O Chamado de Chernobyl #1 – O Homem Marcado

Stalker

Nesta nova série de contos, descreverei minha jornada nos arredores de Chernobyl, no jogo S.T.A.L.K.E.R.: Shadow of Chernobyl. Um excelente jogo para PC, lançado em 2007 e desde então amado por muitos que revisitam a Zona através de inúmeros mods lançados. Estou refazendo o jogo do zero, portanto, acompanharemos todos os perigos vivenciados pelo Marked One.

Infelizmente, a resolução que estou usando para rodar o jogo não é das melhores, mas é o que meu monitor atual pode proporcionar.

Mods utilizados:

Autumn Aurora 2 (Thanatos Touch) 2.1

Aproveite a jornada!

2015-01-24_00001A Zona me chama, e eu devo segui-la.

Acordei num porão escuro, mal iluminado por uma lâmpada que dava forma ás paredes de tijolos, a cama improvisada e ao chão de madeira. Meu corpo tremia e implorava pelo total repouso, mas eu tinha que sair dali. De alguma forma, eu sabia disso.

Merda, eu não sabia meu próprio nome, nem de onde vim.

Mas sabia que estava na Zona. Sabia que tinha que matar Strelok.

Conferi o que havia dentro de um pano enrolado em cima de uma mesa de madeira castigada pelo uso e descobri uma pistola, uma faca, uma bandagem, algumas balas e um notepad. Também sabia que aquilo era meu. Mas nem tudo o que me pertencia estava ali. Eu não lembro o que mais havia comigo, mas quem quer que tenha salvo minha vida, merece o que saqueou.

Subi o lance de escadas que me separavam do horror lá fora e, lentamente, minha falsa sensação de segurança era tragada pelo desalento que adejava sobre a Zona.

Um calafrio se alojou em minha espinha, e tenho a sensação que para sempre ele irá me acompanhar.

2015-01-24_00002Estava em uma vila muita antiga e devastada, feita de casas de tijolos, telhados destruídos, mato seco e cercas de madeira. Pouco dela me era revelado, pois ainda estava escuro. Não que isso fosse grande problema, pois é sempre escuro na Zona.

Dizem que os antigos reverenciavam o sol como um Deus. Aqui, as nuvens densas e cinzas são nossos deuses.

Uma fogueira acalentava três homens enquanto eles conversam e bebem vodka. Eles me olham como se eu um fosse um cadáver e, por um momento, achei que realmente poderia estar morto.

– Ei, Homem Marcado, você acordou. – há alguns segundos, esse homem estava rindo, mas me olhou com profundo ódio. Ele cuspiu, pôs uma colher do conteúdo de um enlatado que ele estava comendo na boca e continuou a falar comigo, cautelosamente. – Já lhe aviso que ninguém irá te tratar bem por aqui, afinal, você é um passageiro do “caminhão da morte”. – ele e seus colegas se entreolharam, mantendo a seriedade. – É melhor você ir falar com Sidorovich, ele vai te dizer o que fazer.

– Do que você está falando? – falei ainda confuso. Fui acometido por uma terrível dor de cabeça que chacoalhou todo o meu cérebro. Doeu, mas me fez relembrar. O raio, a estrada, o caminhão e os corpos. Estive em um acidente, mas para onde eu estava indo? Os homens me olhavam com certa apreensão. – Agora eu lembro. Você sabe para onde eu estava indo?

– Como diabos iriamos saber, Homem Marcado? – um dos homens na roda comentou. – Pelas histórias que ouvimos sobre você, poderia muito bem estar retornando ao inferno.

Percebi que seria perda de tempo falar com eles, e minha paciência era feita em pedaços pela dor lancinante em minha cabeça. Me dei conta de que ainda não havia perguntado qual era o meu nome, e nem fazia ideia do porque haviam me chamado de Homem Marcado. Decidi que o tal do Sidorovich poderia sabe-lo.

Relutantes, os homens me indicaram a direção do porão onde vivia Sidorovich. Estava afastado da vila, assim como o meu, mas era bem mais iluminado e tinha um grosso alçapão de ferro, meio enferrujado pelo tempo. Desci as escadas e o conforto do subterrâneo me acolheu mais uma vez. Era uma mera ilusão. Não há vivenda que possa te proteger da Zona. Nem mesmo uma cova.

2015-01-24_00007Encontrei um rosto gordo e corado, bem raro na Zona. Cabelos se esvaecendo e um farto bigode. Ele estava atrás de um balcão, dentro de uma gaiola de grades acessada por um portão de ferro. Atrás dele havia uma porta para uma sala, um depósito com mercadorias diversas. Sidorovich era um mercador, um comerciante dentro e fora da Zona, um portal para o mundo exterior. Ele podia arranjar de tudo, seja comida, ferramentas ou armas. Eu o conhecia antes mesmo de vê-lo pela primeira vez.

– Ah, ai está o Homem Marcado. – ele se reclinou sobre a cadeira e ajustou um pequeno ventilador que enxugava o suor do rosto. – Veja, rapaz, você não está em uma boa posição. Você teve grande sorte em sobreviver ao acidente, mas foi trazido a mim, aqui no Cordão, e terá que me pagar o favor de mantê-lo vivo. – ele enxugou o suor que gotejava do bigode e começou a teclar algumas coisas no notebook que estava sobre o balcão. Também havia uma lâmpada de mesa e um prato com alguns restos de um frango assado. – Não que sua vida valha muito, claro. Mas comida e abrigo são artigos de luxo na Zona.

– Você é Sidorovich?

– Em muita carne e poucos ossos. – ele riu enquanto continuava mexendo no notebook, depois parou para me avaliar. – Você lembra de alguma coisa?

– Lembro do acidente, mas não sei para onde estava indo, nem meu nome ou porque me chamam de “Homem Marcado”.

Ele me olhou com seriedade por um momento, depois mandou que eu olhasse sob as mangas do meu casaco. No meu antebraço estava uma tatuagem, antiga, aparentemente. Ali estava escrito: “S.T.A.L.K.E.R.”.

– Há lendas sobre homens tatuados na Zona. – me olhou muito sério. – E elas não são nada confortáveis. Lendas sobre homens perigosos, com um objetivo dado por sabe-se lá que deus ou demônio. – ele tamborilou o balcão e me deu um sorriso astuto. – O seu é matar Strelok.

Fiquei explicitamente surpreso, pois o mercador começou a rir.

– Como você sabe disso? – perguntei.

– Eu li em seu notepad. – pegou uma coxa de frango meio retalhada e mordeu, sujando as mãos e parte do rosto. – Não havia nada nele, apenas essa nota. Você apareceu após um estranho acidente de caminhão, portando essa marca e uma missão, sem lembrar de um só pedaço de sua vida passada. Isso amedronta as pessoas, Homem Marcado.

– Quem é Strelok?

– Tudo tem um preço, e o dessa informação, amigo, é um favor que você me fará. – continuou roendo os ossos da coxa de frango. – E vamos dizer que fui com sua cara, e o favor também me pagará o que gastei lhe mantendo vivo.

Estava irritado. A dor de cabeça angariava forças a cada enigma lançado por Sidorovich. O homem me manteve vivo apenas para me explorar? Mas suponho que seja um preço justo. Preciso achar e matar Strelok, e algo me diz que não conseguirei fazer isso sozinho. Concordei com o trabalho.

– Sábia decisão, Homem Marcado. – ele pôs o frango de lado e limpou as mãos na camisa. – Veja, tem um arquivo que desejo muito, e ele está com um caçador chamado Nimble. – Se recostou na cadeira e envolveu a grande barriga com ambas as mãos. – O rapaz sumiu próximo a ponte, e pouco me importa se ele esteja vivo ou morto, mas eu quero o flash drive que ele carrega.

– É uma descrição muito vaga. Que ponte?

– Ora, Homem Marcado, por ser um “S.T.A.L.K.E.R.”, imaginava que soubesse todos os caminhos da Zona. – ele ficou me olhando, esperando que eu falasse algo, mas fiquei calado. Então a impaciência tomou conta dos seus nervos. – Certo, certo, Homem Marcado. Vá falar com Wolf, o líder do acampamento local. Ele certamente saberá com mais detalhes a localização de Nimble.

Me enxotou dali com um movimento agitado com as mãos e meu coração voltou a afogar-se em lamento.

2015-01-24_00013Fui até o centro da vila, procurando por Wolf, perguntando aos rostos que repudiavam qualquer tentativa de aproximação da minha parte. Ele estava próximo a uma roda de homens em volta de uma fogueira. Era uma visão muito comum. O único momento em que risadas e conversas alegres podiam ser ouvidas, mas longe do fogo, eram abafadas pelo lamento da Zona.

– Wolf? – perguntei.

– Sim, Homem Marcado?

– Sidorovich me mandou até você. Preciso saber a localização de Nimble, para resgatá-lo.

– Sei. – ele me olhou desconfiado, depois deu de ombros. Wolf segurava um belo rifle de assalto e isso me fez tomar muito cuidado com ele. – Nimble está em um velha oficina de carros que fica ao nordeste daqui, após uma ponte com um túnel abaixo. – aos poucos a tensão de Wolf se esvaia e ele começou a falar mais. – Aquele desgraçado sortudo conseguiu enviar uma mensagem de texto pedindo socorro antes de ser pego. Ele estava com outros, mas acho que Nimble é o único sobrevivente. – voltou a me olhar com desconfiança. – O que você quer com ele?

– Sidorovich quer um item que Nimble lhe deve.

– Bom, você está com sorte, Homem Marcado. Mandei um trio de homens irem checar o local e tentar salvar Nimble, mas são 5 ou 6 bandidos. Vou enviar uma mensagem pedindo para que lhe esperem. Mais uma mão viria a calhar.

– Por que não envia outros homens, Wolf? – apontei para os homens em volta da fogueira e os outros montando guarda.

– Somos poucos, Homem Marcado. – ele mostrou a vila ao seu redor. – Essa vila é importante, é a entrada do Cordão. Há bandidos demais por ai para entregar-lhes mais um lar de posição estratégica.

Decidi partir enquanto amanhecia. A névoa que permeia todo o Cordão pela manhã ainda não havia se dissipado, portanto, devia manter os ouvidos atentos. Segui pela estrada por onde nenhum carro ou homem viajava. O sentimento de abandono era mais pesado do que qualquer crença. Na Zona, apenas as densas nuvens cinzas podem nós ver.

2015-01-24_00015Agora, esse é meu novo lar, seja lá qual tenha sido antes. Não acredito que possa ter nascido na Zona, pois por aqui, a morte pinta uma bela obra de arte. As árvores estão todas mortas, o mato é seco, tudo é cinza e sem cor, e o silêncio impera. Não há vida na Zona, e se houve um dia, foi completamente tragada da forma mais penosa possível.

Entretanto, algumas vezes, a quietude é quebrada. Ouve-se um som vindo de algum lugar próximo, talvez naqueles arbustos secos atrás de você, um barulho grave repleto de notas agudas que abala minha sanidade e me deixa irrequieto. A todo momento me pego olhando para todas as direções, com medo do desconhecido. Constantemente sinto vontade de perguntar aos homens que também exploram a Zona se eles ouvem o mesmo barulho. Mas não me atrevo. Receio descobrir que estou enlouquecendo.

Fui atraído pelos gemidos de um pobre coitado próximo a ponte. Ele foi atacado por uns cães cegos. Lhe fizeram um trabalho horrível. Infelizmente, nada pude fazer a não ser poupá-lo da dor.

Me afastei pensando na facilidade com que fiz isso. Foi tudo muito fácil e intuitivo, como a resolução de uma questão matemática quando você já sabe a resposta.

Aponte, dispare. Foi para o bem dele.

A ponte fica acima de um túnel, portanto, passei sob ela, percorrendo o chão feito de cimento rachado, exalando algum odor inebriante, porém familiar.

2015-01-25_00001Logo encontro os homens de Wolf. São apenas três, e comigo, quatro. Eles estavam observando há algum tempo o local e me dizem que os bandidos devem estar em cinco. Não será uma batalha injusta, pensei.

Enquanto nos aproximávamos, pude ver a ruína que era aquele local. Possuía uma cerca de madeira meio de pé e com grandes espaços quebrados. A cerca protegia – e é muita bondade minha utilizar esse termo – três construções, entre elas duas grandes, mas todas com grandes rombos em suas estruturas de tijolos.

Avancei pela direita, onde havia um pequeno galpão, quando um disparo ricocheteou em uma carcaça de um caminhão velho atrás de mim. Os bandidos haviam nos visto e agora disparavam alucinadamente contra nos. Eu não conseguia vê-los, tudo que pude fazer foi permanecer abaixado. Imaginei que ficaria nervoso, que tremeria, que fugiria em pavor, mas nada disso ocorreu.

2015-01-25_00004Entrei pelo cercado quebrado e dei a volta no galpão até achar um buraco na parede dele, por onde eu entrei. O teto estava parcialmente desabado, com enormes vigas de madeira caídas. Encontrei dois bandidos disparando contra meus aliados e os matei pelas costas. Dois tiros em cada um, de forma covarde, mas de outro modo, eu poderia estar morto.

Meus aliados avançaram enquanto o inimigo recarregava, e eu fui pelo pátio entre as três construções. De trás de um caminhão velho, um bandido esticou o corpo e os braços desengonçados e disparou contra mim, me atingindo de raspão. Corri para trás de uma pilha de pneus velhos e ficamos um virado para o outro, disparando. Minha proteção ficava próxima a porta da segunda maior construção dessa oficina, uma casa de primeiro andar. Enquanto estava distraído, um outro inimigo veio por cima, pela varanda da casa para me por abaixo do chão, mas felizmente uma bala amiga encontrou o peito dele.

Minha batalha continuava enquanto meus aliados enfrentavam mais dois bandidos. Haviam mais do que cinco dos desgraçados. Meu rival atirava com uma escopeta de cano serrado, uma verdadeira antiguidade, porém muito encontrada na Zona. Minhas balas haviam acabado, e achei que o desespero me sobrepujaria, mas novamente, nada houve.

Meu inimigo particular deveria estar muito nervoso, pois enquanto recarregava, deixou um dos cartuchos caírem no chão. Agora eu estava pulando por cima dos pneus e investindo em sua direção. Ele pegou o cartucho e nem se deu ao trabalho de recarregar, deu outro tiro. Saltei em direção à frente do caminhão, tomando outro tiro de raspão. Ele estava atrás do caminhão e eu na frente. Estávamos separados por alguns metros de lataria enferrujada, e ele estava se esgueirando pela lateral do veículo para explodir meu peito e garantir mais um dia de sobrevivência.

Sorte que ele estava nervoso. Pude ouvir claramente sua aproximação enquanto ele ofegava. Deve-se ter sangue frio na Zona, ou ela te devorará.

Saltei quando ele estava perto, com minha faca em mãos, em uma investida desajeitada que levantou muita poeira quando caímos no chão. A arma foi empurrada para longe, enquanto eu tentava perfura-lo, mas o desgraçado era muito forte. Ele me jogou para o lado, causando um estrondo quando minhas costas se chocaram contra a lataria. Então começou a engatinhar até a arma. Ignorei o que pude da dor que estava sentindo e pulei em cima dele enquanto ele agarrava a escopeta. Precisei dar 8 facadas antes que ele soltasse a arma.

Dizem que o ser humano torna-se formidável em situações extremas, onde é preciso fazer de tudo para sobreviver. Esse homem foi até seu limite, e mesmo quando já condenado, simplesmente não queria largar o esguio fio da vida que possuía. Eu cortei o maldito fio e simplesmente desabei em cima da poça de sangue que criei.

Reuni forças e me levantei, mas descobri que a luta havia acabado com a nossa vitória, e sem nenhuma baixa aliada.

Encontrei Nimble dentro da casa, amarrado e com uma coleção de hematomas consideravelmente grandes. O sortudo só sobreviveu pois escondeu muito bem o flashdrive e se recusava a dizer aos bandidos onde isso estava. Ele teve que esconder consigo, em um local nada agradável, mas me entregou e agradeceu por tê-lo libertado.

2015-01-25_00007Voltaríamos à vila no início do Cordão juntos, e enquanto atravessávamos a decadente oficina, observei uma fogueira recém acesa dentro do galpão e dois dos homens que me ajudaram sentados ao lado, conversando. Ao redor, estavam os corpos dos dois homens que matei. Eles sequer se incomodavam em beber e rir ao lado dos mortos.

A morte era cotidiana e não havia porque se importar com ela.

Mas assim é a vida na Zona.

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