Demolidor à Millernesa – Resenha Daredevil 1ª Temporada

Daredevil

Há 7 anos, a Marvel Studios estabelecia o início de seu império cinematográfico com “Homem de Ferro”, trazendo um filme consistente, com boas atuações, fiel aos quadrinhos e, principalmente, divertido. Robert Downey Jr e Jon Favreau abriram portas para novos filmes, quase todos eles com uma mesma fórmula, que continua a ser muito bem recebida pelo público até hoje, por sinal. Com a expansão do universo Marvel para séries de TV, a mesma fórmula foi utilizada em “Agents of S.H.I.E.L.D”, porém de forma muito preguiçosa, muito limitada por se tratar de uma programação para a TV.

Em contraposição a “Agents of S.H.I.E.L.D”, surge Daredevil, a série sobre o Demolidor, encomendada pela Marvel e feita pela Netflix. E que contrariedade.

Daredevil começa com Jack Murdock, pai de Matt Murdock, desesperado em meio a uma acidente de trânsito, procurando por seu filho que fora atingido por alguns produtos químicos nos olhos e por isso perdeu a visão, mas em compensação, ganhou sentidos super-humanos. No futuro, Matt tornara-se o Demolidor, um herói urbano, limitado à Hell’s Kitchen, porém protegendo toda Nova York a partir do bairro.

Jack e MattA primeira temporada da série conta com 13 episódios, nos quais a Netflix foi bastante inteligente por não nos empurrar a origem do herói goela abaixo em apenas um episódio. Ela simplesmente vai surgindo diante de Matt, que a revive em seus momentos mais difíceis, distribuindo a conta-gotas informações relevantes ao público sem causa-lo qualquer confusão.

O núcleo da série, composto por Matt Murdock (Charlie Cox), Foggy Nelson (Elden Henson), Karen Page (Deborah Ann Woll) e Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) é o maior dos acertos de Daredevil. Todos eles possuem ótimas atuações que erguem, em pequenos gestos, colunas que sustentam a personalidade daquele personagem. Charlie Cox, por exemplo, sabe transmitir com maestria o jeito de quem parece estar alheio a tudo mas ao mesmo tempo está em alerta de Matt Murdock, olhando para o nada, inclinando a cabeça para ouvir uma coisa específica ou outra, fingindo não escutar certas coisas.

Foggy

Foggy, de certa forma, foi um pouco alterado, mas pra melhor. A série o traz como um advogado malandro, porém ainda agindo dentro da lei. Alguém simpático ao extremo, que leva tudo a sério de maneira tão cômica que impossível não rir de alguns momentos de camaradagem entre ele e Matt ou até mesmo com suas tentativas falhas de conquistar Karen. Tentativas bem sutis que nunca estendem-se para o drama de friendzone melosa, ponto pra Netflix!

Karen, por sua vez, revela-se uma personagem muito mais complexa do que nos é revelado inicialmente. O que parecia apenas um rosto bonito, revela uma personalidade forte, faminta pela verdade e sem medo de expor-se ao perigo, de sua própria forma. Ao longo destes 13 episódios, ela cresce muito, tomando atitudes inesperadas para o público, surpreendendo e mostrando sua inteligência. Muitos desses momentos acontecem junto de Ben Urich, que revela-se um mentor para Karen.

Fisk

O destaque fica para o Rei do Crime, que por sinal, ainda não é Rei. Wilson Fisk é um dos personagens mais densos e complexos da série, e não só pelo seu passado, a atuação de Vincent D’Onofrio traz pequenos trejeitos que fazem o personagem roubar a cena. Wilson tem as feições de quem está prestes a explodir em fúria, porém deve se controlar. Isso e sua educação excessiva para com as pessoas revela aos poucos uma mente doente, que acredita piamente em sua própria ilusão, porém, aos poucos, está se libertando dela.

Os personagens secundários são muito bem explorados também. A série faz questão de dá-los algum tempo de tela para mostrar um pouco de seu temperamento e opiniões, afim de dar-lhes dicas sobre o que farão. Até mesmo personagens menores como os irmãos russos, Wesley e Lesland Owsley tornam-se queridos para o espectador.

Daredevil 2

A série se passa algum tempo após a Batalha de Nova York, retratada no filme dos Vingadores. Hell’s Kitchen sofreu bastante com a batalha travada pelos maiores heróis da Terra e agora tenta se reerguer, com o auxílio de uma empreiteira chamada Union Allied, que naturalmente é controlada por Wilson Fisk. Para concluir seu sonho, sua ilusão de tornar a cidade um lugar melhor, Wilson conta com a ajuda da máfia russa, chinesa e japonesa, que torna apropriado o nome “Cozinha do Inferno” dado ao bairro. Negócios de tráfico de entorpecentes, escravas brancas e assassinatos são realizados cotidianamente no submundo do bairro, tudo isso à vista grossa da polícia, devidamente colocada na folha de pagamento de Fisk. Isto é refletido na incrível abertura da série, com prédios e outras construções sangrando, construídos a partir desse sangue. Hell’s Kitchen sangra, Nova York sangra. Matt surge como o homem mascarado, o justiceiro vigilante destinado a pôr fim neste império do crime de seu próprio modo, com muitas acrobacias, socos e pontapés.

Demolidor traz cenas de lutas incríveis, não só para um canal de TV, mas comparáveis até mesmo com o cinema. É um estilo cru, realista, que conta com poucas firulas marciais, mas com muitos golpes certeiros que lhe farão franzir a testa, compartilhando da dor causada ou sofrida pelo herói. Fraturas expostas, cortes, execuções a tiros, enforcamentos e até decapitações fazem parte da série, um tom adulto e violento que a envolve, mas sem forçar demais. No ponto certo. Nisto, ela lembra bastante as histórias de Frank Miller, talvez as melhores e mais famosas edições do herói.

Frank Miller escreveu passagens marcantes do Demolidor, demonstrando a violência do submundo de Nova York, a força cerebral que é o Rei do Crime, os machucados que o herói sofre, o questionamento de sua fé católica. Tudo isso é retratado de forma espetacular pela série da Netflix. Esse clima sujo e hemorrágico combina bastante com John Romita Jr. Ao ver os ferimentos sofridos, é impossível não pensar no romitinha e suas maravilhosas ilustrações de hematomas, fraturas e ferimentos. São os quadrinhos na tela da TV.

Daredevil 3

Chega a ser covardia comparar Daredevil com séries como Arrow, Gotham e Flash, feitas por um canal de TV cheio de limitações e para um público mais jovem.

Aos poucos, Daredevil revela que não se trata de uma série sobre um maluco mascarado descendo a porrada em alguns bandidos, e sim sobre um personagem de histórias em quadrinhos. Toda aquela realidade crua e nua dos primeiros episódios começa a ser pintalgada por elementos fantásticos, que trazem mistérios sobre a verdadeira identidade de alguns personagens, organizações de propósitos sombrios e o que diabos é Black Sky? Todas as questões trazidas pelo final da temporada dão o tom para a próxima, que já foi confirmada pela Netflix. Poderemos ver uma série com elementos muito mais fantásticos em breve.

Foggy e matt

Infelizmente, Daredevil conta com alguns problemas de ritmo durante a metade da temporada. Algumas coisas arrastam-se excessivamente, como a guerra com os russos, o núcleo da Elena Cardenas e outras começam a simplesmente acontecer rápido demais, como tudo aconteceu no último episódio. Este, aliás, não teve uma conclusão muito satisfatória, me pareceu um final muito fácil para todas as artimanhas que o Rei do Crime possuía ao seu alcance.

Entretanto, Daredevil conta com inúmeros acertos, inclusive no que tange ao o tom que a Marvel deseja para suas próximas séries urbanas, como Jessica Jones e Luke Cage e Iron Fist, o que me deixa muitíssimo empolgado para vê-las. Essa nova empreitada na TV só traz coisas boas aos fãs e aos que não conhecem bem os quadrinhos. Mesmo estes estão empolgados após assistirem a série da Netflix e constatarem que não é só de piadinhas e de Robert Downey Jr que consiste o universo Marvel. É uma série recomendadíssima, tanto para os amantes das HQs quanto para os amantes de uma boa porradaria.


Seu feedback é importantíssimo para o Carisma Zero, comente e acompanhe o blog através da página do facebook para conferir conteúdos e textos exclusivos. Até a próxima!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s