar a Voltura. São como os Grotons de Sarthal? – era Ysa quem perguntava.

lizardman_deathknight_by_cribs-d5zxv9k– Os Grotons não têm nada a ver com isso. – Minukelsus respondia. – Ambos são escamosos, mas os Homens-Lagartos não respiram embaixo d’água. – deu um tremelique nas mãos e ficou sombrio. – surgiram do nada, quando uma estrela caiu do céu nos pântanos de Voltura. Até então eram irracionais, caçavam animais, andavam com quatro patas no chão e desconheciam a magia e a linguagem. Em cerca de cinco anos eles evoluíram rapidamente. – deu um tapinha na coxa e na outra mão. – Passaram a andar como nós, usar armas, se comunicar com um idioma próprio, construir, usar magia e recentemente aprenderam a velejar! – olhou para os lados, com os olhos saltados, assustado. – Eu e Elfric já vimos eles voando com grifos! – parecia assustado e fascinado ao mesmo tempo. – Com grifos!

– Montando grifos? Você está mentindo. – Trevor olhava para o mago com estranheza. Ysa estava atrás dele, entretida.

– Eu juro! Elfric, não é verdade?

– É sim, Olho-de-Águia. – deu um risinho. – E matamos todos eles.

Os Homens-Lagartos era um assunto em rodas de conversa já haviam sete anos. Escalaram sua tribo rapidamente até conquistar o reino de Tyann, e depois dividiram-se em diversas outras tribos. Esse reino fazia fronteira com os pântanos de Volutii e sobrevivia principalmente da comercialização de escravos, o que calhou bem aos Homens-Lagartos que resolveram financiar sua guerra como escravagistas e com um empréstimo de um agiota que reside na Ilha do Tridente, próxima à Tyann.

Assim que Tyann foi tomada, um conselho fora formado em Voltura, e representantes de todos os reinos do continente compareceram à reunião chamada de O Voto de Lugh. Nessa reunião, os reis concordaram e assinaram tratados que evitavam a cooperação contra os Homens-Lagartos, seja em vendas de materiais ou compra dos escravos capturados por eles. Claramente, o agiota da Ilha do Tridente ignorava esse tratado, e nenhum rei e reino possuía coragem para confronta-lo. Os escravos também eram vendidos no Outro Mundo, um conjunto de terras desoladas e sem lei onde moram ladrões, necromantes e todo tipo de escória.

Spanish_Palisade_Fort– Devem haver no máximo cinquenta deles. – Machadinha retornou com más notícias. – Construíram uma paliçada com duas torres vigia. Contei onze deles patrulhando à direita da fortificação, próximo da cidade. Seis patrulhavam à esquerda, entre o bosque e o litoral. Dois em cada torre vigia e quatro retornavam com comida.

– Chegou a ver algo dentro da paliçada? – perguntou Trevor.

– Não muito, senhor. – Machadinha sorriu. – Havia movimentação e fogueiras acesas. Devem estar preparando a refeição da noite.

– Eles comem carne crua. – observou Minukelsus.

– Então eles tem frio? – Machadinha deu de ombros, como que em resposta a sua própria pergunta.

– Vamos matar todos eles. – rosnou Arkos.

– São muitos. – Trevor coçava a barba. – Teremos perdas, e não quero isso. A paliçada é grande para suportar cinquenta homens, Machadinha?

– Grande o suficiente para suportar mais.

– O mago joga fogo na paliçada e ficamos do lado de fora para estripar os que pulam por cima dela. – o selvagem insistia em atacar, e pensava rápido quando tratava-se de batalhas.

– É uma boa ideia. – concordou Minukelsus.

– Não temos homens suficientes para cercar uma paliçada grande assim. – Elfric que falou. – Vão pular do outro lado e nos atacar dando a volta na fortificação.

– E se demorarmos lutando, os Homens-Lagartos que estão em Lorch virão em reforço. – concordou o arqueiro, olhando para a fumaça das fogueiras no horizonte.

– Poderíamos atraí-los com um incêndio. – disse o mago. – No bosque, à direita da fortificação. Depois cavalgaríamos em segurança pelo litoral à esquerda.

– Seria fácil passar pelos seis que patrulham ali sem que eles chamem por reforços, já que estarão olhando para um grande incêndio. – o arqueiro sorriu, concordando com a ideia.

– Alguém tem óleo? – questionou Arkos.

– Não será preciso. – o mago cadavérico apontou para o chão. – Há muitas folhas secas. Uma bola de fogo e será o suficiente.

Esperaram o sol desaparecer e observaram a lua minguando por trás das nuvens. Minukelsus, Machadinha e Turil esgueiraram-se até um local à direita da paliçada, fora da vista das sentinelas. Menos Homens-Lagartos vigiavam o bosque de noite, mas eram suficientes para avistar qualquer um que quisesse atravessa-lo.

O mago se concentrou, e chamas envolveram sua mão direita, em forma de uma esfera que disparou rapidamente e acertou a parte mais baixa do tronco de uma árvore, espalhando chamas em anéis. O ponto luminoso surgiu na floresta, o fogo consumia avidamente as árvores e folhas secas, cuspindo fumaça e estalando. Uma intensa onda de calor percorria o bosque, e as sentinelas começaram a gritar em aviso. Uma trompa soou e a paliçada agitou-se ante a visão das chamas. Os três inflamadores retornaram aos Águias, que estavam prontos para partir pelo litoral.

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Não foi difícil escapar dali. Era noite, e havia um incêndio que ameaçava a fortificação dos Homens-Lagartos, portanto, haviam apenas três deles no litoral, e estavam distantes.

Cavalgaram pela planície costeira e por um barranco de solo onduloso, erguendo-se acima do mar. Dali podiam ver os fogos das tochas e fogueiras da Boca do Ogro, uma ilha ao noroeste de Nayan, pertencente ao Círculo. Um enorme templo estava sendo construído com o dinheiro arrecadado dos fiéis e dos nobres desejosos pelo favor dos deuses. Haviam outros nobres que eram mais desejosos pelo favor de Oísin, e que contribuíam com muito mais afinco. O poder político que o Círculo angariou nos últimos quatro anos fora espantoso, e sem dúvida o surgimento dos Homens-Lagartos, alardeado por Oísin há muito tempo, contribuiu para isso.

Pararam apenas horas após, e ainda era possível ver a fumaça e o brilho das chamas distantes atrás deles. Iriam dormir longe da estrada pois temiam que houvessem Homens-Lagartos procurando por eles. Acomodaram-se numa parte aberta da planície costeira, sentindo a brisa do mar, ouvindo as ondas chocando-se contra as pedras abaixo. Fazia muito frio, mas Trevor não quis fazer fogueiras para não denunciar sua localização. Aqueceram-se com trapos velhos, conversa alegre e um pouco de vinho que Oteu levava num odre.

A Boca do Ogro.
A Boca do Ogro.

Elfric se afastou da roda e caminhou em direção a margem do barranco para observar o mar. Estava com um cachimbo e fumo nas mãos e lamentava a falta de fogo. Fumava muito quando estava nervoso e, meses antes, enquanto ele achava que Sarah estava perdida no Outro Mundo, competia com fogueiras para ver quem fumegava mais intensamente. Pensou se ela estaria bem, e confortou-se imaginando que Ulfric não maltrataria um refém a ser resgatado com ouro. Principalmente com aquela quantia.

Sabia pouco sobre Ulfric, o dourado. Sabia que era uma víbora traiçoeira cuja honra estava à venda assim como seus serviços de mercenário. Mas isso confortava-o. Um homem como Ulfric dança de acordo com o tilintar das moedas, e assim ele não faria mal algum a Sarah.

Em volta do local onde estava, à margem do barranco, Elfric identificou pequenos calombos na terra coberta de grama, espalhados sem um padrão aparente. Pensou por um momento que seriam covas, mas então lembrou do que se tratava.

– Temos que nos afastar daqui! – gritou para o grupo de homens rindo. – Há buracos com ovos de Besouro-Fogo.

– Ovos de Besouro-Fogo? – ecoou Turil. – Isso vale prata! Deixe-me ver. – Levantou-se e atrás dele os homens seguiram.

– Não façam isso! – Minukelsus alertou. – Deve haver alguma fêmea por perto e machos para proteger os ovos. – mas era tarde demais. Os homens chutavam a terra que cobria buracos onde os ovos descansavam. Ele tentou apelar para Trevor, mas o arqueiro deu de ombros e começou a coletar os ovos.

Besouro-Fogo.
Besouro-Fogo.

Cada ovo possuía o tamanho da mão de um homem e possuíam casca branca com pigmentação rubra. Em um buraco havia três dedos de água que mantinham ovos com manchas azuis úmidos. Elfric também pegou alguns ovos e Minukelsus cedeu à imprudência guardando outros para si.

Atrás deles, um barulho de escavar tomava forma, arremessando terra para os lados. Apenas Turil percebeu e gritou quando olhou para trás. Eram vários Besouros-Fogo batendo asas, emergindo de uma enorme passagem cavada no chão. Eram enormes, chegando aos joelhos de um homem alto como Arkos. Uma carapaça negra com manchas vermelhas, as vezes confundida com o formato de uma labareda, refletia o luar e marcava uma barreira de grande resistência contra lâminas e pontas. Da boca erguiam-se duas grandes mandíbulas que mais assemelhavam-se a chifres negros e afiados.

Alguns largavam os ovos e outros guardava-os antes de desembainharem as armas. Ysa correu pro lado oposto de onde os insetos surgiam. Os besouros voavam em círculos acima deles e desciam com voracidade, mordendo em investidas e apertando intensamente as poderosas mandíbulas. Um homem foi jogado ao chão por uma dessas investidas e outros dois convergiram em apoio, estocando e cortando a carapaça sem muito êxito.

Mais um grupo de Besouros-Fogo chegaram voando de algum lugar, em os homens viram-se cercados. Trevor estava encordoando o arco enquanto Elfric partia a carapaça de um besouro com sua poderosa montante. Arkos rodopiou entre dois besouros e enfiou sua espada boca adentro de um deles, puxou a arma, chutou a criatura e rasgou sua barriga mole. A maioria golpeava inutilmente a carapaça enquanto Turil gritava que eram uns cagalhões imprestáveis, que deveriam acertar a boca ou a barriga deles. Um chiado alto fizera-os parar.

giant_centipede___gyromancer_by_kunkka-d3e96g7Do buraco próximo surgia uma criatura longa como uma centopeia, mas com o dobro do tamanho dos Besouros-Fogo. Não possuía asas, mas havia uma bocarra em suas costas, com dentes brilhando negros, assim como sua carapaça. As mandíbulas tinham o dobro do tamanho e convidavam à morte. Era a rainha e, enquanto emergia do buraco, tomou para si uma coloração azul e amarelo, a mesma cor dos Besouros-Cera. Cuspiu em jatos altos uma cera marrom que cobriu a maioria dos homens e endureceu logo em seguida. Com a movimentação limitada devido a cera, os homens viraram alvos fáceis para os Besouros-Fogo que mordiam e derrubavam. Arkos usou de sua força para quebrar a cera, assim como Elfric e Minukelsus, e agora partiam a casca dura que revestia os pés e mantinha-os presos. Trevor apenas partiu a casca que envolvia o tronco e os braços, e atirou com seu arco, observando após o disparo uma flecha se estilhaçar inutilmente em um besouro.

– Olho de Águia, faça alguma coisa útil! – zombou Elfric enquanto se libertava.

Totalmente fora do buraco, a rainha avançava lentamente e preparava mais uma cusparada quando Minukelsus a congelou. Ele utilizou um cajado mágico, feito à partir de um demônio do inverno morto por ele e por Elfric. O cajado impelia uma densa nuvem de gelo, tão fria que queimava a pele e congelava as articulações. O enorme monstro ficou coberto pela grossa camada de gelo, e impossibilitado de avançar. A camada derreteu rapidamente quando o mago arremessou uma bola de fogo que explodiu em chamas saltitantes na dura carapaça.

Agora o monstro tomava uma coloração avermelhada e cuspiu da bocarra de sua carapaça pequenas bolas flamejantes que voaram iluminando uma arena de batalha abaixo e caíram dolorosamente na pele, roupas ou armaduras. Alguns homens com a roupa ou cabelos engordurados começaram a pegar fogo e correram, rolaram e gritaram em desespero.

Arkos repetia um trabalho meticuloso, chutando e rasgando barrigas de besouros, enquanto Elfric girava sua espada para pegar os insetos que mergulhavam para morder o selvagem. Turil abaixou e estocou com sua lança para cima, empalando um inseto. Machadinha saltava por cima de carapaças, golpeando e mantendo-se sempre em movimento.

Outra flecha voou e passou longe dos insetos. Elfric ria enquanto estilhaçava carapaças. Minukelsus utilizou seu cajado mágico pela última vez e o sopro congelante manteve a rainha completamente congelada e imóvel.

Acabaram com o restante dos besouros com facilidade após a morte da rainha. Elfric e Arkos correram até ela para quebrarem partes da carapaça e, com isso, pagarem habilidosos armeiros para fazerem escudos e adagas.

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– A partir de hoje eu vou te chamar de Trevor Olho-de-Toupeira! – ria o anão enquanto Trevor arrancava um pedaço dos chifres da rainha para si.

– Eu estava limitado pela cera.

– Olho de Toupeira! – repetiu o anão, alegre.

Os homens saquearam tudo o que podiam. Arrancaram chifres, pedaços da carapaça, cera da rainha e os ovos. Afastaram-se à cavalo dali por alguns minutos até encontrarem um local seguro para descansar. Dormiram e na manhã seguinte partiram rumo a Nayan.

Voltura


E este foi o fim da segunda sessão de RPG envolvendo os Águias Negras. Para conferir a primeira parte, clique aqui.

820x466_4523_D_D_Player_s_Strategy_Guide_Getting_Into_Character_2d_fantasy_illustration_boy_role_playing_dungeons_and_dragons_miniature_dice_picture_imaFoi uma partida divertida e bem corrida. Aconteceram muitas coisas, mas todas tiveram seu devido tempo. O grupo agiu bem e tiveram boas ideias tanto fora quanto dentro de combate.

Essa segunda parte correu quase que completamente no improviso. A cidade capturada, os besouros e a rainha. Felizmente, tudo correu bem. Aproveitei o fato de Lorch ser alvo constante para invasões para introduzir os Homens-Lagartos aos Águias Negras e o fato das planícies de Voltura serem repletas de Besouros-Fogo para adicionar um combate à sessão. Aliás, tanto a rainha quanto os tais Besouro-Cera não existem no manual do Old Dragon, e são monstros que eu criei. Abaixo das observações, segue a ficha de monstro que fiz deles.

Outras observações:

– As aulas de Trevor foram realmente muito tediosas. As aulas ficam fora da mesa, pessoal.

– Arkos realmente queria tocar fogo em toda floresta e matar os homens-lagartos. Seria uma boa morte em combate.

– Trevor Olho-de-Toupeira. Só em RPG o cara que se apresenta como Olho-de-Águia erra todas devido ao d20 azarado.

Fichas dos monstros:

Besouro-Cera:

 (Grande e Neutro Subterrâneos)

Encontros: 1d4 covil 1d8

Prêmios: nenhum 55 XP

Movimento: 6m

Moral: 7

FOR 10          CON 12          SAB 10

DES 14          INT 0          CAR   7

CA 13

JP 16

DV 2+2 (12/20)

# Ataques:

  • 1 mordida (2d4)
  • 1 investida +2 (1d6)

 Esse besouro é uma variação aquática do Besouro de Fogo. Vivem em cavernas úmidas ou tocas fundas próximas a veios de rios em planícies e bosques. Sua carapaça tem um tom azul manchada com amarelo e, diferente de seu parente, ela é menos resistente. O Besouro-Cera pode voar e se manter no ar por vários turnos com seu deslocamento básico dobrado.

Sua carapaça pode ser vendida por 15 PP. A cera pode ser derretida e passar por um tratamento mágico para voltar a ter o efeito petrificante e poder ser usada a partir de um pote por 15 PO.

Cera petrificante (1d6 turnos): o Besouro-Cera é capaz de cuspir uma cera marrom que endurece rapidamente em contato com qualquer coisa fora do corpo do besouro. É possível quebra-la com um teste de força +2 (lembrando que nos testes de atributo do Old Dragon, quanto menor for seu resultado, melhor) ou desviar com uma JP pela DES.

Rainha Besouro:

(Grande e Neutro Subterrâneo)

Encontros: 1 + 1d8 Besouros de fogo

Prêmios: 2.400 XP

Movimento: 4m

Moral: 12

FOR 20          CON 16          SAB 12

DES 8          INT 0          CAR 10

CA 18

JP 12

DV 10 (80/110)

RD 4

# Ataques

  • 2 mordida +6 (2d6+4)
  • 1 jato ácido +4 (1d8+2)
  • 1 bolotas de fogo +4 (2d6+2)
  • 1 bocarra +6 (2d10+4)

A rainha é a líder de uma comunidade de Besouros-Fogo/Cera. Eles trabalham para servi-la e manter seus ovos a salvo.

Possuem corpo longo, semelhante ao de uma centopeia, com a adição de uma carapaça extremamente resistente e uma mandíbula semelhante a do Besouro-Fogo. Em suas costas há uma enorme boca repleta de dentes afiados.

Vivem no subterrâneo, em cavernas largas e profundas, escavadas pelos Besouro-Fogo.

Jato ácido (1d4 turnos): a rainha é capaz de cuspir um jato ácido que causa dano regressivo nos inimigos e pode corroer suas armas e armaduras.

Adaptabilidade: a rainha pode se adaptar facilmente a certos ambientes e, com isso, ela é capaz de atacar de diferentes maneiras.

  • Cor azul: a carapaça da rainha fica com a mesma cor que a de um Besouro-Cera. Neste estado, ela pode cuspir jatos de cera petrificante.
  • Cor vermelha: a rainha adquire a carapaça de um Besouro-Fogo. Sua CA aumenta em 1 ponto e ela é capaz de cuspir pequenas bolotas de fogo da bocarra que fica em suas costas.

As mandíbulas da rainha podem ser usadas para a criação de uma adaga (1d4+2) ou uma espada curta (1d6+2). A carapaça pode ser usada para a criação de até três escudos equivalentes ao escudo de aço, porém três vezes menos pesados.

Comente, dê o seu feedback e divulgue, se possível. Até a próxima!

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