Páginas de Voltura #03 – Morte Rubra

Vamos lá, aproximem-se, eu não mordo. Vou contar uma história, que aconteceu há muito tempo, durante uma era em que os Deuses e os homens digladiavam-se pelo poder sobre Voltura. Sobre esta terra fértil e bela, porém destrutiva quando ameaçada.

Compondo a história de Voltura, certos nomes são referenciados frequentemente nos livros e nas fábulas contadas em volta de fogueiras.

Sistema: Old Dragon (D20).

Personagens:

  • Elfric (nível 7): anão guerreiro. Ex-guarda de cidade que se viu forçado a encarar o mundo após sua esposa ter sido feita escrava pelos Homens-Lagartos. Tem como arma favorita uma montante.
  • Minukelsus (nível 6): humano necromante. Após ter sido curado de uma doença que o deixou repleto de cicatrizes, ele aprendeu o ofício da magia e busca itens mágicos para sua mestra. O grupo acha que ele é apenas um mago comum. Apenas Elfric sabe a verdade.
  • Trevor (nível 2): humano homem de armas. Após ter escapado do cerco a cidade de Nis, decidiu criar uma companhia de mercenários e ganhar muito dinheiro. Tem olhos dourados.
  • Arkos (nível 2): humano bárbaro. Saiu da sua tribo afim de explorar o mundo e descobrir as recompensas que ele traz. Usa o totem da tartaruga (+1 na CA).
Nayan, capital de Napes.
Nayan, capital de Napes.

– Finalmente! – o arqueiro sorria diante da estrada de terra inclinada que levava a cidade. – Concluímos o trabalho e agora você deve pagar a outra metade do acordo.

– Pelo seio de Dana! Você comeria merda para cagar ouro se pudesse. – resmungou Elfric. – Quando chegarmos a cervejaria eu lhe darei o dinheiro.

   A terra enlameada e marcada por profundos sulcos alongava-se na estrada entre um denso capim alto onde cavalos, bezerros e outros animais pastavam. O sol resolvera dar as caras após dias ausente, raios claros e quentes aquecendo o morro. Nayan apresentava-se à frente, com muralhas altas e pedregosas, uma trama de torres intricadas e estreitas que provaram-se mortais em guerras passadas. No fosso, crianças mergulhavam na mesma água em que os animais saciavam a sede e as mulheres lavavam roupas, e acima, a ponte levadiça de madeira vibrava com as pesadas carroças transportando grãos, carne, madeira e tecidos. Também transportava barris de freixo-verde, um componente essencial para a produção da cerveja Kelsus.

– Mal posso esperar para ver nossa cervejaria, Elfric! – Minukelsus não ficava contente assim há dias. Esfregou as mãos de aparência cadavérica e puxou o capuz revelando seus ralos cabelos loiros desbotados. – Vejo carroças com barris de freixo-verde por todo canto.

– Esse é o segredo da receita? – Trevor, o líder da companhia de mercenários que escoltara Elfric e Minukelsus, perguntou tentando parecer despretensioso.

– Trabalhar muito e perguntar pouco é o segredo. – Elfric puxou a barba ruiva como sempre fazia quando ficava irritado.

   A cidade estava apinhada de gente. O chão das tavernas transbordavam cerveja dos bêbados que sacudiam os braços, cantando alegres. Os templos ecoavam vozes de fieis alterados com acontecimentos recentes e as ruas fervilhavam de pessoas com as mais diversas intenções e propostas. Uma barraca vendia forragem para o inverno e sua vizinha gritava um anúncio sobre arenques defumados. Trapos e costuras para se proteger do inverno eram deitados sobre um tapete simples para exposição e negociação. Cavalos recebiam afagos enquanto eram comprados e escravos eram puxados aos trancos após a venda. Pisavam sobre terra batida e cascalho, de modo que aquela quantidade de pessoas em Nayan eram a causa do característico odor de urina que havia nas ruas. Felizmente esse odor misturava-se à cheiros mais agradáveis que escapavam de caldeirões de sopa, grelhas de uma estalagem próxima que fervilhavam com a gordura e dos fornos com pães. Uma névoa feita de fumaça permeava a cidade, dançando acima dos transeuntes.

– Por que há tantas tochas acesas de manhã? – Ysa, ex-escrava que entrou para os Águias Negras, referia-se as tochas presas a postes espalhados pelas ruas, aos braseiros queimando na porta de cada casa e aos tocheiros, em sua maioria, crianças pagas para circular com tochas pela cidade.

– São os morcegos. – disse o mago Minukelsus. – Estão por toda parte, e as chamas mantém-los longe.

640x747_15425_Vampire_Bats_2d_fantasy_vampires_bats_picture_image_digital_art   Os morcegos realmente eram um problema. Mesmo pela manhã essas criaturas voavam desajeitadamente por toda a cidade, esbarrando em portas, quebrando janelas e atiçando os animais. Mesmo no lado de fora da cidade, onde os animais pastavam, haviam tochas para afastar as pequenas criaturas. Havia quase um ano que Nayan estava repleta de morcegos, e nos últimos meses eles haviam ficado mais ousados e numerosos. O governo local ofereceu algumas poucas moedas para cada morcego morto ou ideias para mantê-los afastados. Há uma boa recompensa em ouro para quem solucionasse o problema. Era sabido que haviam cavernas abaixo de Nayan, e os morcegos provavelmente saiam de lá, mas os homens temiam-nas por acreditarem serem o lar de fantasmas e, recentemente, temiam ainda mais a Sangra-Mortos.

– Qual o motivo de tanta agitação? – perguntou suavemente Ysa para um velho corcunda. Um grupo de pessoas se formava atrás de uma barricada de madeira.

– Ah, minha filha – o velho a olhou de cima a baixo. – agora o bairro dos depósitos foi completamente trancado. Olha ali, acabaram de pregar a última tábua. – apontou à frente, além da multidão.

– Por que estão trancando o bairro? – Minukelsus perguntou temeroso, mas imaginava a resposta.

– É a Sangra-Mortos! – o velhinho tremeu. – Os deuses mandaram-na para nós em castigo por aceitar os falsos deuses entre nossas famílias. Ela vem em chiados negros do céu, batendo asas e mordendo! É o que os sacerdotes nos diz.

– Pela harpa de Daegh! – exclamou Elfric. – Até Nayan está sendo afetada pela doença? – preocupava-se com os negócios que possuía na cidade.

– Sim, é terrível. Há muitas pessoas infectadas ai dentro. Também há um Ogro.

– Ogro? – Trevor estava distraído mas a palavra trouxe-o de volta a realidade.

– Sim, um Ogro. Soube que estão pagando boa prata e ouro pela morte dele. Criatura terrível, já matou sete guardas e estão preferindo pagar para aventureiros limparem o local.

– Interessante. – disse o arqueiro, pensando no dinheiro.

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   Afastaram-se dali e caminharam à sombra de moradias com dois e até três andares que possuíam cômodos compartilhados por moradores. Em um beco, um garoto tentou roubar a bolsa de moedas de Arkos, um selvagem de modos rústicos que deu um tapa no ladrãozinho que o fez rodopiar duas vezes antes de cair inconsciente no chão. Bêbados e viciados no verme de Érinn esparramavam-se sobre o cascalho mijado. Turil, um elfo veterano de guerras com gosto por apostas observava com anseio no rosto homens jogando dados nas ruas.

– Achei que isso só existia na Velha Velq. – disse o jovem Machadinha, triste, como raramente ficava. Referia-se aos homens alucinados com o veneno expelido pelo verme de Érinn. Era alucinógeno e matava aos poucos, definhando seu usuário.

   Evitaram um trecho da rua principal que dividia-se em duas outras ruas que cortavam Nayan. Estava havendo um tumulto por ali, entre fiéis do Círculo e funcionários do Olho Vigilante. A guarda da cidade tentou parar a confusão mas cedeu sob a violência da turba. O motivo já era esperado: Oísin foi capturado. A notícia chegara há um dia e informava que a caravana do Círculo que saíra de Velq com destino à Nayan foi interceptada pela Guarda de Aço e pelo exército de Lughdis. Uma grande quantidade de pessoas morreram e outras foram capturadas, inclusive Oísin Cei, líder do Círculo. Agora seus seguidores queriam vingança, queriam destruir o Olho Vigilante, queriam a extinção da magia.

– Pobre Oísin. – lamentava Minukelsus.

– Ele trouxe isso para si. – Elfric falava. – Não deveria ter matado aquele mago e feito o outro de estandarte. Ele achou que faria isso em terras lughdien e sairia ileso?

– Talvez acreditasse que Daegh varreria o Olho Vigilante com uma tempestade. – Trevor zombou. Os três e o resto dos Águias Negras estavam na caravana quando Oísin declarou guerra ao Olho Vigilante. Tomaram a atitude que qualquer pessoa sã faria nesta situação: afastaram-se.

– Você não deveria lamentar tanto por ele, Minukelsus – o anão fazia gestos bruscos enquanto falava, como se estivesse esbravejando. -, veja o que ele fez para você, todos te olham torto por ser um mago.

– Eu sou o Corvo Branco, eles gostam de mim. – sorriu, esticando a cara queimada.

– Não mais. Agora desconfiam de tudo que é mágico. – afagou a barba. – Eu quero distância dessas pessoas. Vou resgatar Sarah, comprar uma mansão em Érenn e viver apreciando a brisa salgada do mar com um monte de rebentos fortes e saudáveis!

   Caminhando entre becos e poças que mais pareciam charcos, encontraram uma multidão em uma agitação usual de lugares por onde moedas rolam. Um beco cortava o caminho de um pátio que ficava entre três prédios altos, e ali, entre bancos e mesas de pedra, flores murchas e um galinheiro em polvorosa, sob a sombra, uma roda de homens alvoroçados observavam algum evento realmente excitante.

Turil aproximou-se da roda instintivamente, espiou além da massa de corpos suados e fedendo a cerveja, e então sorriu.

– É uma roda de briga. Um sujeito contra três. Ele luta bastante!

– Venha, Turil. Vamos receber dinheiro antes de gastar com apostas. – disse Trevor.

– Não, espera um pouco – Elfric caminhou na direção da roda. – conheço um inseto que gosta de meter-se nesses lugares.

O anão abriu caminho entre os homens até ver quem estava lutando.

Noah, o trambiqueiro, é claro.

Noah.
Noah.

   Estava descalço e sem camisa, vestindo apenas calças de linho cor de vinho temperado com lama e outras sujeiras. Em suas mãos usava bandagens brancas pinceladas com sangue. O lutador era alto, quase uma cabeça maior que os outros homens, e bastante musculoso. Cada soco desferido tencionava e destacava seus músculos que dançavam num ritmo frequente. Noah esperou seu oponente chutar para acerta-lo com a perna esquerda, chocando-as num estalar dolorido, apoiou a mesma perna no chão e subiu com a direita, raspando a sola do pé no pátio pedregoso, levantando lama e sangue a cabeça do inimigo que caiu e permaneceu imóvel. Agora eram dois atacando freneticamente enquanto Noah recuava e defendia com o antebraço. A multidão urrava e cuspia em êxtase. Ele fingiu escorregar nas pedras e caiu com o joelho apoiado no chão apenas para, em seguida, acertar um soco na virilha de um oponente. Levantou num salto e golpeou pesadamente mais uma cabeça e outro homem foi ao chão. O terceiro tentou desferir um soco antes do tempo e Noah agarrou sua mão, para em seguida partir seu joelho com um chute e derruba-lo com um soco na garganta.

   Noah andava em círculos, rindo, expondo com seus dentes extremamente brancos e fazendo gracejos ao público que agora tratavam de receber ou pagar moedas. Foi até um anão careca e extremamente barrigudo e pegou sua parte na luta, e então viu a expressão de puro ódio no rosto de Elfric.

– Ora essa, olha só quem veio a cidade santa. – sorriu e aproximou-se do anão. – Elfric, seu cão sarnento! Deixe-me dar-lhe um abraço.

– Seu verme imundo. – Elfric estremeceu de raiva. – O que está fazendo aqui? Apanhando por algumas peças de prata? E a maldita cervejaria? – afastou o abraço.

– Bem, isso não é apanhar. – só então viu Minukelsus, que estava com uma expressão ainda mais séria que a de Elfric. – O que houve com você, garoto?

– Vamos até a cervejaria, agora! – o anão puxou Noah pelo braço e passou pelos Águias, afastando-se deles. Minukelsus acompanhou-os.

– Pra que tanta pressa, amigo? Nem me apresentou aos seus novos companheiros. – olhou em volta. – Onde está Acclon?

– Morto, pois não ficou em Nayan coçando o rabo! – o anão tomou uma expressão ainda mais furiosa, distorcendo a boca e disparando perdigotos. – Você não é meu amigo, seu verme nojento. Seu bafo de merda azeda.

– Não sou seu amigo? – Noah alterou muito a voz. – Eu te ajudei em batalhas. Eu segui você e o louco daquele clérigo até a maldita Ilha do Tridente, onde você aparentemente só queria saber o paradeiro da sua esposa, mas teve que fazer a merda do trato com o dragão.

– Fale mais baixo, Noah. – repreendeu Minukelsus.

– Você ficou na vida boa aqui em Nayan, gastando do nosso dinheiro enquanto meus verdadeiros amigos, Minukelsus e Acclon me seguiam até o Outro Mundo para salvar Sarah.

– Eu fiz crescer a nossa cervejaria, com o nosso dinheiro, a seu pedido. – rangia os dentes enquanto falava. Estavam saindo do beco, e então Noah vestiu sua camisa, bem limpa e requintada, diferente da calça. Tirou um polegar de ouro do bolso e encaixou na mão direita, onde faltava-lhe o membro.

– É mesmo uma piada. – exclamou o anão. – Uma grande piada. Um polegar de ouro, seu inútil! Nem quero saber quanto custou essa porcaria.

– A cervejaria está funcionando e gerando riquezas, e não lhe devo satisfação alguma.

– Ah, é? – inqueriu Minukelsus, tão furioso quanto Elfric. – E as mil peças de ouro que sumiram da nossa conta compartilhada? Há algum tempo, aos poucos, nosso dinheiro vem sumindo. Por sua culpa.

– Vocês também retiravam da conta sem dar satisfações, então vão se danar! – apressou os passos até ficar distante deles.

   Os dois observaram furiosos até os Águias os alcançarem. Decidiram que a discursão não estava acabada e foram atrás de Noah que ia em direção a cervejaria.

   O estabelecimento ficava na parte alta da cidade, logo à frente de uma penosa ladeira repleta de estalagens e tavernas menos sofisticadas. Um bêbado foi arremessado de uma taverna e rolou passando pelo grupo. Prostitutas dançavam e levantavam os vestidos nas varandas, convidando ao prazer. Arkos só não atendeu ao chamado pois precisava receber primeiro.

   Parecera uma jornada desde o portão sul de Nayan, mas estavam à frente da cervejaria. Um galpão de madeira com duas janelas altas e uma escultura de madeira de uma espécie de golem segurando uma caneca de cerveja entre elas, e abaixo, sacudindo entre correntes que pendiam de um toldo de madeira, a placa revelava-os o recinto onde se produzia a cerveja Kelsus.

– O Golem de Cerveja. – leu em alto e bom som Arkos, provocando o espanto dos seus companheiros.

– Chegamos, como o combinado, anão. – disse Trevor.

– Certo, certo, seus sugadores de ouro de uma figa, aqui está o combinado. – Elfric deu as 50 peças de ouro. – Agora saiam da minha vista!

– Não vai precisar mais dos nossos serviços? – Ysa fez cara de cachorro abandonado.

– Não sabemos. Permaneçam na cidade por alguns dias e entraremos em contato. – disse Minukelsus.

– Certo, mas não demorem muito ou iremos embora. – disse Trevor enquanto contava as moedas.

– Como se vocês tivessem para onde ir. – retrucou Elfric, com desprezo.

   Os Águias Negras foram ao centro de Nayan gastar o dinheiro recebido enquanto Elfric e Minukelsus entravam na cervejaria. Logo abaixo da placa estava um ogro enorme, barrigudo e com a pele cinzenta cheia de rachaduras e cascas. Um belo machado pendia das suas costas e os braços do Ogro, que mais pareciam toras de madeira, demonstravam que ele devia ser bastante capaz com aquela arma. Abriu a boca repleta de dentes podres e quebrados.

– Propriedade privada. – o grande segurança esticava seu braço para barrar a passagem.

– Nós somos os donos. – disse Minukelsus.

– Propriedade privada. – repetiu o segurança, num murmúrio grave, porém hesitante.

– Eu sou Elfric Barba-Ruiva, dono do Golem de Cerveja de Napes, A Ruína do Inverno, Senhor de Byzantes, Explorador do Outro Mundo! Agora saia da minha frente. – o anão cuspiu seus títulos, alguns reformulados afim de causar reverência no Ogro mas isso apenas lhe causou confusão. Elfric empurrou o pesado braço e entrou na cervejaria. Minukelsus fez-lhe companhia e o Ogro ainda tentava assimilar tudo o que lhe foi dito.

   Estava quente dentro do galpão. Dezenas de pessoas trabalhavam para produzir a melhor cerveja de Voltura. Rostos duros e encharcados de suor agitavam caldeirões enormes, maiores até que o Ogro, que fervilhavam acima de grandes fornos. O cheiro era embriagante e parecia grudar ao corpo tanto quanto o pó que derramava-se dos sacos de grãos carregados de um canto a outro, de modo que tornava o piso de madeira uma camada alaranjada pintada com pegadas. Do primeiro andar, dois elevadores subiam e desciam sem trégua, carregando tonéis fechados com o auxílio de dois grandes homens que pareciam à beira da exaustão, enquanto outros subiam as escadas correndo com pequenas caixas ou sacos contendo ervas e mel. Elfric deu passagem para um outro anão que rolava debilmente um barril de freixo-verde que estava pronto para receber a cerveja e acelerar sua fermentação. Todos os funcionários pareciam cansados, com olhos vermelhos, coçados a cada minuto e expressões pálidas. Ao menos ganham dinheiro para sobreviver ao inverno. – pensou Elfric. À esquerda da entrada do galpão ficava a sala do administrador, onde estava Noah. Dirigiram-se agitadamente para lá.

– O que você está fazendo? – Minukelsus barrava a porta enquanto Elfric entrava. Noah estava terminando de recolher coisas da mesa.

– Tudo isso é meu, e vou dar o fora daqui.

– Está fugindo? – o anão não percebia, mas estava arfando de raiva.

– Estou indo pra casa, depois vou deixar vocês com essa cervejaria de merda.

– Então nos dê sua carta de autorização para retirar dinheiro do banco.

– Eu perdi aquela porcaria há alguns dias. – disse Noah, muito sério. A grossa cicatriz que traçava uma linha reta sobre seu nariz adunco parecia ficar mais vermelha conforme a raiva lhe subia a cabeça.

– Perdeu? – foi Elfric quem logo perdeu a compostura. – Seu cara de doninha chafurdada na bosta! Você perdeu uma carta que lhe concede um baú com mais de quatro mil peças de ouro?

– Eu estava bêbado.

– Você é desprezível, seu verme imundo. Aposto que fica o dia inteiro bebendo e lutando, apanhando como uma cachorra e não toca esse negócio pra frente!

– Calma, Elfric. – Minukelsus encarou sério Noah, que agora encontrava-se frente a frente com o mago, exigindo passagem. Respirou fundo, se concentrou, e falou.

– Diga o que você fez com a autorização. – as palavras eram inquisidoras e mágicas.

– Dei-a ao clérigo. – a inquisição do mago era irresistível. Mesmo que não percebesse, Noah falava a verdade. Pareceu perceber o que fizera segundos depois, enquanto Minukelsus olhava-o confuso. – Um desconhecido, numa aposta. – desconversou de maneira atrapalhada, segundos depois.

– O que você disse?

– Não é importante. Perdi, mas podem retirar minha parte da cervejaria como pagamento. – Noah empurrou o mago e começou a sair do estabelecimento. – E boa sorte com o dragão! – riu maliciosamente, sem saber do segundo acordo que fizeram.

   Elfric não precisava ser lembrado disso, estava preocupado demais para esquecer. Foram até a Ilha do Tridente em busca de informações e saíram de lá com uma dívida mortal. Depois retornaram ao dragão e lhe venderam terras para cobrir a primeira dívida e ganhar muito dinheiro, mas havia um condição: limpar a maldita terra que estava coberta por Homens-Lagarto, e tinha apenas 7 meses para isso. Haviam se passado 3 meses desde o acordo.

   Era prudente respeitar o acordo, pois o dragão agiota tinha grande fama. Iltheruu, o devorador do oeste. Conhecido por ter destruído dois reinos antigos por uma dívida. Dois reinos que prosperavam onde hoje se encontra o Outro Mundo.

   Uma pontada de medo e cansaço atingiu o espírito de Elfric ao lembrar da dívida, mas preferiu esquece-la por enquanto. O anão e o mago se entreolharam, zangados com Noah, e foram conferir o livro de finanças e outras notas sobre a cervejaria. Passaram horas ali.

 Feira

   Após dividir o lucro do trabalho, os Águias Negras espalharam-se por Nayan afim de satisfazer seus desejos. Bordéis, rodas de jogo, tavernas, armarias e estábulos foram alvos da peregrinação dos mercenários. Transitar por uma cidade tão agitada era difícil, e ainda mais complicado era aproveitar tudo o que ela oferecia. Trevor estava muito preocupado com o futuro da guilda para desperdiçar ouro e prata em prazeres temporários, queria construir algo maior. Estava sentado num banco de madeira do lado de fora da estalagem onde havia alugado um quarto, conversando com Ysa e rabiscando no chão de terra batida que os cercava com o auxílio de um galho.

– O que você está fazendo? – perguntou a ex-escrava.

– É um projeto de uma arma para cercos.

– Parece uma besta.

– É uma balestra. – ele sorriu. – Porém, estou desenhando em uma escala menor. Veja, ela fica apoiada em uma pequena carroça e há um escudo na frente dela, apenas com uma abertura para a flecha atravessar.

– Você já foi um armeiro?

– Meu pai era. – tirou os olhos do desenho para encara-la. – Ele me ensinou algumas coisas. Nada extravagante assim. Eu mesmo idealizei este projeto. – gabava-se com um sorriso vaidoso, os olhos dourados brilhando. Ysa apenas deu um sorriso e voltou a encarar a rua movimentada, percorrida por uma carroça repleta de suprimentos e com uma fileira de escravos acorrentados a ela. Trevor percebeu o olhar. – Deve ser horrível.

– É horrível. – Ysa falou asperamente, depois sorriu afim de suavizar as palavras. – Viver acorrentado quebra o corpo e o espírito. Essas pessoas veriam grades e correntes até mesmo depois de libertadas. Aconteceu comigo.

– E não acontece mais?

– Às vezes. – adotou expressão pensativa. – Acordo no meio da noite, me sentindo sufocada. Falo muito para me sentir livre, para me lembrar de que não há correntes me prendendo.

– Por isso entrou para nossa companhia? – Trevor olhava-a das cicatrizes do pescoço para os olhos. – Para sentir-se livre?

– Para fazer algo com a minha liberdade. – estava retraída e enrubescida. Brincava com o nó que prendia o vestido na cintura. – Afinal, arranjar um marido é apenas um tipo diferente de prisão.

   Continuaram uma conversa em tom lúgubre até Arkos chegar com um meio sorriso no rosto e uma bolsa de moedas muito mais leve. O selvagem aproveitara muito do que a cidade tinha para oferecer. Espancou dois ladrões que tentaram rouba-lo, espancou um mendigo que se fingia de cego, espancou um vendedor que vendia botas de qualidade duvidosa, espancou um mago que prometia triplicar seu ouro com um artefato questionável.

– Mas eu me diverti na Caverna da Bruxa. – explicou o motivo de seu sorriso.

– Foi no armeiro? – perguntou Trevor, e Arkos apenas deu de ombros. – Temos que saber quanto custa para fazer adagas e um escudo com esses pedaços de Besouro-Fogo. Eu vou com Ysa. Vá chamar todos os outros para nos reunirmos na taverna do Bode Dragão, a comemoração será por minha conta.

   Arkos ficou animado com a perspectiva de afogar-se em cerveja de graça e foi correndo atrás dos outros. Trevor e Ysa foram ao armeiro.

   A rua continuava apinhada e não havia previsão de melhora. Carroças iam e vinham, a fumaça dos tocheiros preenchiam as narinas e enuviavam a mente. Machadinha encontrou Trevor e Ysa no armeiro e se juntou a eles. Discutiram com o homem, que estava cobrando preços abusivos para fazer duas adagas do chifre de um Besouro-Fogo, mas após muitas negociações, chegaram a um resultado satisfatório.

– Ei, aquele não é o tal do Noah? – Machadinha apontou para o outro lado da rua, para um homem alto, bem vestido e sorridente, trazendo consigo uma carroça puxada por dois cavalos, abastada de barris e caixotes. Atrás da carroça, um Ogro enorme, o mesmo que estava fazendo a proteção do Golem de Cerveja, acompanhava-o.

– Parece que sim, não tenho certeza. – disse Trevor.

– Pra onde ele vai com tudo aquilo? Muito estranho. – indagou Ysa.

– Machadinha, siga ele discretamente, depois retorne e vá ao Bode Dragão. – o arqueiro coçou a cabeça, em dúvida. – Pela discussão que tiveram, talvez seja bom nossos “amigos” saberem a localização desse cara.

   O jovem Machadinha apenas assentiu e seguiu andando despreocupadamente na direção de Noah. Ele era bom em se disfarçar ou fazer com quem ninguém o notasse. Eram habilidades necessárias para os moradores da Velha Velq buscarem comida na superfície. Habilidades agora bem aproveitadas nos Águias Negras.

Taverna   Reunidos no Bode Dragão, os Águias riam e festejavam. A taverna era pequena, mas aconchegante. O interior era feito de madeira bem lustrada, com quadros e esculturas tribais de madeira decorando as paredes. O calor ambiente fedia a suor dos homens espremidos bebendo.

– Tome, beba mais um pouco. – Arkos empurrava canecas de cerveja sem parar para Ysa, mas bebia pouco.

– Eu não sou idiota, Arkos. – disse ela, mesmo assim pegou a caneca oferecida e deu um profundo gole. – E você irá precisar gastar seu rendimento da semana se quer me deixar bêbada.

   O selvagem grunhiu um lamento e começou a beber copiosamente. Turil arrancava dinheiro dos Águias no jogo de dados, sob acusações de trapaça e risos dos homens. Trevor sorria, contente em ver que todos aqueles mercenários reunidos, completo desconhecidos há algumas semanas, eram hoje irmãos de armas.

   Machadinha entrou no estabelecimento quase no fim do festejo. Não estava aborrecido por ter perdido a festa, pelo contrário, encontrava-se contente por ver a harmonia reinando entre seus companheiros. Pegou uma cadeira e a pôs ao lado de Trevor.

– Demoraram a sair da cidade. – parou para aceitar uma caneca cheia de cerveja que Arkos oferecia. – Andaram em círculos algumas vezes, temendo que alguém os seguissem. – fez uma careta após beber um gole. – Mas não me perceberam. Eles desceram o morro e deram a volta até a parte norte dele. Entraram em uma das cavernas subterrâneas que ficam abaixo da cidade.

– Eles estão loucos? – disse o arqueiro, surpreso. – Querem morrer de Sangra-Mortos? Os morcegos irão contamina-los.

– Então deixa ele morrer. – ouviu-se a voz engrolada de Arkos, após sua décima primeira caneca. Competia com Oteu, que estava em sua décima terceira. – E vamos festejar! – urrou batendo com a caneca na mesa, esparramando cerveja para todos os lados. O grupo apoiou, acompanhando o ritmo, porém Trevor estava preocupado. Precisava falar com Elfric e Minukelsus.

   Quando o arqueiro chegou a cervejaria e contou o que havia descoberto, Elfric segurou o cabo de sua espada com força suficiente para fazer sua mão sangrar. Olhou para Minukelsus e fez um gesto para Trevor, isso bastou para indicar o próximo passo do grupo.

Trevor.
Trevor.

   A lua prateava as pontas das lanças e lâminas das espadas daquele pequeno grupo determinado que descia o morro. Peitos estufados, armaduras e bainhas ajustadas ao corpo, firmes para uma batalha. Preocupavam-se com a possibilidade de haverem mortos-vivos nas cavernas e terem que enfrenta-los. Mas Trevor sabia que o perigo estava nos morcegos. Se os clérigos estivessem certos, se os morcegos transmitiam a Sangra-Mortos, então precisavam afasta-los. Ordenou que cada homem levasse um archote oleado, porém poucos estavam acesos.

   Arkos, Turil e mais dois lanceiros iam a frente. Os quatro equipados com lança e escudo, instruídos a derrubarem o Ogro sem se aproximarem dele. Imaginavam que quatro homens lado a lado eram o suficiente para fechar o corredor. Devido às prováveis más condições do conjunto de cavernas, preferiu deixar Ysa na cidade.

– Vocês precisarão de alguém para remendar os homens. – argumentou ela.

– Turil também é bom nisso. – entregou uma espada curta a ela. – Fique na estalagem e você ficará bem. Acredite em mim, temo que as coisas fiquem feias demais, prefiro que fique.

Ela apenas encarou seus olhos, silenciosamente.

– Nós voltaremos logo. – sorriu.

   A entrada da caverna estava precariamente disfarçada por uma pedra retangular meio escorada. Tentaram retira-la suavemente, mas a forma irregular do pedregulho escorregou das mãos dos homens, ecoando pesadamente ao longo da caverna. Elfric bufou.

Caverna

   A cavidade era extensa e larga o suficiente para até seis homens andarem paralelamente. Elfric e Machadinha tomaram os lugares vagos. O jovem batedor identificava rastros de uma carroça no chão, porém sem cavalos. A caverna, envolta em uma escuridão persistente, era de difícil descrição. Um amontoado de rochas escavadas precariamente, um solo inicialmente lamacento que dava lugar a um chão áspero e uma sinfonia de ecos agourentos. Chiados, bater de asas, sussurros e passos. Os homens estavam nervosos, ofegantes, apesar da ausência de exercício.

   Arkos sussurrava alguma coisa quando foi interrompido por uma tempestade de chiados e esvoaçares de uma massa negra que aproximava-se rapidamente. Um turbilhão de morcegos avançava para envolver os homens. Minukelsus gritou para que a linha de frente se abaixa-se e, em seguida, a cavidade foi clareada com as chamas do mago. O silvo renhido das criaturas preencheu toda a caverna a medida que as chamas espalhavam-se por todo o corredor à frente e tornava brasa tudo o que tocava.

– Juro pelos Deuses, queria tornar-me um mago. – disse Turil, espantado.

– Não é tão fácil quanto parece. – respondeu Minukelsus, gabando-se discretamente.

   Continuaram o percurso, agora torcendo os narizes devido ao odor acre e persistente que pairava sobre ele. Minukelsus estava na segunda linha de homens, com olhos muito atentos e mãos rápidas para a ação. Começou a sentir uma pontada na mente, como se uma lança estocasse entre seus olhos. Tentou ignorar, porém a cada passo, a imaginária ponta de ferro trespassava ainda mais sua cabeça. Seus olhos estreitaram-se e não conseguia enxergar nada mais além de um trapo de couro com ossos espalhados sobre ele, e no centro, o crânio de uma criatura muito antiga.

Esqueleto– Minukelsus. – sua rouca voz retumbava. – Ouça-me.

   O mago ficou alardeado. Era sua mochila. Há muito tempo não conversavam, e agora, dentro desta caverna, só poderia ouvir o que não desejava. O crânio continuou a falar.

– Um poder muito antigo reside aqui, você deve proceder com cautela. – sua voz era como o trovão. – Um poder antigo, que me é devido. Ele deve ser nosso, todo nosso.

   O mago não sabia o que dizer, apenas sentia um ódio profundo pelos habitantes da caverna, por mais que não tivesse visto-os ainda. Sua visão voltou ao normal com um clarão laranja, a tocha acesa de Trevor que encarava-o.

– Você está bem?

– Estou, eu apenas… – hesitou. – Eu senti algo muito forte nessa caverna. Algum tipo de magia.

   Um arquejo de desânimo atravessou a fileira dos homens. Não precisavam saber de antemão que enfrentariam um mago. Estavam com medo, com frio e frente a forças inexplicáveis. Magos são verdadeiras máquinas da morte, quando experientes. Geralmente isolam-se da sociedade até completarem seus estudos, momento em que são poderosos demais para a maioria dos guerreiros. Sozinhos, já derrotaram exércitos. A magia em Voltura era uma força destrutiva e descontrolada, e por mais que as limitações impostas a corpos mortais para a utilização dela fossem grandes, a magia ainda era capaz de gerar temor.

– Mas temos um mago também, e poderoso. – Trevor tentou recuperar a moral dos homens, sem muito sucesso, mas já estavam muito adentro na caverna, precisavam prosseguir.

   Fizeram mais duas curvas no túnel, momentos em que ele tornava-se mais amplo e depois voltava a ficar apertado. Chegaram até um espaço amplo, com goteiras que despejavam de rochas no teto. No centro, uma carroça estava abandonada sobre uma poça de água que imergia metade de suas rodas. Logo adiante, estavam três túneis, um deles escarpado nas rochas. Machadinha se adiantou para examinar todo o ambiente.

– Quem quer que tenha pisado aqui tinha bastante lama nos pés, será fácil acha-lo. – observava a carroça com bastante atenção. – Acho que é a mesma que Noah estava levando. Mas retiraram o conteúdo que estava em cima.

– Para qual dos túneis ele foi? – perguntou Trevor.

   Machadinha avalio o início de cada um deles, depois afirmou que Noah e o Ogro teriam ido pelo túnel mais íngreme. Sorriu, satisfeito com sua própria investigação. O grupo seguiu pela cavidade indicada por Machadinha até encontrar uma porta de ferro no fim de um corredor que estreitava-se a cada passo mais próximo dela.

– Portas em cavernas. – Arkos grunhiu.

– Machadinha, procure por armadilhas. – ordenou o líder dos Águias.

O jovem batedor se aproximou da porta, mas parou à um passo de distância, parecia ouvir algo.

– Abaixem-se!

Cultista   A porta abriu repentinamente, com um puxão dado por alguém do lado de dentro. Um selo laranja brilhou no centro dela e deformou o metal, gerando em seguida uma explosão de chamas vívidas que derrubou a maioria dos homens da linha de frente. As chamas envolvia capas, barbas e as armaduras de couro dos Águias Negras, que debatiam-se para extingui-las. Machadinha estava desacordado, com parte da face completamente vermelha e cheia de bolhas. Homens invadiam o corredor, avançando com espadas curtas nas mãos e recitando algum hino estranho que soava religioso devido ao tom melancólico. Eles debruçavam-se sobre os Águias Negras como um enxame que cutilava, estocava e aparentemente oravam por almas que estavam sendo tiradas naquele momento.

   Arkos empurrou dois inimigos que estavam sobre ele, deu uma torção no pulso e uma cabeçada em um deles para roubar-lhe a espada. Estocou a garganta do segundo adversário com precisão e facilidade. Nenhum dos atacantes estavam usando armadura, apenas sobretudos enormes, que arrastavam no chão. Trevor fora ferido no ombro por uma estocada e lutava para afastar a lâmina que continuava a pressionar seus músculos. Arkos lhe salvou dando um pesado golpe de maça na nuca do agressor. Agora ele havia largado a espada curta e segurava sua arma favorita na mão direita, enquanto levantava o líder. Espalhados pelo corredor, o grupo sangrava. Três homens haviam morrido pelas lâminas inimigas, sem chances de reação. Apenas depois do choque inicial eles erguiam-se e vingavam a morte dos parceiros. Minukelsus havia recuado para trás da linha de homens e lutava para manter-se de pé. Elfric finalizava o homem que o atacara com um golpe vertical de espada. Olhou para frente e viu, dentro da sala de onde saíram os atacantes, Noah, vestido com uma armadura de couro leve, pisoteando com violência o rosto de Raff. O anão correu com a espada e o escudo em mãos, impulsionando todo seu corpo em uma investida mortal. Noah pulou por cima do corpo de Raff, fazendo Elfric tropeçar nele e derrubando o anão com um chute no rosto em seguida.

– Esperava encontrar um fraco adversário desarmado? – Noah chutou os flancos de Elfric, que lutava para ficar de pé.

   O anão urrou e recuperou-se espantosamente, voltando ao combate com golpes pesados e grosseiros que colocavam toda sua força concentrada na espada. Eram golpes lentos, fáceis para Noah desviar. O lutador inclinou-se para trás, recuando de um golpe, impulsionou a perna esquerda para frente em seguida, acertando um chute na virilha do anão. Levantou o pé esquerdo num golpe que fez Elfric cambalear, depois saltou e, com um chute, derrubou o anão novamente.

– Assim como você treinou com a espada, amigo, eu treinei com meus punhos e pés.

   Em mais um grito rouco, Elfric ficou de pé, brandindo a espada afoitamente para manter o adversário afastado. Largou o escudo, embainhou a espada longa e puxou sua montante presa às costas.

– Desvia disso.

   Elfric golpeou o chão com força quando Noah fintou para a esquerda, depois varreu a área adiante com um golpe, fazendo o lutador recuar. A cada giro da enorme espada, Noah sentia mais dificuldade em manter-se ileso. Os sucessíveis golpes em área de Elfric impediam a aproximação de Noah. Recuou cada vez mais, até ver-se encurralado em um canto da sala feita de rocha. Tentou uma investida desesperada, mas teve a coxa perfurada por uma estocada de Elfric. A mão esquelética de Minukelsus segurou seu ombro para evitar o golpe seguinte.

– Precisamos fazer algumas perguntas a ele.

   A luta havia acabado. Os Águias Negras haviam vencido, entretanto, com grandes baixas. Quatro homens haviam morrido, entre eles, Raff. O restante passava bem, com exceção de Machadinha, que ainda estava atordoado. Turil cuidava dos ferimentos dele.

– Você vai ficar bem, garoto. Tem bons ouvidos, salvou a gente.

– Eles abriram a porta, mas a explosão não os pegou.

– É um selo de proteção. – explicou Minukelsus. – O impacto fica concentrado em apenas uma direção.

   Oteu, um dos anões gêmeos que se juntou a companhia, chamou a atenção de Trevor e lhe entregou um anel de bronze com uma joia vermelha incrustada.

– Todos os homens estavam usando um desses.

– Recolha todos, devem ter algum valor.

   O arqueiro mostrava a Minukelsus os anéis recolhidos quando um estrondo ecoou por todas as paredes. O gritou rouco martelou o ar repetidamente, de forma crescente. Parecia que as rochas gritavam de dor.

– Ele vai fazer o mesmo com vocês. – Noah sorria enquanto falava. – Parece doloroso, não parece? Mas é para o bem maior.

A voz trovejante continuava a ribombar. O som de correntes chacoalhando adicionavam mais desespero a sinfonia.

– Do que diabos você está falando? – Elfric pareceu temeroso.

– Da morte, amigo. Ou você aceita-a ou ela te afoga em veios vermelhos e pústulas de sangue.

   O trovão atordoante vinha de uma gruta que descia por uma passagem na parede. Trevor reuniu seus homens para ver o que acontecia, Minukelsus sentia novamente uma dor lancinante na cabeça.

– Algo maior do que nós esconde-se nesta gruta. – o mago soou agourento o suficiente para enrijecer os músculos dos homens de medo. – O que fazem estes anéis? – perguntou a Noah.

– Protegem, contra a doença.

   Imediatamente, todos os homens começaram a pegar um anel e a usá-lo. Minukelsus examinou brevemente o objeto e decidiu colocá-lo no dedo também, Elfric seguiu seu exemplo.

O grito de dor começou a ficar sufocado, lutando para ser ouvido, mas cada vez mais os homens ficavam preocupados.

– Amarre esse patife. – ordenou Elfric a Ozill, irmão de Oteu. – Agora vamos descer.

Ogro

   Entraram rapidamente na gruta, avançando sem cautela e imaginando o que esperava-os a frente. Desceram alguns poucos metros e seguiram reto até uma passagem esculpida em forma de arco na pedra, alta o suficiente para um gigante passar sobre ela. Adiante, sobre um altar de pedra circular, o Ogro que acompanhava Noah estava parado, com sangue escorrendo da boca. Veios vermelhos e bolhas sanguíneas estava à mostra por toda sua pele, os olhos vermelhos sangravam, morcegos debatiam-se e mordiam suas costas, ombros e cabeça, e os braços presos por correntes eram libertos por uma figura encapuzada.

   Minukelsus correu para ser o primeiro a passar sob o arco e aproveitar a área livre de aliados para inflama-la com uma bola de fogo. Todavia, ao atravessar a passagem, sentiu seu corpo tornar-se rijo, perdendo todo o controle sobre ele. Sentia-se uma marionete suspensa por cordas. Um selo de proteção brilhava sob seus pés.

– Vocês também serão limpos. Toda a cidade será.

   A figura era alta e parecia forte sob o manto negro que vestia. Usava uma máscara de madeira com uma figura espiral repleta de pontas espinhosas e uma maça de aço negro, com espinhos amarelos no corpo.

Baelor– Mate-os. – ordenou, e o Ogro saltou do altar circular para o chão, golpeando com ferocidade a rocha esculpida.

   A sala era alta. Uma estrutura de madeira com vários andares levava até pontos salientes de rochas que comportavam passagens para vários lugares da cidade. Nos andares de madeiras haviam cestos e caixas repletos de morcegos, que chiavam e tremiam suas prisões, produzindo uma bizarra música de fundo para a batalha.

   Os lanceiros de Trevor avançaram para a batalha. Cercaram o Ogro e estocaram alternadamente para que ele nunca soubesse de onde poderia vir o golpe. A criatura, porém, estava descontrolada e não pouco importava-se com as feridas. Ela avançava ferozmente, balando os braços e golpeando com fortes socos no peito ou na cabeça dos homens.

   Elfric e Trevor preferiram atacar o encapuzado. O arqueiro disparou uma flecha certeira que atingiu o inimigo no peito, mas sem causar muito dano aparente. Elfric investiu com a montante, mas parou repentinamente quando o inimigo gesticulou suavemente com a mão livre.

– Sua mente é minha, Elfric Barba-Ruiva. – disse a figura negra. Sua voz era poderosa e destacava-se sobre todos os outros ruídos da batalha. – Eu, como clérigo de Dyrak, assim desejo. Mate-os, todos eles.

– Um clérigo? – Trevor falou com Elfric, mas o anão permaneceu calado. Virou para o companheiro, os olhos estavam baços, o anão era praticamente um cadáver.

Elfric investiu contra Trevor, que jogou o arco no chão e desembainhou a espada.

– Elfric, o que está fazendo? – o arqueiro gritava para tentar recobrar a consciência do companheiro, mas era inútil. Elfric apenas cumpria ordens do clérigo.

   Lutando contra o Ogro, Arkos tentava utilizar a agilidade à força, saltando para esquerda ou direita e golpeando rapidamente com a lança, investindo em golpes mais pesados apenas quando conseguia rodear o Ogro o suficiente para não ser apanhando com um soco em um contra-ataque. Viu Turil afastar-se da criatura e amaldiçoou o elfo. Mais um lanceiro e outros dois Águias lutavam contra o Ogro. Irritado, Arkos correu até o inimigo e saltou para cravar a lança em sua barriga, mas teve a lança agarrada durante o salto e foi arremessado contra as rochas da parede.

   Turil separou a luta entre Elfric e Trevor com uma investida de lança. O elfo mantinha Elfric à distância com pequenas investidas. Trevor avistou o clérigo subindo a escadaria que levava ao segundo andar da estrutura de madeira.

– Ele está enfeitiçado. – disse a Turil. – Tenha cuidado. – olhou para os lados e viu Machadinha e mais um Águia Negra próximos. – Você, ajude-o. – apontou para o elfo. – Machadinha, venha comigo.

   O homem que lutava junto de Turil se jogou contra Elfric, balançando sua espada contra a volumosa armadura de placas de aço marcada de runas do anão. Bastaram dois golpes para que o homem morresse. Elfric cortou sua coxa e girou o corpo, erguendo alto a espada, descendo em seguida como um raio prateado que partiu carne, músculos e ossos como uma mão divide a água. Turil parou de tentar apenas ferir o anão, e seus golpes foram ficando cada vez mais rápidos e precisos, mas poucos conseguiam fazer mais do que apenas um risco na brilhante armadura.

Dwarf killing

   Trevor e Machadinha alcançaram o primeiro andar da estrutura e viam morcegos escapando de cestos e caixas jogadas no chão. O clérigo abria tampas e derrubava qualquer estrutura que continha os morcegos, e agora todo o ambiente estava escuro com as asas negras que batiam repetidamente acima. Subiram mais um andar e encontraram mais cestos despejados e criaturas espalhadas. Os morcegos chiavam, sujavam tudo por toda parte e mordiam com suas pequenas presas.

   O clérigo estava no terceiro andar, subindo com dificuldades uma parte mais elevada de pedra com uma rocha que tampava sua entrada. Ele começou a empurra-la. Abrira metade do espaço ocupado pela rocha quando outra flecha atingiu-o, desta vez no quadril.

– Pare ou ganha mais uma destas. – Trevor desafiou.

– Eles levarão a pureza para toda Nayan.

   O clérigo ergueu sua maça e uma massa de morcegos o envolveu. A flecha segurada por Trevor disparou, mas caiu no chão após atingir o turbilhão negro. As criaturas, além de envolver o clérigo, voavam através da abertura por trás da rocha, fugindo da batalha. Machadinha e Trevor abaixavam a cabeça devido aos milhares de morcegos que voavam e esbarravam neles, e mal puderam ver quando a enorme maça saltou do turbilhão de criaturas para os flancos do arqueiro. O clérigo empunhava com destreza a arma, e golpeou com força o rosto de Machadinha. Com um chute, Trevor foi empurrado e tomou outro golpe, desta vez no peito.

   Machadinha arremessou a pequena arma que lhe dá o apelido nas costas do inimigo. Correu pra golpeá-lo, mas teve o antebraço agarrado por ele. As mãos do clérigo queimavam e espalhavam algum tipo de infecção púrpura por todo o braço de Machadinha. Conseguiu se desvencilhar quando Trevor tentou uma estocada com a espada. O clérigo se afastou, de costas para a borda da estrutura de madeira, e correu até eles, brandindo a maça. Conseguiu acertar a arma de Machadinha, fazendo-a ser arremessada. Nesse instante, Machadinha investiu contra ele, ombro contra ombro, tentando derruba-lo. Trevor também jogou seu corpo e os três atravessaram a baixa borda de madeira do terceiro andar da estrutura, caindo com um estrondo no chão pedregoso.

   O grito do Ogro preencheu toda a sala enquanto ele fazia força para dividir ao meio o corpo de Ozill. Outros dois lutavam contra ele. Um acertou uma estocada profunda no joelho da criatura, que caiu com o outro joelho no chão. O segundo, Oteu, correu até o Ogro e lhe fez vários cortes na barriga com a espada. Estava furioso pela morte do irmão, e seu descuido lhe custou a vida. Foi pego pela cabeça. O Ogro ergueu-se com as duas mãos na cabeça do mercenário, transformando-a em uma sopa de sangue e miolos. Apenas o lanceiro restara contra ele, e ambos os combatentes ficaram em um jogo de gato e rato. O Águia estocava rapidamente, afastava-se e repetia sua ação. O lanceiro acabou tropeçando e fora apanhado pelo Ogro, que apertava seus ossos para parti-los em pequenos fragmentos. Subitamente, uma névoa gelada envolveu toda a criatura, que ao soltar o mercenário, cambaleou e caiu ruidosamente no chão após receber uma pancada de energia maciça no peito. O efeito do selo havia acabado, Minukelsus estava livre.

Luta

   Turil recuava, esperando Elfric abrir a guarda ao avançar e, quando ele finalmente o fez, estocou, transpassando um espaço livre entre as placas de aço e a malha por baixo da armadura, abrindo uma fenda que fluía sangue no corpo do anão, aumentada por uma torção na lâmina. Elfric se libertou do ferimento e começou a estocar, mantendo certa distância. Turil abriu a guarda e se jogou contra a lâmina de Elfric, desviando no último segundo da estocada, rodopiou sua lança acima da cabeça e cravou-a no quadril do anão. A lâmina perfurou pouco devido à resistência oferecida pelas placas de aço. Elfric, em vez de se afastar, agarrou os longos cabelos de Turil, fazendo o elfo soltar a lança e se debater para desvencilhar-se. O anão soltou a montante, caiu sobre o elfo e desembainhou sua espada longa. Elfric era um matador terrível. Passara muitos anos servindo a guarda de uma vila, mas quando resolveu aventurar-se pelo mundo atrás de sua esposa, teve que sobreviver a ameaças que o fortaleceram. Turil tentou, sem sucesso, sobreviver ao anão, arranhava e empurrava o rosto de Elfric desesperadamente, com uma careta no rosto, mas não conseguiu impedir o corte da fria lâmina em sua garganta. O sangue começou a fluir e Turil parou de lutar.

   Trevor estava sem fôlego e sangrando. Arrastou-se até sua espada e agarrou firme no cabo enquanto levantava-se com dificuldade. Ofegava com o peito explodindo em chamas a cada expiração, as pernas estavam bambas e o pulso esquerdo, torcido. Uma sombra o envolveu, fazendo-o desviar rapidamente para a esquerda. A maça espinhosa pareceu bufar contra o vento quando desceu pesadamente. O arqueiro cambaleou em direção ao clérigo, abrindo toda sua guarda e enfiando a maior parte da lâmina de aço no corpo do inimigo. As mãos do clérigo estavam erguidas, preparando um golpe letal. Elas vacilaram enquanto o arqueiro sorria e torcia a lâmina da espada, inundada pela torrente de sangue que escorria da ferida. O sorriso de Trevor transformou-se em uma boca retorcida de espanto quando Elfric atravessou sua coluna com a espada. Uma estocada executada com maestria e força, deslizando através da armadura como se ela fosse feita de tecido barato. O líder dos Águias Negras arqueou as costas, largando a espada e soltando um grito abafado. Caiu no chão, debatendo-se como um peixe fora d’água até perder lentamente todo o movimento. O clérigo também caiu, de joelhos sobre a rocha dura, pendendo lentamente para frente até estirar-se por completo no chão.

   Ainda era tudo escuridão para Elfric. O anão perseguia uma luz distante e finalmente a alcançou quando o clérigo de Dyrak morreu sob a espada de Trevor. Uma sombra persistia ao seu redor enquanto ele focava Arkos correndo furiosamente na sua direção.

– Você matou ele! – berrava enlouquecidamente o selvagem.

   O anão acordou a tempo de desviar da maça do selvagem. Arkos havia despertado poucos momentos antes da morte do líder, e agora queria vinga-lo. Aqueles poucos dias de peregrinação e batalha haviam criado fortes laços.

– Não fui eu! – gritava Elfric. – Eu juro, não fui eu!

   Arkos acertou o rosto do anão, fazendo-o tropeçar, mas Elfric ergueu-se com um golpe de montante que fez uma fenda vermelha no braço do selvagem. Arkos pouco se importou com o ferimento e avançou acertando golpes de maça na armadura manchada de sangue e socos no rosto de Elfric. Machadinha estava presenciando a batalha, implorando para que parassem. Minukelsus correu até os lutadores e apontou seu cajado. Uma nuvem congelante separou os dois combatentes, fazendo espiralar fumaça fria das rochas e do aço das armas.

– Já chega!

– Ele matou Trevor! – continuava berrando. – Eu quero vingança!

   Elfric olhava assustado ao seu redor. Via corpos, muito sangue e armas atiradas por todos os lados. Viu o cadáver do Ogro em cima de uma piscina de sangue. Trevor estava há poucos passos de distância, com a cara surpresa estampada em seu corpo sem vida.

– Não fui eu. Eu não sabia o que estava fazendo, eu juro por Daegh!

– Por favor, Arkos, temos que salvar Ysa. – implorou Machadinha. – A cidade, ela caiu. Aqueles morcegos foram todos pra lá. Temos que salva-la da Sangra-Mortos.

   Arkos urrou e arremessou a maça com toda sua força em Elfric. A arma golpeou a armadura do anão, amassando parte dela e colorindo um grande hematoma no tronco dele. Depois foi até a maça e a recuperou.

– A vida de Ysa vale mais do que tirar a sua. – grunhiu. – Mas não pense que está a salvo. Depois de salva-la, você morrerá.

   Elfric ainda estava atordoado com tudo o que acontecera. Tinha uma lembrança parca do que havia feito. Sabia que havia matado Trevor, Turil e outro homem, mas não lembrava exatamente como. Minukelsus estava ao seu lado, perguntando-lhe se estava bem, mas o anão ignorava a pergunta. Olhou para Machadinha, viu tristeza em seus olhos.

– Achei que fossemos um grupo.

– Não foi minha culpa. – era tudo o que Elfric conseguia repetir.

Minukelsus sentou sobre o altar circular e observou por muito tempo Elfric paralisado. Enfim, o anão olhou para o amigo.

– O que eu fiz?

– Matou. – o mago estava triste. – Não foi sua culpa. A magia deste era forte.

– Magia da morte. – respondeu, sentindo um calafrio. – Por onde olho, apenas vejo morte.

– Morte abaixo. – Minukelsus suspirou longamente. – Morte acima. A cidade já era. A cervejaria também.

– Temos que salvar Ysa. – Elfric falava com esperança reacendida. – Onde estão os outros?

– Subiram. Machadinha disse que há um túnel que leva até a cidade no terceiro andar desta estrutura. – apontou para os andares de madeira.

– É para lá que vamos. Eu preciso salvar Ysa.

– Precisa, amigo. – Minukelsus olhou para os corpos, baixou a cabeça e falou de maneira quase inaudível. – Você precisa salva-la.


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