O diário de Argos Lockard #1 – Primeiro Dia

Gunslinger

Sistema: GURPS 4ª Edição – Ambientação Low Steampunk

Personagens:

– Argos Lockard (75 pontos; “Ladrão Atirador”)

– Beric Lockard (75 pontos; “Paladino”)

– Thorny (75 pontos; “Guerreiro”)

– Hundel Rauls Cody (75 pontos; “Mago”)

– Alastor Fletcher (75 pontos; “Clérigo”)


Meu nome é Argos Lockard.

E eu me sinto um idiota escrevendo aqui.

Este é o meu diário, onde escreverei coisas interessantes do meu dia. Talvez virem canções, huh?

Comprei esse diário achando que era um livro erótico ilustrado. Um Hafling me vendeu no distrito sub-transital em Newsforge. Dei as moedas antes de visualizar todo o conteúdo, então o ladrãozinho começou a correr. Apenas as primeiras páginas possuem ilustrações e um texto nada convincente. O restante está em branco.

Beric riu de mim por isso.

A capa é feita de couro e coberta com veludo púrpura. No centro, em alto relevo, há a forma de uma mulher esbelta, com coxas grossas, uma perna esticada e a outra com o joelho dobrado. Ambas as pernas bem separadas, um convite a entrada. Como eu iria imaginar que por baixo daquele conteúdo não existia mais 100 páginas de profanidades e perversões?

DIA #1:

Tudo começou neste dia.

Mas na verdade, havia começado há 8 anos.

Há dois meses eu havia chegado em Newsforge, em um barco que mal podia se manter acima das ondas tempestuosas que habitam aquela região. A cidade é enorme, mas não foi nenhum problema para mim, pois sou de um lugar igualmente grande, Capri.

Newsforge é construída no entorno de uma montanha. Eu não conheço muito sobre a história da cidade, mas sei que ela é bem antiga. A cidade é muito movimentada. Estrangeiros lotam as docas afim de desembarcar em uma nova vida, e todos eles passam pela praça da união.

A praça fica no pé da montanha. Lá acontece a maior parte dos festivais da cidade. Os desocupados também gostam de ficar por lá, bebendo água das fontes e rezando para as enormes estátuas de mármore. As crianças brincam com armas de brinquedo e espadas de madeira sob a supervisão de suas mães.

Às vezes vou até a praça conversar algumas estrangeiras ou algumas mães. Algumas vezes acabamos visitando o Cálice de Cristal para beber um vinho e depois arranjamos uma estalagem para descansar. Sabe como é, a bebida cansa. Mas quando isso não acontece, vou até o distrito sub-transital, onde sempre sou bem recebido no Deleite de Borja.

Nem só de estabelecimentos de auxílio vital é feito o distrito. O local abriga tavernas, galpões e uma estação ferroviária. Tudo embaixo da terra, fora da montanha. Em 3km de extensão, o local abriga uma variedade de pessoas de baixo nível e índole duvidosa que me faz sentir um gatinho em meio à leões. Ou em meio a víboras.

Gunslinger 2Há dois meses vivo no distrito sub-transital, medindo minhas palavras e cobrindo meus rastros, tudo para chegar até Dion, o víbora. Ele é o líder das Serpentes Gêmeas, uma guilda de ladrões que se dizem mercenários. Ninguém confia neles, mas ascenderam rapidamente.

Eu tenho quase certeza que Dion matou meu pai.

Eu o vi! Ele estava apoiado no parapeito da janela, sorrindo para mim. Então ele saltou, deixando o corpo apunhalado e ensanguentado do meu pai para trás. Estava escuro, e eu nunca vi o rosto de Dion, mas aquele homem possuía uma marca. A mesma marca que a víbora tem.

Para meu azar, momentos depois, meu irmão entrou na sala e me viu com o sangue, e a arma que retirei das costas de meu pai, nas mãos.

Beric é calmo e honrado, o orgulho da família. Sempre digo que se um dia tiver um filho – legítimo, pois não há prova alguma de que aqueles são meus – quero que eles sejam como ele. Mas naquele momento, ele perdeu a razão. Me atacou e por pouco não me matou. Disse que nem mais uma gota do seu próprio sangue iria cair naquele dia, mas que nunca me perdoaria.

E para vergonha de Beric, ele me deixou fugir.

Por 8 anos amargurei estar longe de minha mãe e de meu irmão. Amargurei a morte de meu pai. E acima de tudo, desejei a morte de Dion. Mas claro, a vida possuí sabores variados, e o amargo era suavizado com o doce e o azedo.

Me virei nas ruas, roubando, fazendo trabalhos sujos e gastando tudo o que recebia com mulheres, armas e roupas limpas. Pois é, a aparência é tudo.

E então, dois meses após ter desembarcado na cidade, decido ir ao Cálice de Cristal para beber e jogar conversa fora. Eu adoro esse local simplesmente pelo taverneiro ser chamado de “atendente” e não utilizar cuspe para limpar os copos. É limpo, elegante e bonito. Me sinto em casa.

Havia um grupo de capas vermelhas na mesa e um elfo no balcão. Sentei ao lado dele e pedi um vinho caro do leste que tem gosto de pão mofado. Odeio beber isso, mas a aparência é tudo.

– Como está a cerveja? É uma strong sulista?

O elfo pareceu despertar de um transe e olhou assustado para mim, depois se recompôs e iniciamos uma agradável conversa sobre o tempo, a cidade e as Serpentes Gêmeas.

– Ouvi dizer que eles causaram o tumulto da semana passada. Roubaram mesmo aquele cobrador de impostos? – perguntei.

– Foi o que eu ouvi. Espero que nunca cheguem perto das docas, ou terão grandes problemas.

Descobri que o elfo é alguém bem rico, que possuí galpões nas docas da cidade. De fato, ele parece alguém agraciado pela vida. Cabelos loiros longos, pele branca sem marcas, bem vestido. Estava usando uma bela túnica anil, a propósito. Seu nome completo é complicado demais para que eu me lembre dele, o chamamos de Cody.

– Um bando de víboras interesseiras. Eu estou louco pra pegar um trabalho que envolva esses desgraçados. – foi um capa vermelha que se aproximou de nós e se apresentou como Thorny.

– Se eles vandalizam tanto a cidade, por que não os pegam? – perguntei demonstrando inocência.

– Os desgraçados sempre dão um jeito de saírem ilesos. – pediu uma cerveja qualquer ao atendente enquanto coçava a barba que dava um refúgio as cicatrizes do rosto. – Vocês não querem se juntar aos rapazes?

Bebemos junto dos capas vermelhas de Yorum por algum tempo. Um outro grupo entrou no estabelecimento, os Tigres de Ferro. Thorny me disse que são mercenários locais.

Os capas vermelha provaram-se divertidos, e ouvindo histórias sobre as serpentes, os bordéis do distrito sub-transital e trabalhos mercenários, acabei exagerando na bebida.

De fato, exagerando tanto que comecei a ter alucinações.

Beric havia entrado no Cálice de Cristal junto de um homem com vestes de Mectron, o deus da guerra, e se dirigia ao balcão. Isso só poderia ser uma alucinação.

Beric– Irmão? – gritei alucinado, me levantando de supetão e quase derrubando a mesa junto.

A princípio ele apenas me encarou com aquela feição de pateta típica do meu irmão. Depois me deu um soco.

Tão previsível. Agora tinha certeza que era ele.

– Não na cara, Beric!

– Tem ideia de quanto tempo venho te procurando?

Os Tigres de Ferro começaram a rir e ditar apostas sobre quem ganharia a briga. A minha mesa apenas observava.

– Apenas para me dar um soco? – estava passando a língua nos dentes, conferindo se nenhum quebrou. Graças aos deuses, permaneceram intactos.

– Pra fazer justiça pelo… – antes que ele pudesse falar mais e fazer um vexame na frente dos meus novos amigos, mandei ele calar a boca e me seguir para fora do estabelecimento. Sob a sombra de um toldo feito de madeira, começamos a discutir.

– Você matou o papai! Como pôde, Argos? – Beric é tão certinho e comedido que até me deixa constrangido. Eu via em seu rosto a culpa por ter me dado aquele soco.

– Não fui eu, irmão. Eu juro.

– Juramentos vindo de alguém que rouba, mata e desrespeita os deuses de nada valem.

Os deuses. Ele sempre tem que mencionar os deuses.

– Foi Dion. Eu vi. – ele apenas me encarou sem entender – Ele é o líder de uma guilda de ladrões, as Serpentes Gêmeas. Dion possuí uma marca no braço, a mesmo do assassino do nosso pai. Ele escapou antes que eu pudesse pega-lo. Logo depois você quase me matou. – disse a última parte com mágoa, porém, não guardo nenhum rancor de Beric.

Meu irmão ficou olhando para além dos meus ombros, como se não quisesse me encarar. Depois fechou os olhos e rezou para Fihard, seu deus patrono. O deus Sol. Era cedo e fazia um calor de suar a alma, portanto, ele deve ter ouvido alguma resposta positiva e acreditou em mim.

– Estou em uma mesa com os capas vermelhas e um negociante local. – falei, sorrindo. – Eles são muito influentes. Posso utilizar essa amizade para obter mais informações sobre Dion.

– Vai usá-los?

Paladinos.

– Claro que não. Temos uma amizade genuína. – falei com deboche tão grande que até uma vaca perceberia.

– Bom, então. Dessa forma, quero te ajudar e ver se o que diz é realmente verdade. Ver se Dion é o assassino.

Ele acreditou no lance da amizade genuína. Beric sempre foi um ser humano exemplar, mas nunca teve tato social. Desconfio que seja virgem.

Voltamos ao Cálice e fomos recepcionados com baderna e zombaria.

– Achei que o baixinho iria derrubar a florzinha de armadura. – os Tigres de Ferro explodiam em riso.

– Por favor, perdoe minha intromissão, mas a quem o senhor chamou de florzinha? – Beric se dirigiu a mesa deles, imediatamente prendi o fôlego. Os caras iriam chama-lo de mocinha, estava óbvio.

– Olha só, até fala como uma mocinha!

Eu disse.

Beric puxou o homem pelo pescoço e o jogou no chão. O Tigre se levantou e ele era realmente um homem grande. Bem maior que Beric. Meu pobre irmão iria tomar uma surra.

– Façam suas apostas! – gritei, e o restante dos Tigres de Ferro vieram até mim, assim como os capas vermelhas.

Beric desferiu uma série de socos e pontapés desajeitados no homem, que defendeu todos eles e respondeu com um golpe no rosto. Lembro que Beric era bom com o escudo e espada, mas não se saia muito bem sem armas.

BrigaA briga continuou com braçadas e investidas. Beric empurrou o homem contra uma mesa e chutou-o, fazendo o homem rolar por cima dela. O atendente ficou desesperado e correu pra chamar os guardas. A plateia gritava, insultava e incentivava, os lutadores sangravam e cobriam seus corpos com hematomas e o anfitrião corria de um lado para o outro, sem saber o que fazer.

Então, o elfo balançou as mãos e falou algo mais estranho que seu nome, e os dois pararam e ficaram olhando um para o outro, como idiotas que eram.

– Não vale usar magia, devolve o meu dinheiro! – gritou um homem da plateia, e o restante ecoou o pedido.

Devolvi o dinheiro, os Tigres de Ferro saíram do Cálice xingando e nós ficamos. Fiquei furioso. Ali havia uma boa chance de ganhar ouro. Cada moeda era necessária pra mim naqueles dias.

– Cody, não estraga a brincadeira, seu idiota! – eu disse.

– Ele estava matando o seu irmão.

– Eu estou bem. Muito bem. – Beric cuspia sangue enquanto falava e estava com o supercílio inchado.

– Você quase quebrou a mão dele com sua cara! – Thorny riu e convidou Beric e seu amigo para a mesa. Durante a conversa, descobri que o desconhecido se chamava Alastor Fletcher e era, de fato, um servo de Mectron. Um clérigo.

O clérigo curou Beric e ficamos conversando por mais uma hora enquanto bebíamos. Beric, é claro, não parava de resmungar e reclamar sobre a minha “imundice blasfema”.

O Cálice de Cristal é um local caro e refinado, mas quando saímos de lá, parecia uma pocilga. Neste ponto, eu já estava trêbado. Deuses, se eu soubesse da dor de cabeça que estava por vir. Ainda posso lembrar dela, é como se houvesse um anão forjando uma espada dentro da minha cabeça, usando meus miolos como metal!

Bom, talvez eu tenha exagerado um pouco.

– Mas então, Fifi – não consegui completar a frase, pois um ataque de risos me atingiu.

– Fifi?! – perguntou Thorny e os outros capas vermelha, em coro.

– Seus incrédulos desrespeitadores. É Fihard, e vocês deveriam respeitar o deus sol! – Beric odiava ouvir minhas blasfêmias. A mais insuportável para ele é “Fifi”, um apelido carinhoso que inventei para Fihard. Coincidentemente, é a que mais utilizo.

Já estava anoitecendo e as ruas começaram a ficar mais vazias. Passávamos perto de uma praça com uma bela fonte e bancos de pedra usados como camas por pedintes. O clima estava agradável, eu me sentia feliz.

De um beco próximo, eles saíram.

Os Tigres de Ferro que estavam no Cálice vieram com pedaços de pau para nós dar uma surra. Oito ou dez deles. Éramos oito, mas estávamos todos bêbados, menos Beric, que não bebe.

As pessoas tinham que vê-lo bêbado. Há um demônio dentro dele, esperando para sair com algumas canecas de cerveja. Ele fica louco!

Confesso que me divirto muito com ele nesse estado.

Voltando a briga, eles correram na nossa direção e logo tratei de sacar minha pistola rapidamente e com a destreza de um Ogro maneta, consegui derrubá-la no chão. Abaixei para pegá-la e quase não consegui me levantar novamente. Mirei e acertei um deles, bem na barriga. Os outros se assustaram e começaram a puxar armas de verdade.

Alastor começou a trata-los com um carinho especial. Girou uma maça maior que minha cabeça e transformou um rosto qualquer de um dos inimigos em argila. Beric defendia com o escudo uma espada inimiga. Thorny e os outros capas vermelhas estavam subjugando os demais inimigos com grande facilidade, eles iriam tomar conta da situação sem problemas.

Cody, o elfo mago, fez o mesmo movimento que havia feito no Cálice e ordenou que nossos inimigos fossem se amar no beco. Três deles atenderam a ordem.

– Deuses, seu tarado! – disse para ele.

Resolvi ajudar meu irmão que tentava golpear um inimigo mais veloz que ele.

Eu estava tão bêbado que via três alvos, então esperei eles se tornarem um e atirei.

O tiro foi bem no Beric.

Para minha defesa, pegou de raspão, mas acha que ele se importa com isso? Até hoje reclama.

– Você atirou em mim! Você atirou em mim! – era tudo o que ele conseguia repetir enquanto me olhava furioso.

A guarda enfim chegou, alertada pelo barulho dos meus tiros. Com toda aquela cena bizarra, incluindo a do beco, eles levaram todos para a prisão.

Se tem um lugar que odeio, é a prisão. É sujo, fedido e sou obrigado a fazer minhas necessidades básicas na frente de outras pessoas. Isso é desumano. Não deveriam fazer isso nem com Goblins.

Os capas vermelhas logo foram liberados. São a guilda mercenária de maior influência da cidade, todos adoram eles.

Soube que o pervertido do Cody pagou a fiança e restou apenas eu e o Beric lá.

Tive que me despedir de algumas moedas de ouro. Malditos guardas! Ainda queriam cobrar mais pelo porte ilegal das minhas pistolas. Logo tratei de pôr os desgraçados em seus devidos lugares e mostrei o maldito documento. Se desculparam e eu saí de lá, finalmente.

Heh, mal sabem que o documento é falsificado, uma obra prima.

A aparência é tudo.


initiativeEssa é uma nova série de posts do blog, onde escreverei sobre uma campanha que estou jogando. Estamos usando o GURPS, mas somos novatos no sistema. É a primeira vez que usamos esse RPG. Devido a complexidade dele, tenho certeza que não fizemos personagens muito bons em questão de mecânicas, mas estamos nos divertindo bastante.

O mestre fez algumas modificações no sistema, como dano variável para armas. Aparentemente, as armas no GURPS tem dano fixo.

Argos é o meu personagem e tem a personalidade moldada de acordo com o arquétipo do “bom ladrão”, que é meu tipo de personagem favorito.

Até agora houveram umas 4 sessões e essa foi apenas a primeira. Em breve virá mais capítulos no diário de Argos Lockard em sua busca por vingança… e pelas boas coisas da vida.

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